Um fenômeno silencioso, mas crescente, está preocupando especialistas, empresas e governos: o avanço da Geração Z entre os chamados “Nem-Nem-Nem”, ou seja, jovens que não trabalham, não estudam e não fazem cursos de qualificação.
Por que a Geração Z está evitando trabalhar e estudar? Veja o que dizem os especialistas
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Esse comportamento não é apenas reflexo de dificuldades econômicas, mas também uma escolha consciente motivada por fatores sociais, psicológicos e culturais.
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Dados revelam tendência preocupante

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), cerca de 20% dos jovens entre 15 e 24 anos em todo o mundo estão fora do mercado de trabalho e do sistema educacional.
E o Brasil segue a tendência: milhares de jovens abandonam os estudos sem perspectiva de ingresso no mercado formal de trabalho.
Um relatório recente da PwC revelou um dado ainda mais alarmante: 4 em cada 10 jovens da Geração Z consideram pedir demissão mesmo sem ter outra fonte de renda garantida, vivendo de ajuda familiar ou do seguro-desemprego.
Essa postura revela desencanto com a lógica produtiva tradicional e um novo olhar sobre o valor da saúde mental e da qualidade de vida.
Entenda os fatores por trás do desinteresse da Geração Z
Falta de perspectiva financeira a longo prazo
Muitos jovens da Geração Z acreditam que, mesmo com esforço, não alcançarão estabilidade econômica. O custo de vida elevado, os salários estagnados e o aumento dos preços de imóveis contribuem para a sensação de que trabalhar duro não garante recompensa.
Segundo a TransUnion, a Geração Z ganha, em média, US$ 45.500 por ano — valor inferior ao dos Millennials, que ganhavam cerca de US$ 51.852 (ajustado pela inflação) na mesma faixa etária.
Esse descompasso gera frustração e desmotivação, levando muitos a não verem sentido em estudar ou se qualificar.
Saúde mental: um peso invisível
Mais de um terço dos jovens entre 18 e 24 anos apresenta sintomas de transtornos mentais comuns, como ansiedade e depressão.
A Geração Z é quase duas vezes mais propensa a sofrer desses transtornos do que os Millennials na mesma idade. Muitos jovens relatam cansaço crônico, crises de pânico, insônia e falta de propósito.
Além disso, faltas no trabalho por questões de saúde mental são mais frequentes entre jovens do que em gerações anteriores. Um estudo da Resolution Foundation mostra que a ausência por licença médica entre jovens está aumentando, especialmente em ambientes considerados tóxicos.
Críticas ao mercado de trabalho tradicional
A Geração Z cresceu observando seus pais esgotados, muitas vezes com múltiplos empregos, e não quer repetir o mesmo caminho. A frase de um jovem à Fortune resume esse sentimento:
“Estou apenas me concentrando no presente porque o futuro é deprimente.”
Para essa geração, a lógica da “correria” perdeu o sentido. Eles valorizam mais a autenticidade, equilíbrio emocional e tempo livre, preferindo empregos com menos pressão e jornadas mais flexíveis. A busca por funções com maior qualidade de vida, como aquelas ligadas à educação, tecnologia e áreas técnicas, é crescente.
Impacto nas empresas e na economia
Desafio das empresas: atrair e reter a Geração Z
A falta de interesse da Geração Z em integrar o mercado formal representa um desafio estratégico para as empresas. Segundo a consultoria McKinsey, mais da metade dos CEOs acredita que sua cultura organizacional é tóxica — algo que afasta ainda mais os jovens talentos.
Empresas que não se adaptam às novas exigências de bem-estar, diversidade, inclusão e flexibilidade correm o risco de se tornar obsoletas. A Geração Z valoriza ambientes saudáveis, lideranças empáticas e propósito real.
Riscos para o futuro econômico
A crescente inatividade econômica entre os jovens pode gerar impactos diretos no crescimento do país. Sem qualificação e sem experiência, esse grupo terá mais dificuldade de inserção futura no mercado, o que pode gerar um ciclo de desigualdade, exclusão e aumento da informalidade.
Governos e instituições precisam criar políticas públicas que integrem jovens em situação de vulnerabilidade, oferecendo acesso à educação técnica, programas de estágio com propósito e acompanhamento psicológico.
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Caminhos possíveis: o que dizem os especialistas?

Investir em bem-estar e educação emocional
Especialistas alertam para a importância de combinar ações de capacitação com programas de saúde mental. Para a psicóloga e pesquisadora Maria Helena Borges:
“Não adianta oferecer cursos e vagas de emprego se os jovens não têm saúde emocional para se engajar. É preciso investir no bem-estar deles.”
Reformular o modelo educacional
O sistema educacional atual não dialoga com os valores da Geração Z, que exige mais autonomia, flexibilidade e conexão com o mundo real.
Soluções como ensino híbrido, formações técnicas de curta duração e cursos voltados para habilidades socioemocionais têm sido apontadas como alternativas viáveis.
Incentivar novos modelos de trabalho
O trabalho remoto, os contratos flexíveis, o empreendedorismo digital e os chamados “bicos online” são opções que despertam o interesse da nova geração. Para mantê-los ativos e produtivos, é necessário respeitar seus limites e necessidades, ao invés de forçá-los a se encaixar em padrões ultrapassados.
Geração Z: desilusão ou revolução?
O que para muitos parece apatia ou irresponsabilidade, pode ser interpretado como uma resposta consciente a um modelo de vida que deixou de fazer sentido.
A Geração Z não quer apenas “sobreviver trabalhando”. Eles buscam bem-estar, propósito e tempo de qualidade — e essa visão pode estar moldando o futuro do trabalho, da educação e da sociedade como um todo.
Enquanto governos e empresas tentam compreender e reagir ao fenômeno dos “Nem-Nem-Nem”, os jovens da Geração Z continuam traçando caminhos próprios, mesmo que ainda sem rumo definido.
Imagem: Canva
