A decisão do governo federal de extinguir a chamada “taxa das blusinhas” provocou forte reação de entidades da indústria e do varejo brasileiro, ao mesmo tempo em que promete reduzir imediatamente os preços de produtos importados vendidos em plataformas internacionais como Shein, Shopee e AliExpress.
Entidades apontam impacto no emprego após mudança tributária sobre importados
Governo encerra taxa das blusinhas, reduz preços de importados e provoca reação da indústria e do varejo nacional.
A medida foi oficializada por meio de Medida Provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e por uma portaria do Ministério da Fazenda publicada no Diário Oficial da União na terça-feira (12). Com a mudança, compras internacionais de até US$ 50 feitas pelo programa Remessa Conforme deixam de pagar o imposto de importação de 20%.
Na prática, consumidores brasileiros devem perceber rapidamente preços menores em roupas, eletrônicos, acessórios, itens para casa e outros produtos vindos principalmente da China.
Por outro lado, representantes da indústria nacional afirmam que o fim da tributação amplia a concorrência desigual e ameaça empregos, arrecadação e investimentos no Brasil.
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O que era a taxa das blusinhas
A chamada “taxa das blusinhas” entrou em vigor em agosto de 2024 após aprovação do Congresso Nacional.
Ela criou um imposto de importação de 20% para compras internacionais de até US$ 50 realizadas dentro do programa Remessa Conforme.
Antes disso, esse tipo de compra possuía isenção federal, pagando apenas ICMS em alguns casos.
O objetivo da medida era:
- Reduzir a concorrência considerada desleal;
- Aumentar a arrecadação;
- Fortalecer a indústria nacional;
- Equilibrar a tributação entre empresas brasileiras e estrangeiras.
A taxação atingia principalmente plataformas internacionais de e-commerce que cresceram fortemente no Brasil nos últimos anos.
Como ficam os preços após o fim da taxa
Especialistas afirmam que o impacto nos preços tende a ser imediato.
Segundo o especialista em comércio exterior Jackson Campos, os e-commerces internacionais devem retirar rapidamente a cobrança do imposto do valor final exibido ao consumidor.
Com isso, permanecerá apenas a incidência do ICMS estadual.
Exemplo prático da mudança
Como funcionava antes
Uma compra internacional de US$ 50 recebia:
- 20% de imposto de importação;
- ICMS de 17% ou 20%, dependendo do estado.
Nesse cenário:
- Produto: US$ 50;
- Com imposto de importação: US$ 60;
- Com ICMS: US$ 72,29;
- Valor aproximado em reais: R$ 354.
Como fica agora
Sem o imposto federal:
- Produto: US$ 50;
- Apenas ICMS “por dentro”;
- Valor final: US$ 60,24;
- Valor aproximado: R$ 295.
Ou seja, a redução pode superar R$ 50 em uma única compra.
Entenda o que é o ICMS “por dentro”
O ICMS aplicado nas importações funciona de forma diferente de tributos comuns.
No modelo chamado “por dentro”, o imposto integra sua própria base de cálculo.
Na prática, isso significa que o percentual do ICMS incide também sobre ele mesmo, elevando o valor final da operação.
Por isso, o cálculo não é apenas acrescentar 17% ao valor do produto.
Dólar baixo também ajuda importados
Outro fator que favorece produtos internacionais é a queda recente do dólar.
Nesta terça-feira, a moeda americana fechou em R$ 4,89, menor nível em mais de dois anos.
Em 2026, a divisa acumula queda superior a 10%.
Segundo Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, a combinação entre dólar mais barato e retirada do imposto deve ampliar ainda mais a competitividade dos produtos estrangeiros.
Indústria e varejo criticam decisão do governo
A reação do setor produtivo brasileiro foi imediata.
Entidades da indústria, comércio e varejo classificaram o fim da taxa como um “grave retrocesso econômico”.
Abvtex fala em ataque ao varejo nacional
A Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex) afirmou que a medida prejudica diretamente empresas brasileiras.
