O endividamento das famílias brasileiras permaneceu em 82% em agosto de 2026, repetindo o recorde registrado em julho e completando o sétimo mês consecutivo em nível histórico. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) em 10 de setembro.
O número considera famílias que possuem compromissos financeiros a vencer, como cartão de crédito, carnês, empréstimos, financiamentos, crédito consignado e cheque especial. Portanto, estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente. O sinal de maior preocupação aparece quando o consumidor começa a atrasar pagamentos ou compromete parcela excessiva da renda.
Em agosto, justamente esses indicadores apresentaram deterioração.
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Inadimplência também avançou em agosto

A parcela de famílias com dívidas em atraso subiu de 29,8% em julho para 29,9% em agosto. Embora a variação pareça pequena, ela ocorre em um cenário no qual o endividamento permanece no maior nível da série histórica.
Outro dado chama atenção: o percentual de famílias que afirmam não ter condições de quitar as dívidas atrasadas chegou a 12,5%, maior patamar desde fevereiro. Já a parcela que se considera muito endividada passou de 17,1% para 17,4%.
Isso mostra que o problema não está apenas na quantidade de famílias que possuem dívidas. Para uma parcela crescente dos consumidores, a dificuldade está em conseguir manter o orçamento equilibrado diante dos compromissos assumidos.
Atrasos estão ficando mais longos
O tempo médio de atraso também piorou. Em julho, as contas atrasadas estavam, em média, 64,6 dias nessa situação. Em agosto, o período aumentou para 65 dias.
A CNC identificou uma concentração importante na faixa de atrasos entre 30 e 90 dias, que chegou a 29,1% dos casos. Esse movimento é relevante porque indica que parte das famílias não está conseguindo regularizar rapidamente seus compromissos financeiros.
Quanto mais tempo uma dívida permanece em aberto, maior tende a ser o impacto dos juros, multas e demais encargos, dificultando a recuperação do orçamento.
Quase 20% das famílias comprometem mais da metade da renda com dívidas
Outro indicador que ajuda a entender a pressão sobre os consumidores é o comprometimento da renda.
Em agosto, 19,2% das famílias afirmaram destinar mais da metade dos rendimentos mensais ao pagamento de dívidas. Em julho, eram 19%.
Apesar disso, o comprometimento médio da renda permaneceu em 29,5%. A diferença entre os indicadores é importante: enquanto a média geral ficou estável, uma parcela específica dos consumidores enfrenta uma situação muito mais apertada.
Na prática, uma família que direciona mais de 50% do salário para prestações e dívidas dispõe de menos recursos para despesas essenciais, como alimentação, moradia, transporte e saúde.
Famílias de baixa renda enfrentam cenário mais difícil
O quadro é especialmente delicado entre os consumidores que recebem até três salários mínimos.
Nesse grupo, o endividamento aumentou de 84,9% para 85,1% entre julho e agosto. A inadimplência avançou de 38,5% para 38,8%, enquanto a parcela que declarou não ter condições de pagar as pendências subiu para 18,3%.
A diferença em relação às famílias de maior renda é expressiva. Entre aquelas que recebem mais de dez salários mínimos, o endividamento ficou em 72,3% e a inadimplência recuou para 14,9%.
Os números indicam que o crédito exerce papel mais relevante na manutenção do consumo entre famílias com menor renda, mas também deixa esse grupo mais vulnerável quando as despesas aumentam ou os juros permanecem elevados.
Cartão de crédito continua entre os principais fatores
O cartão de crédito permanece como uma das principais formas de endividamento dos brasileiros. Na edição de julho da Peic, o instrumento aparecia em mais de 85% das famílias endividadas. Também estavam entre as modalidades pesquisadas carnês, empréstimos pessoais, financiamentos de imóveis e veículos, crédito consignado e cheque especial.
O problema não está necessariamente em utilizar cartão ou contratar crédito. O risco aparece quando parcelas sucessivas passam a ocupar uma parcela cada vez maior da renda disponível.
Uma compra parcelada pode parecer pequena isoladamente, mas várias prestações acumuladas podem reduzir significativamente o dinheiro disponível nos meses seguintes.
O que o consumidor pode fazer para reduzir as dívidas

Diante desse cenário, especialistas em educação financeira costumam recomendar que o consumidor organize todas as obrigações antes de assumir novos compromissos.
O primeiro passo é identificar o valor total das parcelas, taxas e datas de vencimento. Em seguida, é importante separar dívidas caras, especialmente aquelas sujeitas a juros elevados, das obrigações com custo financeiro menor.
Também pode ser vantajoso buscar renegociação antes que a dívida se prolongue. O consumidor deve comparar o custo total da nova operação, e não apenas o valor da parcela. Uma prestação menor pode resultar em uma dívida mais cara se o prazo for excessivamente ampliado.
Outro cuidado é evitar utilizar uma nova modalidade de crédito apenas para adiar uma dificuldade de caixa sem alterar o orçamento. A substituição pode fazer sentido quando reduz efetivamente o custo da dívida, mas pode agravar o problema quando apenas transfere o saldo devedor para outro contrato.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
