A falência Vier, uma das mais tradicionais do setor ervateiro no Sul do país, marca o fim de uma era para o mercado da erva-mate no Brasil. Fundada em 1944, a Vier Indústria e Comércio do Mate, com sede em Santa Rosa (RS), teve a falência decretada pela Justiça nesta segunda-feira (3), a pedido da própria empresa. O anúncio encerra oficialmente mais de oito décadas de produção e tradição na cultura do chimarrão e no setor agroindustrial gaúcho.
Tradicional fábrica brasileira, fundada em 1934, acaba de decretar falência total
Após 80 anos de história, a tradicional fábrica de erva-mate Vier decreta falência no Rio Grande do Sul, acumulando dívidas e encerrando as atividades.
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A decisão judicial ocorre após a empresa acumular dívidas de R$ 49,7 milhões, possuindo apenas R$ 11,8 milhões em bens declarados. O juiz Eduardo Savio Busanello determinou o lacramento da sede e a liquidação dos ativos para pagamento dos credores, em um processo que reflete os desafios enfrentados por indústrias tradicionais diante das mudanças econômicas e estruturais no país.
As causas do colapso da Vier

A petição apresentada pela própria empresa à Justiça detalha as razões que levaram ao colapso financeiro. Entre os principais fatores estão:
- Falta de matéria-prima, agravada pela expansão da monocultura da soja, que reduziu as áreas de cultivo da erva-mate;
- Problemas de saúde do sócio-administrador em 1998, com o falecimento do mesmo em 2020;
- Encarecimento de insumos e custos de frete das filiais de Rio Negrinho (SC) e São Mateus do Sul (PR);
- Dificuldades fiscais e endividamento bancário crescentes;
- Um incêndio na sede, ocorrido em dezembro de 2012, que causou danos estruturais significativos.
Esses fatores, somados a um cenário econômico desfavorável e à queda na rentabilidade do setor, tornaram inviável a continuidade das operações.
Tentativa frustrada de recuperação judicial
A Vier ingressou em recuperação judicial em 2021, na tentativa de reestruturar suas finanças e manter a atividade produtiva. No entanto, o plano não foi cumprido conforme previsto. A empresa, que chegou a ter presença relevante em todo o Sul do Brasil, vinha operando com capacidade reduzida desde então e acabou suspendendo completamente a produção no segundo semestre de 2024.
A falência decretada em 2025 encerra oficialmente um processo de declínio que se arrastava há anos. Mesmo com esforços de readequação e arrendamento de sua marca, a companhia não conseguiu resistir à combinação de endividamento, custos crescentes e falta de capital de giro.
Administração judicial e liquidação dos ativos
Com a decretação da falência, o juiz nomeou a Estevez Guarda como administradora judicial responsável por conduzir o processo de liquidação dos bens e gestão dos passivos. Segundo o despacho, o principal ativo da empresa é a marca Vier, que atualmente está arrendada à empresa Rei Verde, sediada em Erechim (RS).
O plano da administração judicial é preservar a marca — considerada valiosa pelo peso histórico e reconhecimento no mercado — e vender rapidamente os bens restantes, com o objetivo de quitar parte das dívidas.
Entre os ativos listados, estão equipamentos industriais, imóveis, estoques remanescentes e direitos sobre contratos antigos. A Justiça determinou também o lacramento da sede em Santa Rosa, medida que já começou a ser executada.
O impacto no setor ervateiro
Apesar da relevância da marca e da comoção regional causada pelo encerramento, especialistas avaliam que a falência da Vier não deve gerar grandes impactos na cadeia produtiva da erva-mate.
Segundo o Instituto Brasileiro da Erva-Mate (Ibramate), o Rio Grande do Sul conta atualmente com cerca de 240 processadoras ativas, responsáveis por mais de 1,5 mil marcas que abastecem o mercado nacional e internacional.
No entanto, o fechamento da Vier traz uma reflexão sobre os desafios enfrentados por empresas tradicionais que não conseguiram acompanhar as transformações do setor, especialmente em relação à modernização tecnológica e à gestão sustentável da produção.
O legado da marca Vier
Fundada há mais de 80 anos, a Vier foi uma das pioneiras na industrialização da erva-mate no país. Durante décadas, seu nome esteve associado à qualidade artesanal, ao respeito às tradições regionais e à valorização cultural do chimarrão — símbolo da identidade gaúcha.
Além de seu papel econômico, a marca teve grande valor simbólico, representando o espírito empreendedor das pequenas indústrias familiares que formaram a base do desenvolvimento agroindustrial do Sul do Brasil.
Com o passar dos anos, a Vier consolidou parcerias com cooperativas de produtores, participou de feiras nacionais e manteve forte presença no mercado regional. Contudo, as mudanças estruturais da economia, o aumento da concorrência e a concentração de mercado em grandes grupos dificultaram a sobrevivência das indústrias médias e pequenas.
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Um retrato das dificuldades das indústrias tradicionais
A falência da Vier não é um caso isolado. Diversas indústrias tradicionais brasileiras enfrentam problemas semelhantes: altos custos de operação, dificuldades logísticas, instabilidade econômica e desafios de sucessão familiar.
Especialistas apontam que, sem planejamento sucessório e modernização administrativa, empresas familiares acabam vulneráveis a crises financeiras e à perda de competitividade. No caso da Vier, a ausência de um sucessor administrativo após o falecimento do sócio-gerente agravou o cenário, resultando em má gestão e acúmulo de dívidas.
O futuro da erva-mate no Brasil
Mesmo diante do fechamento da Vier, o setor da erva-mate no Brasil segue em expansão moderada. A valorização do consumo de produtos naturais e a crescente exportação da erva-mate para mercados como a Europa e os Estados Unidos têm garantido certo fôlego ao segmento.
Empresas que investem em sustentabilidade, inovação e marketing digital vêm se destacando e conquistando novos nichos de mercado. O desafio, segundo o Ibramate, é equilibrar tradição e modernização, garantindo que o produto continue símbolo da cultura sulista, mas com um modelo de negócio adaptado às exigências do século XXI.
O encerramento de um ciclo histórico

Com a decretação da falência, a Vier encerra uma das trajetórias mais simbólicas da indústria ervateira gaúcha. Sua história se confunde com a própria evolução do setor e com o imaginário cultural da região Sul.
Mais do que um caso econômico, a falência representa o fim de um ciclo histórico de empresas familiares que moldaram a base industrial do interior do Brasil. O nome Vier, mesmo sob nova gestão, permanece como símbolo de tradição e resistência, relembrando a importância de preservar o legado das indústrias que ajudaram a construir a economia regional.
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