Segundo a entidade, o setor nacional já enfrenta:
- Alta carga tributária;
- Juros elevados;
- Custos operacionais crescentes;
- Complexidade regulatória.
Para a associação, manter benefícios às plataformas internacionais cria uma competição desigual com empresas instaladas no Brasil.
FIEMG alerta para perda de empregos
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) afirmou que a decisão aprofunda a assimetria competitiva entre indústria nacional e plataformas estrangeiras.
A entidade relembrou estudo divulgado antes da taxação em 2024.
Segundo a pesquisa, a manutenção do cenário sem imposto poderia gerar:
- Perda de 1,1 milhão de empregos;
- Redução de R$ 99 bilhões no faturamento do setor produtivo.
CNI critica favorecimento à indústria estrangeira
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também reagiu fortemente.
Para a entidade, permitir importações sem tributação equivale a financiar indústrias estrangeiras, especialmente da China.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirmou que o prejuízo recai diretamente sobre empresas que produzem e comercializam dentro do território brasileiro.
Mais de 50 entidades assinaram manifesto
Em abril, mais de 50 entidades empresariais lançaram um manifesto contra a possibilidade de extinção da taxa.
Entre os participantes estavam:
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- Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit);
- Associação Brasileira de Varejo Têxtil (ABVTEX);
- Confederação Nacional da Indústria (CNI);
- Confederação Nacional do Comércio (CNC);
- Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV);
- Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq).
O documento defendia que a tributação ajudou a:
- Preservar empregos;
- Estimular investimentos;
- Aumentar a arrecadação;
- Reduzir desigualdades competitivas.
Pesquisa aponta mudança no comportamento do consumidor
Segundo levantamento do Instituto Locomotiva citado no manifesto:
- 12% dos consumidores deixaram de comprar em plataformas estrangeiras após a taxação;
- 36% reduziram as compras internacionais;
- 52% mantiveram ou ampliaram o consumo.
Os dados indicam que a taxa teve impacto parcial sobre os hábitos de compra dos brasileiros.
Governo perde arrecadação bilionária
Além dos impactos sobre empresas nacionais, a medida também reduz receitas federais.
Segundo a Receita Federal:
- Em 2025, a arrecadação da taxa chegou a R$ 5 bilhões;
- Nos quatro primeiros meses de 2026, já somava R$ 1,78 bilhão;
- O valor representa recorde histórico para o período.
A arrecadação ajudava o governo a perseguir a meta fiscal prevista no novo arcabouço fiscal.
Impacto nas contas públicas
O governo busca atingir em 2026 uma meta de superávit equivalente a 0,25% do PIB.
Com dificuldades fiscais persistentes, receitas extraordinárias passaram a ganhar relevância para o equilíbrio das contas públicas.
Especialistas avaliam que o fim da tributação pode pressionar ainda mais o resultado fiscal, especialmente diante da desaceleração econômica global e do aumento de despesas obrigatórias.
Consumidor é o principal beneficiado no curto prazo
Apesar das críticas do setor produtivo, economistas reconhecem que o consumidor tende a ser o principal beneficiado inicialmente.
Produtos importados mais baratos podem:
- Aumentar o poder de compra;
- Reduzir custos para famílias;
- Ampliar acesso a bens de consumo;
- Intensificar a concorrência de preços.
Isso ocorre principalmente em segmentos como:
- Moda;
- Eletrônicos;
- Acessórios;
- Itens domésticos;
- Produtos para pets.
Debate envolve proteção da indústria nacional
O tema reacende uma discussão antiga sobre proteção da indústria brasileira.
Economistas favoráveis à tributação afirmam que diversos países vêm endurecendo regras contra importações de pequeno valor.
União Europeia e Estados Unidos, por exemplo, passaram recentemente a revisar políticas relacionadas à entrada massiva de produtos asiáticos baratos.
A justificativa é semelhante à apresentada pela indústria brasileira:
- Preservar empregos locais;
- Proteger cadeias produtivas nacionais;
- Evitar competição tributária desigual.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
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