Uma investigação da Polícia Federal (PF) revelou um esquema criminoso envolvendo servidores do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que lucravam com a venda de senhas de beneficiários. Cada senha vendida custava R$ 25, enquanto desbloqueios de benefícios no sistema do INSS eram comercializados por valores que chegavam a R$ 300.
A operação, denominada “Mercado de Dados”, foi deflagrada na cidade de Cascavel, Paraná, e aponta para a existência de um esquema bem organizado e lucrativo, envolvendo tanto servidores públicos quanto hackers especializados em invasões cibernéticas.
Investigação da Polícia Federal: Um Esquema Complexo

O delegado Lucas Amorim Ferreira, responsável pela investigação, detalhou como o esquema funcionava em diferentes frentes. Um grupo de hackers utilizava técnicas avançadas de invasão cibernética para acessar os dados do INSS, enquanto servidores da autarquia federal vendiam suas credenciais de acesso ao sistema, permitindo que esses criminosos manipulassem informações de beneficiários e realizassem fraudes.
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Os dados obtidos eram, então, vendidos a terceiros que utilizavam as informações para práticas ilícitas, como falsificação de documentos e saques fraudulentos em agências bancárias. A operação revelou que aproximadamente 40 mil senhas de beneficiários foram comercializadas, gerando um lucro estimado de R$ 1 milhão para a organização criminosa. Além disso, nos últimos três meses, cerca de 2.800 desbloqueios de benefícios foram realizados, gerando um lucro adicional de R$ 840 mil.
A Estrutura do Esquema
Segundo a PF, o esquema era dividido em várias etapas, com diferentes atores desempenhando papéis-chave:
- Hackers: Utilizavam suas habilidades de invasão para acessar os sistemas do INSS e roubar informações sigilosas.
- Servidores do INSS: Vendiam suas credenciais de acesso aos criminosos, permitindo que as fraudes fossem realizadas.
- Intermediários: Responsáveis pela comercialização dos dados para qualquer pessoa interessada, seja para fraudes bancárias, falsificação de documentos ou obtenção de benefícios indevidos.
O delegado Ferreira afirmou que a organização criminosa responsável por cooptar os servidores públicos também lucrava com desbloqueios de benefícios, aumentando ainda mais os ganhos ilícitos.
Impacto Financeiro do Esquema
A operação da PF identificou que, ao todo, a organização criminosa teria movimentado cerca de R$ 32 milhões. Esse valor engloba tanto a venda de senhas de acesso ao sistema Gov.br, quanto a realização de desbloqueios de benefícios do INSS. Esses desbloqueios permitiam que criminosos alterassem dados dos beneficiários e solicitassem novos benefícios de forma fraudulenta.
A PF informou que um dos grupos investigados era responsável pela cooptação de servidores públicos, que vendiam seus logins para acessar o sistema Meu INSS, o que possibilitava a manipulação de informações e a solicitação de benefícios fraudulentos.
Operação “Mercado de Dados”
A Polícia Federal deflagrou a operação “Mercado de Dados” na quinta-feira (26), cumprindo 18 mandados de prisão e 29 de busca e apreensão em diversos estados. Os alvos da operação incluíam tanto servidores do INSS quanto hackers envolvidos no esquema. Além disso, a Justiça determinou o sequestro de 24 imóveis pertencentes aos membros da organização, bem como o bloqueio de recursos financeiros em contas bancárias vinculadas ao grupo, totalizando o valor de R$ 34 milhões.
Apreensões
Durante a operação, a PF apreendeu uma série de bens de alto valor, evidenciando o lucro exorbitante gerado pelas atividades ilícitas da organização criminosa. Entre os itens apreendidos estão:
- R$ 200 mil em espécie
- Uma carteira de bitcoins
- Joias e pepitas de ouro
- Veículos de luxo, incluindo modelos como SW4 2022, Volvo 2018, Renegade 2023, BMW X3 e Porsche 911
Esses bens serão utilizados como provas no inquérito, que apontam para o enriquecimento ilícito dos envolvidos no esquema.
Consequências Jurídicas e Investigações Futuras
Os envolvidos no esquema responderão por uma série de crimes graves, incluindo:
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- Organização criminosa
- Corrupção ativa e passiva
- Invasão de dispositivos informáticos
- Violação de sigilo funcional
- Comercialização de dados sigilosos
- Lavagem de capitais
As penas combinadas para esses crimes podem ultrapassar 15 anos de prisão, dependendo da gravidade das infrações cometidas. O inquérito ainda está em andamento, e novos desdobramentos podem surgir à medida que a investigação da PF avança.
Ações do INSS e Ministério da Previdência
O Ministério da Previdência afirmou, em nota oficial, que colabora ativamente com a Polícia Federal por meio da Força-Tarefa Previdenciária, cujo objetivo é combater crimes estruturados contra o sistema previdenciário. A força-tarefa é responsável por identificar e analisar indícios de fraudes organizadas que afetam diretamente o INSS.
Questionado sobre a possível vulnerabilidade do sistema, o INSS não deu detalhes, alegando que não comenta investigações em andamento, e garantiu que monitora a rede continuamente para prevenir acessos indevidos. O órgão afirmou ainda que, se comprovada a participação de seus servidores nas fraudes, eles responderão judicialmente.
Fragilidades no Sistema Gov.br

O esquema de venda de senhas de acesso ao Gov.br evidencia uma fragilidade no sistema, que deveria garantir a segurança de milhões de brasileiros que utilizam a plataforma para acessar serviços essenciais, como a consulta de benefícios do INSS. A venda de logins por valores tão baixos — R$ 25 por senha — sugere a necessidade de medidas mais rigorosas de segurança digital para proteger os dados dos cidadãos.
Considerações finais
A operação “Mercado de Dados” revelou um esquema de fraudes no INSS que envolve a cooptação de servidores públicos e o uso de técnicas avançadas de hackers. A venda de senhas e o desbloqueio de benefícios geraram um lucro exorbitante para a organização criminosa, que, ao todo, movimentou mais de R$ 30 milhões.
A investigação continua, e as ações da PF, em colaboração com o Ministério da Previdência, são essenciais para combater crimes que afetam diretamente a vida de milhões de brasileiros.
