O uso da inteligência artificial por criminosos digitais tem se tornado cada vez mais sofisticado e frequente no Brasil. De acordo com relatório divulgado pela Agência Lupa, especializada no combate à desinformação, a aplicação de tecnologias como deepfakes cresceu significativamente nos últimos três anos e tem alimentado uma onda de golpes nas redes sociais.
Cresce o uso de inteligência artificial para aplicar golpes
Levantamento da Agência Lupa mostra aumento de golpes com deepfakes e inteligência artificial no Brasil. Celebridades e políticos são usados.
Entre 2023 e os primeiros meses de 2025, foram identificados 31 casos de fraudes com uso de IA, sendo 18 apenas entre janeiro e maio deste ano. A estratégia mais comum tem sido a manipulação de imagens e vozes de figuras públicas, como jornalistas, empresários e políticos, para ganhar credibilidade e atrair vítimas a páginas falsas.

Leia mais:
Recompensas de até R$ 3,5 mi: BYD oferece bônus para denúncias de fake news
Como funcionam os golpes com inteligência artificial
Vídeos falsos conduzem vítimas até sites clonados
Os golpes funcionam como uma jornada digital fraudulenta. Por meio de vídeos manipulados com IA — os chamados deepfakes —, criminosos simulam depoimentos e anúncios de celebridades, levando o público a acreditar que estão diante de uma campanha oficial ou promoção real.
As vítimas são então direcionadas para páginas falsas que imitam sites legítimos, como o Gov.br, portais de notícias ou plataformas de grandes marcas. Lá, são incentivadas a preencher formulários com dados pessoais, como CPF, senhas e informações bancárias. Em muitos casos, o objetivo não é obter dinheiro imediato, mas sim roubar informações para futuras fraudes.
Crescimento acelerado das fraudes digitais com IA
De três para 18 casos em dois anos
O relatório da Lupa mostra que, em 2023, foram registrados apenas três casos de golpes com uso de inteligência artificial. No ano seguinte, esse número subiu para dez. Já em 2025, até o mês de maio, 18 casos haviam sido identificados.
A pesquisadora Beatriz Farrugia, que assina o relatório, destaca que o uso de deepfakes se consolidou como um artifício convincente. “É um nível de sofisticação elevado. Não se trata de algo grotesco. Os golpistas investem em reprodução fiel da identidade visual de marcas e instituições públicas”, afirma.
Exemplos de golpes identificados
Falsa promoção com William Bonner
Um dos golpes analisados envolvia um deepfake do jornalista William Bonner, apresentador do Jornal Nacional. No vídeo falso, ele anunciava uma suposta promoção de cervejas. O material era exibido dentro de um site que simulava o portal G1, com links que redirecionavam para uma página semelhante à da Ambev, onde a vítima era levada a preencher um formulário.
Saque falso com deepfake de Lula
Outro golpe usava imagens manipuladas de políticos como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra Marina Silva, o ministro Fernando Haddad e até o ex-presidente Michel Temer. Também foram encontrados vídeos falsos com o empresário Luciano Hang, dono da rede Havan.
Em um dos vídeos, o deepfake de Lula afirmava: “Agora você consegue sacar o valor acumulado de todas as compras feitas em seu CPF”. A mensagem levava o usuário a uma página falsa do portal Gov.br, com o objetivo de roubar dados de acesso à plataforma federal.
Principais temas usados nos golpes com IA
Promoções, programas sociais e promessas financeiras
Segundo o levantamento, os temas mais recorrentes nos golpes analisados foram:
- Falsas promoções e brindes de lojas famosas
- Golpes relacionados a programas sociais, como Desenrola Brasil
- Promessas de dinheiro fácil, como saques de valores acumulados ou investimentos milagrosos
O relatório destaca que 77,5% dos golpes utilizavam o nome de empresas ou pessoas conhecidas. Em 2025, essa proporção subiu para 90%, evidenciando que a associação com figuras públicas é uma das estratégias mais eficazes para ludibriar vítimas.
Golpistas contam com estrutura profissional
Investimento em anúncios pagos e contas verificadas
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
Beatriz Farrugia também chama atenção para o nível de investimento por parte dos criminosos. “Eles pagam por anúncios em redes sociais, mantêm sites com aparência profissional e usam contas de WhatsApp verificadas. Isso mostra que há organizações criminosas por trás de muitos desses golpes”, afirma.
Relatórios internacionais reforçam essa visão. Em 2024, a Interpol alertou para o envolvimento de facções criminosas latino-americanas em fraudes digitais. O Comando Vermelho (CV), o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNV) foram citados como suspeitos de integrar esquemas transnacionais de crimes cibernéticos.
Especialistas pedem ações urgentes
Inteligência artificial e criptomoedas aumentam desafios
A Interpol aponta que a combinação de novas tecnologias, como IA e criptomoedas, tem potencial para agravar ainda mais os crimes digitais. “Sem ação urgente, a situação tende a piorar”, declarou em nota o então secretário-geral da entidade, Jürgen Stock.
A recomendação de especialistas é que governos, empresas e plataformas digitais reforcem os mecanismos de verificação de conteúdo, aumentem a fiscalização sobre anúncios e invistam em campanhas educativas para conscientizar a população sobre os riscos.
Como se proteger dos golpes com deepfakes
Dicas para identificar e evitar fraudes com IA
- Desconfie de promessas exageradas: brindes, saques e promoções que parecem boas demais para ser verdade geralmente são fraudes.
- Cheque a veracidade dos links: sempre digite o endereço manualmente em vez de clicar em links recebidos.
- Verifique a fonte do vídeo: vídeos falsos podem parecer convincentes, mas checar em fontes oficiais evita armadilhas.
- Evite fornecer dados em formulários desconhecidos: nunca digite CPF, senhas ou dados bancários em sites não verificados.
- Denuncie golpes às autoridades e às plataformas: reportar ajuda a reduzir o alcance de fraudes semelhantes.
Conclusão

O uso da inteligência artificial em golpes digitais se tornou uma realidade preocupante no Brasil. A sofisticação dos criminosos, aliada à capacidade de manipular vídeos de figuras públicas, cria um ambiente de engano cada vez mais difícil de identificar.
Em um cenário onde a tecnologia avança mais rápido do que a legislação e a fiscalização, a educação digital e o senso crítico da população serão armas fundamentais contra as fraudes. Denunciar, verificar e compartilhar informações corretas são passos essenciais para frear essa nova onda de crimes virtuais.
