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Etanol está mais competitivo em 2026, mas gasolina ainda domina. Veja por que o brasileiro mantém a preferência e como fazer a conta.

Melissa BarbosaPor Melissa Barbosa··8 min de leitura
Etanol

O etanol está mais competitivo em boa parte do Brasil, mas isso ainda não foi suficiente para fazer o consumidor voltar a abastecer como fazia alguns anos atrás. Em julho de 2026, apenas 29,2% da frota de veículos flex abasteceu com etanol, segundo dados compilados pela Datagro.

O número está acima dos 22% registrados em 2023, mas continua distante dos 37,8% de julho de 2019. A diferença chama atenção porque, em muitas regiões, a conta já favorece o biocombustível.

Em 67% da geografia de consumo analisada pela Datagro, o etanol hidratado estava mais vantajoso do que a gasolina. Em São Paulo, a relação entre os preços chegou a 58,4%, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Pela regra tradicional de comparação, o etanol costuma ser considerado competitivo quando custa menos de 70% do preço da gasolina.

Mas, se a conta está favorável, por que tantos brasileiros continuam escolhendo a gasolina?

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O consumidor ainda está preso ao hábito

Etanol
Imagem: Canva

Uma das explicações está no comportamento. Depois de um período em que a gasolina ganhou vantagem econômica, parte dos motoristas simplesmente não mudou novamente de combustível quando o cenário começou a favorecer o etanol.

Mariana Zechin, analista da consultoria agro do Itaú BBA, apontou justamente essa inércia como um dos fatores que ajudam a explicar o comportamento atual. Segundo ela, o ano começou com condições mais favoráveis à gasolina, e a mudança não foi imediatamente acompanhada pelos consumidores.

Existe também uma percepção bastante difundida de que a gasolina sempre oferece melhor rendimento. Como o etanol possui menor conteúdo energético por litro, o carro normalmente percorre uma distância menor com a mesma quantidade de combustível.

Isso não significa, porém, que a gasolina seja automaticamente mais econômica. O que determina a melhor escolha é a combinação entre preço por litro e consumo do veículo.

A conta dos 70% ainda funciona?

A regra dos 70% continua sendo uma referência útil para o motorista fazer uma comparação rápida.

Se o litro da gasolina custa R$ 6,00, por exemplo, o etanol estaria abaixo do limite tradicional de vantagem quando custasse menos de R$ 4,20.

Mas essa conta é apenas uma aproximação. O consumo varia de acordo com o modelo do veículo, as condições de trânsito, o estilo de direção e até o trajeto percorrido.

Por isso, para saber qual combustível realmente pesa menos no bolso, a comparação mais precisa é feita pelo custo por quilômetro rodado.

Como fazer a conta no próprio carro

Imagine, de forma ilustrativa, um carro que percorra:

  • 8 km/l com etanol;
  • 11 km/l com gasolina.

Nesse caso, o rendimento do etanol equivale a cerca de 72,7% do rendimento da gasolina.

O motorista pode então comparar quanto gastará para percorrer 100 quilômetros com cada combustível. Essa conta é mais precisa do que simplesmente aplicar uma porcentagem fixa ao preço da gasolina.

A gasolina brasileira mudou

A comparação ficou ainda mais interessante em 2026 porque a gasolina comercializada no país passou por mudanças na quantidade de etanol anidro presente na mistura.

Em 2025, o percentual obrigatório de etanol anidro na gasolina comum passou de 27% para 30%, formando a chamada gasolina E30. A mudança foi estabelecida pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e regulamentada pela ANP.

A elevação do percentual faz parte de uma política mais ampla de incentivo aos biocombustíveis e está relacionada à Lei do Combustível do Futuro, sancionada em 2024.

Com uma quantidade maior de etanol anidro misturada à gasolina, a tradicional comparação entre os dois combustíveis deixa de ser tão simples quanto era no passado.

Por que o etanol não consegue recuperar participação?

O preço é apenas uma parte da história.

Especialistas ouvidos pelo The AgriBiz apontam também a existência de desinformação sobre o biocombustível. Nas redes sociais, relatos de problemas mecânicos são frequentemente associados ao etanol sem que exista uma investigação capaz de determinar a causa da falha.

Um problema no sistema de injeção, por exemplo, pode estar relacionado a diversos fatores, inclusive combustível adulterado, manutenção inadequada ou defeito mecânico. Um relato isolado não é suficiente para concluir que o etanol provocou o problema.

A percepção negativa também acaba sendo reforçada quando experiências individuais são apresentadas como se fossem uma regra para todos os veículos.

Etanol estraga carro flex?

Não há uma regra que permita afirmar isso.

