A Polícia Federal descobriu que dirigentes de associações envolvidas em um esquema bilionário de fraudes contra o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) eram beneficiários de programas sociais como Bolsa Família, Auxílio Brasil e CadÚnico. A revelação, feita no contexto da Operação Sem Desconto, levanta sérias suspeitas sobre a legitimidade da liderança dessas entidades e o possível uso de laranjas.
Escândalo duplo: chefes de entidades fraudadoras do INSS recebiam Bolsa Família
Investigações da PF revelam que dirigentes de entidades envolvidas em fraudes no INSS estavam inscritos em programas sociais.
As entidades sob investigação

Quem são as principais envolvidas
Três entidades estão no centro das apurações da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU):
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- AAPB
- ABSP/AAPEN
- Universo
Essas organizações alegam representação nacional, com presença em mais de 4 mil municípios, mas segundo a PF, carecem de estrutura para atuação efetiva.
Dirigentes com perfil de baixa renda e idade avançada
Lista de presidentes investigadas
Cinco dirigentes identificadas pela PF possuem perfis que, em tese, não condizem com a gestão de grandes entidades de representação nacional:
- Maria Ferreira da Silva, 88 anos, presidente da AAPB desde 2021, aposentada desde 2003, consta no CadÚnico com renda per capita de R$ 1.320.
- Maria Liduina Pereira de Oliveira, 56 anos, presidente da AAPB desde 2022, recebeu Bolsa Família até 2015.
- Maria Eudenes dos Santos, 65 anos, presidente da ABSP/AAPEN desde 2022, beneficiária do Bolsa Família até 2021 e do Auxílio Brasil até 2022.
- Francisca da Silva de Souza, 71 anos, assumiu a presidência da ABSP/AAPEN em 2024, também ex-beneficiária do Bolsa Família.
- Valdira Prado Santana Santos, 79 anos, preside a Universo desde 2021, cadastrada no CadÚnico.
Suspeita de laranjas
De acordo com o relatório da Polícia Federal, o perfil das dirigentes sugere possível utilização como laranjas por terceiros. A idade avançada, baixa escolaridade, aposentadorias por invalidez e ausência de vínculos empregatícios anteriores levantam dúvidas sobre a real autonomia dessas mulheres à frente das entidades.
Apesar de não haver impedimento legal para pessoas em vulnerabilidade ocuparem cargos de presidência, o grau de articulação exigido por essas organizações seria incompatível com os perfis apresentados.
A fraude bilionária no INSS
O esquema dos descontos indevidos
A apuração conduzida pelas autoridades revelou que as entidades investigadas repassavam mensalmente à Dataprev – órgão responsável pelo processamento das informações do INSS – listas com nomes de supostos filiados. Com isso, eram aplicados descontos automáticos nos pagamentos de aposentadorias e pensões, sem que os beneficiários tivessem autorizado ou sequer tivessem conhecimento prévio da cobrança.
Como os descontos passavam despercebidos
Muitos aposentados sequer percebiam os descontos, seja por falta de acesso ao sistema Meu INSS, seja porque os valores eram pequenos e diluídos em meio a outros abatimentos legítimos, como empréstimos consignados e tributos.
Denúncias ignoradas por anos
Mesmo diante de diversas ações judiciais movidas por aposentados, os descontos continuavam sendo aplicados com autorização do INSS. O relatório da CGU identificou casos com:
- Filiação duplicada em diferentes entidades no mesmo dia.
- Erros repetitivos de digitação nos nomes dos beneficiários.
- Indícios de falsificação em massa de autorizações.
Esses elementos reforçam a hipótese de existência de uma “indústria da fraude”.
Operação Sem Desconto: o desmantelamento do esquema
Entidades investigadas
Ao todo, 13 entidades foram alvo das investigações, das quais 11 se tornaram alvos diretos da Operação Sem Desconto.
Entre as ações da Polícia Federal, destacam-se:
- Mandados de busca e apreensão em várias cidades.
- Quebra de sigilo bancário de dirigentes.
- Suspensão judicial de descontos aplicados pelos convênios firmados com o INSS.
Papel da CGU
A Controladoria-Geral da União contribuiu com auditorias que revelaram a completa ausência de controle sobre os dados enviados pelas entidades à Dataprev.
Em muitos casos, bastava a simples inserção de um nome e CPF em uma planilha para que o desconto fosse iniciado no benefício do segurado.
O impacto nas vítimas
Aposentados da zona rural entre os mais prejudicados
Conforme apontado por levantamentos paralelos à Operação, aposentados da zona rural são maioria entre as vítimas do esquema. A falta de familiaridade com meios digitais, como o acesso ao portal Meu INSS, facilita a atuação dessas entidades fraudulentas.
Prejuízo financeiro e psicológico
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+311 mil seguidores
Muitos aposentados perderam centenas de reais ao longo de anos, sem sequer saber que estavam sendo lesados. Além do impacto financeiro, há um desgaste emocional para os idosos, que muitas vezes precisam lutar na Justiça para reaver os valores.
Medidas e recomendações

Como os beneficiários podem se proteger
- Verificar mensalmente o extrato de pagamento no portal Meu INSS.
- Contestar imediatamente qualquer desconto não autorizado.
- Evitar o fornecimento de dados pessoais para terceiros ou associações desconhecidas.
Ações futuras do governo
A expectativa é que o INSS e a CGU adotem mecanismos mais robustos de verificação, exigindo documentação e validação biométrica para autorizar novos descontos em benefícios.
Dúvidas frequentes
Por que os dirigentes dessas entidades recebiam Bolsa Família?
A PF acredita que essas pessoas, por terem perfis de vulnerabilidade, foram usadas como laranjas por terceiros interessados no controle das entidades para viabilizar o esquema de fraudes.
O que é a Operação Sem Desconto?
É uma operação da Polícia Federal e da CGU que investiga descontos indevidos aplicados por associações em benefícios do INSS. Foram identificadas fraudes bilionárias em pelo menos 13 entidades.
Como saber se meu benefício está sendo descontado indevidamente?
Você pode acessar o portal Meu INSS e consultar o extrato de pagamento. Caso note descontos que não reconhece, deve denunciar e pedir a suspensão imediata.
O que o governo pretende fazer para evitar novas fraudes?
O INSS estuda implantar novas barreiras, como validação biométrica e obrigatoriedade de documentação física para autorizar qualquer desconto por associações ou sindicatos.
Considerações finais
O escândalo serve como um alerta: é urgente proteger os mais vulneráveis não apenas dos efeitos da pobreza, mas também da exploração por estruturas que deveriam representá-los.
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