Galípolo destaca resiliência surpreendente da economia brasileira apesar dos juros elevados
A economia brasileira tem mostrado uma capacidade notável de resistir a pressões internas e externas, mesmo diante de uma política monetária restritiva com juros elevados.
Essa foi a avaliação feita por Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, em evento realizado no Centro de Debate de Políticas Públicas, em São Paulo, no dia 2 de junho de 2025.
Durante o debate sobre a conjuntura econômica brasileira, Galípolo chamou a atenção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e para a situação do mercado de trabalho, que, segundo ele, surpreendem considerando o atual contexto de taxas de juros elevadas.
Leia mais:
JP Morgan prevê crescimento maior do PIB brasileiro no segundo trimestre
EV3: o primeiro carro elétrico com câmbio manual chega ao Brasil por menos de R$ 100 mil
A resiliência da economia brasileira em meio a juros altos

O que Galípolo destacou sobre o cenário atual
Segundo Galípolo, a economia tem demonstrado uma resiliência “surpreendente” diante da política de juros altos mantida pelo Banco Central.
Desde o início do ano, a taxa básica de juros (Selic) tem se mantido em patamares próximos a dois dígitos, com o objetivo de controlar a inflação, que vinha pressionada desde o período anterior.
No entanto, apesar desse ambiente monetário restritivo, os indicadores econômicos têm apresentado resultados positivos.
“Seguimos numa economia que vem surpreendendo, ou apresentando uma resiliência surpreendente para o nível de taxa de juros que a gente tem”, afirmou Galípolo, reforçando a importância de se observar não apenas a taxa de juros, mas também o saldo comercial, a atividade econômica e o mercado de trabalho para ter uma visão mais completa do cenário.
Crescimento do PIB e desempenho do mercado de trabalho
O Produto Interno Bruto brasileiro cresceu 1,4% no primeiro trimestre de 2025 em relação ao último trimestre de 2024, um resultado considerado positivo diante da conjuntura global desfavorável e dos desafios internos.
Esse desempenho indica que o consumo e os investimentos mantiveram certa robustez, mesmo com o aumento dos custos financeiros.
Mais surpreendente ainda é o indicador do mercado de trabalho. O desemprego fechou em 6,6% no trimestre encerrado em abril, um índice bastante baixo se comparado aos últimos anos.
Para Galípolo, essa baixa taxa de desemprego em um cenário de juros elevados desafia a lógica tradicional da economia.
“Como é possível você estar numa taxa de juros real que se aproxima de 10% e estar em pleno emprego? Essa é a pergunta central para todos nós”, questionou o presidente do Banco Central.
Essa aparente contradição tem sido motivo de estudos entre economistas e especialistas, pois taxas de juros elevadas geralmente desaceleram o crescimento econômico e elevam o desemprego.
Críticas ao aumento do IOF e suas consequências
O impacto do aumento do IOF na economia
Gabriel Galípolo aproveitou o debate para manifestar sua insatisfação com o recente aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) promovido pelo governo federal.
Ele alertou que a elevação do imposto pode trazer efeitos negativos para o câmbio e a confiança do mercado, gerando um receio de que o governo queira implementar medidas de controle de capitais.
“O IOF é um imposto regulatório, não deveria ser usado para aumentar a arrecadação. Seu aumento pode causar distorções no mercado cambial”, declarou.
Possibilidade de revisão do modelo do IOF
Apesar da crítica, Galípolo pediu paciência para que o modelo final do IOF seja definido, lembrando que ainda está em discussão e pode ser recalibrado.
“Precisamos aguardar o desenho final para entender como isso será incorporado em nossas projeções e qual será o impacto real”, explicou.
Esse posicionamento demonstra a cautela do Banco Central em relação às intervenções fiscais que possam comprometer a estabilidade do sistema financeiro e a política monetária.
O Brasil e a guerra tarifária internacional
Vantagens brasileiras em relação a outros países
Em relação às tensões comerciais globais, Galípolo avaliou que o Brasil está em uma posição mais favorável em comparação com outros países, especialmente frente à guerra tarifária promovida pelos Estados Unidos sob a administração de Donald Trump.
Diferentemente do México, que tem forte integração com a cadeia produtiva dos EUA, o Brasil possui uma economia menos dependente das exportações para o mercado norte-americano e conta com parceiros comerciais alternativos.
Economia brasileira voltada à demanda doméstica
Outro ponto destacado foi a característica da economia brasileira, que é fortemente guiada pela demanda interna e não pela exportação, o que ajuda a proteger o país dos impactos diretos de uma guerra tarifária.
“Nossa economia é muito mais dirigida pela demanda doméstica do que por uma demanda de exportação, o que nos confere maior resiliência nesse contexto”, afirmou o presidente do BC.
A postura do Banco Central frente às incertezas econômicas
Evitando previsões definitivas
Ao final do debate, Galípolo foi enfático ao evitar fazer previsões concretas para a economia brasileira no médio e longo prazo.
Ele explicou que o Banco Central tem optado por não se comprometer com “guidance” ou orientações futuras específicas para evitar a necessidade de revisões que possam prejudicar sua credibilidade.
“Essa tentativa de criar atalhos para ganhar credibilidade pode ser muito custosa para o Banco Central se tivermos que rever essa trajetória”, explicou.
Foco na adaptação e monitoramento contínuo
Esse posicionamento reflete uma abordagem mais prudente diante das incertezas globais e nacionais, reforçando o papel do Banco Central em monitorar continuamente os indicadores econômicos e adaptar as políticas conforme a evolução dos cenários.
Considerações finais: desafios e oportunidades para a economia brasileira
A fala de Gabriel Galípolo traz um panorama de contrastes que refletem a complexidade do atual momento econômico do Brasil.
Apesar das taxas de juros historicamente altas e da pressão inflacionária, o país tem demonstrado uma capacidade de adaptação que surpreende até mesmo os formuladores de políticas.
O crescimento do PIB e a baixa taxa de desemprego indicam que, mesmo em um ambiente desafiador, a economia mantém forças internas importantes. Ao mesmo tempo, a crítica ao aumento do IOF evidencia a necessidade de cautela na formulação de políticas fiscais que possam impactar a estabilidade financeira.
Por fim, a posição do Brasil diante da guerra tarifária global e a predominância da demanda doméstica indicam que o país possui algumas vantagens estruturais que poderão ser exploradas para sustentar o crescimento e a geração de empregos nos próximos anos.
O que acompanhar daqui para frente
- Política de juros: Como o Banco Central irá calibrar a Selic nos próximos trimestres, considerando a resiliência e os riscos inflacionários.
- Ajustes fiscais: Desdobramentos sobre o IOF e outras medidas do governo que possam impactar o ambiente econômico.
- Mercado de trabalho: A manutenção da taxa de desemprego baixa em meio a um cenário global incerto.
- Relações comerciais internacionais: Como o Brasil vai se posicionar diante de novos conflitos comerciais e acordos multilaterais.
A evolução desses fatores será decisiva para consolidar ou não essa “resiliência surpreendente” que, até o momento, tem sido um ponto positivo para a economia brasileira em 2025.