Os veículos flex são desenvolvidos justamente para funcionar com gasolina e etanol hidratado em diferentes proporções. O uso do combustível recomendado para o veículo não significa, por si só, que o motor será danificado.

O cuidado do consumidor deve estar principalmente na qualidade do combustível e na procedência do posto.

Se o veículo apresentar falhas depois de um abastecimento, o ideal é procurar uma avaliação mecânica antes de atribuir automaticamente o problema ao tipo de combustível utilizado.

O mercado brasileiro precisa que o consumidor volte ao etanol

A resistência do consumidor ocorre em um momento particularmente importante para o setor sucroenergético.

O Brasil deve ter aumento expressivo na produção de etanol na próxima safra. As estimativas mais recentes citadas pelo The AgriBiz apontam crescimento de 11,7%, para aproximadamente 42 bilhões de litros.

Ao mesmo tempo, o mercado internacional ficou mais difícil para o produto brasileiro.

Os Estados Unidos também apresentam produção elevada e, segundo especialistas, ganharam competitividade em mercados que tradicionalmente compravam etanol brasileiro. Com menos espaço para exportações, uma parcela maior da produção precisa ser absorvida pelo mercado doméstico.

Estoques elevados preocupam as usinas

Quando a produção cresce mais rapidamente que o consumo, o resultado pode ser o aumento dos estoques.

Para as usinas, isso representa um problema financeiro. Produto armazenado significa capital que ainda não virou receita, enquanto os custos continuam existindo.

O cenário se torna ainda mais delicado em um ambiente de juros elevados, que encarece o financiamento e aumenta o custo de manter recursos parados.

Por isso, uma recuperação do consumo interno de etanol seria importante não apenas para o motorista, mas para toda a cadeia produtiva.

O que aconteceria se o brasileiro voltasse a usar mais etanol?

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O potencial é significativo.

Segundo estimativa de Plínio Nastari, fundador da Datagro, se a participação dos veículos flex abastecidos com etanol voltasse ao patamar observado em 2019, o consumo doméstico poderia crescer em cerca de 8 bilhões de litros.

Esse aumento ajudaria a absorver parte da produção adicional esperada para a próxima safra.

Também reduziria a dependência do setor em relação ao mercado externo, justamente em um momento de maior concorrência internacional.

Gasolina ou etanol: qual escolher?

A resposta depende do preço encontrado no posto e do consumo do seu carro.

A regra dos 70% pode servir como uma primeira referência, mas não deve ser encarada como uma lei universal. Um veículo que apresenta rendimento muito diferente entre gasolina e etanol pode ter um ponto de equilíbrio próprio.

Para quem quer economizar, a melhor estratégia é acompanhar o consumo real do próprio automóvel.

Se possível, registre a quilometragem e o número de litros abastecidos durante alguns tanques com cada combustível. Depois, compare o custo necessário para percorrer a mesma distância.

Um exemplo simples

Suponha que a gasolina custe R$ 6,00 e o etanol R$ 4,00.

O etanol representa 66,7% do preço da gasolina. Pela regra tradicional, seria uma situação favorável ao biocombustível.

Mas, se o veículo apresentar um consumo muito pior com etanol, a diferença pode diminuir. É justamente por isso que o motorista deve olhar para o custo por quilômetro, e não apenas para o valor exibido na bomba.

O que pode mudar nos próximos meses?

Etanol
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

O comportamento do consumidor será decisivo para o mercado de etanol no segundo semestre de 2026.

Caso os preços continuem competitivos e mais motoristas retomem o abastecimento com o biocombustível, a demanda doméstica poderá ajudar a absorver o crescimento esperado da produção.

Se a preferência pela gasolina permanecer, por outro lado, o setor poderá enfrentar maior pressão sobre os estoques em um momento de exportações menos favoráveis.

Para o consumidor, a principal lição é mais simples: não existe motivo para escolher gasolina ou etanol apenas por hábito.

O preço dos combustíveis muda, o rendimento varia de carro para carro e o mercado brasileiro também está passando por alterações na composição da gasolina. Fazer a conta com os dados do próprio veículo é a maneira mais segura de descobrir qual opção realmente vale a pena.

Claro, diva. Uma conclusão mais jornalística, forte e fechando a matéria:

Conclusão

O etanol está mais competitivo em diversas regiões do país, mas a gasolina continua sendo a escolha de muitos motoristas. A preferência é influenciada não apenas pelo preço, mas também pelo rendimento do veículo, hábitos de consumo e percepção sobre os dois combustíveis.

Com as mudanças recentes na composição da gasolina e a expectativa de aumento na produção de etanol, essa relação pode continuar mudando nos próximos meses. Para quem abastece, acompanhar os preços e comparar o custo por quilômetro é a melhor forma de decidir qual combustível oferece mais economia.

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

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