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Gerdau reduz investimentos e demite 1.500 após pressão do aço chinês, não do tarifaço

Importações da China pressionam Gerdau, que demite 1.500 e revisa investimentos no Brasil; governo é criticado por falta de proteção comercial.

Juliana PeixotoPor Juliana Peixoto5 min de leitura
Gerdau reduz investimentos e demite 1.500 após pressão do aço chinês, não do tarifaço

A Gerdau, uma das maiores empresas siderúrgicas da América Latina, anunciou uma série de medidas drásticas em sua operação no Brasil, incluindo o corte de aproximadamente 1.500 postos de trabalho e a revisão de aportes programados para os próximos anos.

O motivo não foi o chamado “tarifaço” do ex-presidente norte-americano Donald Trump, como muitos poderiam imaginar, mas sim o avanço agressivo das importações de aço da China, classificadas pela própria companhia como “não isonômicas e predatórias”.

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Gerdau
Imagem: casa.da.photo / shutterstock.com

Segundo o CEO da Gerdau, Gustavo Werneck, a presença crescente de aço chinês no mercado brasileiro vem gerando uma competição desleal, impactando diretamente a produção nacional. “Historicamente, os importados representavam menos de 11% do mercado. Hoje, chegam a 30%, quase todos da China”, afirmou o executivo, que vê nesse cenário uma ameaça à sustentabilidade da indústria local.

A crítica recai especialmente sobre a ausência de medidas eficazes por parte do governo brasileiro para conter essa concorrência. “Não tem sentido continuar investindo no Brasil, porque o governo não faz proteção ideal do mercado”, declarou Werneck, acrescentando que os mecanismos implementados até o momento se mostraram ineficientes.

Demissões e cortes concentrados em São Paulo

Os efeitos dessa pressão externa já começaram a ser sentidos de forma direta nas operações da Gerdau. Cerca de 1.500 trabalhadores foram desligados apenas em 2025, principalmente nas unidades de Pindamonhangaba e Mogi das Cruzes, no estado de São Paulo. A empresa não descarta novos cortes caso o cenário permaneça desfavorável.

Além dos empregos, os investimentos também estão sendo redimensionados. Dos R$ 6 bilhões previstos para este ano, dois terços estavam direcionados ao Brasil, especialmente em projetos de mineração em Minas Gerais. Embora esses recursos estejam mantidos, Werneck deixou claro que novos aportes dependerão do ambiente de mercado e da atuação do governo em relação às importações.

Competitividade fragilizada

O executivo reforçou que a empresa investe anualmente cerca de R$ 6 bilhões em manutenção e aprimoramento da competitividade, valor que agora será reavaliado. “Nos Estados Unidos, os investimentos serão mantidos, pois lá há um ambiente mais favorável aos negócios”, destacou.

Essa comparação direta entre os mercados brasileiro e norte-americano expõe uma lacuna nas políticas de defesa comercial no Brasil. Enquanto os EUA adotam medidas rigorosas para proteger sua indústria local, inclusive com tarifas de importação e salvaguardas, o Brasil tem optado por uma postura mais liberal, o que segundo o setor siderúrgico tem custado empregos e investimentos.

Frustração com a política de comércio exterior

O ponto de maior frustração para a Gerdau, segundo Werneck, foi a reunião do Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Camex), realizada em 24 de julho. Na ocasião, esperava-se um aumento das tarifas de importação sobre o aço chinês — medida fortemente pleiteada pelo setor —, mas a proposta não foi aprovada.

A ausência de respostas mais contundentes por parte do governo aumentou o sentimento de insegurança na indústria. “É difícil se manter competitivo no Brasil”, resumiu Werneck, sugerindo que a continuidade das operações em certas unidades pode estar em risco sem mudanças concretas na política de importação.

Tarifaço de Trump não afeta diretamente a Gerdau

aço e alumínio
Imagem: Freepik

Apesar do aumento das tarifas dos EUA sobre produtos siderúrgicos estrangeiros, a Gerdau conseguiu mitigar os impactos graças à sua estrutura global. A empresa possui uma planta produtiva nos Estados Unidos voltada exclusivamente para atender ao mercado local, o que a isentou das tarifas aplicadas por Donald Trump.

Rafael Japur, vice-presidente executivo de finanças e CFO da Gerdau, explicou que, embora os efeitos do tarifaço sejam indiretos, há preocupação com setores clientes, como o automotivo e o de máquinas e equipamentos, que podem sofrer retrações. “A dificuldade dos nossos clientes pode afetar a demanda deles por aço. É cedo para mensurar, mas os reflexos devem aparecer”, alertou.

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Resultados do 2º trimestre indicam resiliência

Mesmo diante do cenário desafiador, a Gerdau apresentou lucro líquido de R$ 864 milhões no segundo trimestre de 2025, representando um crescimento de 14% em relação ao trimestre anterior. No entanto, em comparação com o mesmo período de 2024, houve queda de 8,6%.

A receita líquida da companhia totalizou R$ 17,5 bilhões, alta de 5,5% na base anual. Os números mostram que, apesar das dificuldades, a empresa ainda sustenta resultados sólidos, impulsionados especialmente pela construção civil, responsável por cerca de 40% da demanda doméstica de aço.

Construção civil segura parte da demanda

Segundo Japur, o setor da construção continua em expansão no Brasil, o que contribui para sustentar parte da produção da Gerdau. Entretanto, o restante do portfólio de clientes — com destaque para os segmentos industrial e automotivo — está vulnerável às oscilações do mercado internacional e aos reflexos do cenário político e comercial.

Perspectivas e cobrança por proteção comercial

A Gerdau agora concentra esforços na reavaliação de suas estratégias de investimento e operação. A empresa deixou claro que o futuro das operações brasileiras dependerá diretamente da postura do governo em relação à proteção do mercado nacional. A cobrança por medidas mais efetivas — como aumento das tarifas de importação, implementação de cotas e combate à prática de dumping — se intensifica.

Se por um lado os dados financeiros ainda mostram resiliência, por outro, os cortes de empregos e o redirecionamento de investimentos indicam que a paciência da Gerdau pode estar no limite. A continuidade da atual política comercial poderá definir não apenas o futuro da companhia, mas o de toda a indústria siderúrgica nacional.

Imagem: rafapress / shutterstock.com

Juliana Peixoto

Autor

Juliana Peixoto

Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.

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