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A IA já destruiu 27% dos empregos de programador nos EUA — e o Brasil está 3 anos atrás nessa curva

Nos EUA, empregos de programador caíram 27% entre 2023 e 2025. No Brasil, as admissões já caíram 19% desde 2022, o mesmo padrão, com 3 anos de atraso.

Eduardo MendesPor Eduardo Mendes8 min de leitura
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Todo mundo esperava que o telemarketing fosse o primeiro dos empregos a cair. Fazia sentido: robôs de atendimento, chatbots, voicebots — a tecnologia já existe, o custo é baixo, a substituição parecia óbvia.

Ninguém previu que a primeira grande vítima da IA no mercado de trabalho seria o programador.

Nos Estados Unidos, o emprego geral de programadores caiu 27,5% entre 2023 e 2025, segundo dados do Bureau of Labor Statistics americano. No mesmo período, o emprego de software developers — posição mais sênior e orientada a arquitetura de sistemas — caiu apenas 0,3%. O telemarketing americano? Perdeu cerca de 80 mil postos entre 2022 e 2024 — significativo, mas longe de 27%.

No Brasil, os dados oficiais do mercado formal ainda mostram crescimento em TI. Mas quando você olha a curva com cuidado, o mesmo padrão americano começa a aparecer — com três anos de atraso.

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A resposta é contra-intuitiva mas faz sentido quando você pensa bem.

O trabalho de telemarketing envolve negociação, empatia, leitura de contexto emocional, improviso. É desestruturado por natureza — cada ligação é diferente. A IA pode ajudar, mas substituir completamente é difícil.

O trabalho do programador júnior é o oposto: altamente estruturado, com regras claras, outputs verificáveis, padrões definidos. Escrever funções, corrigir bugs, adaptar código existente, criar testes — exatamente o tipo de tarefa que ferramentas como GitHub Copilot, Cursor e Claude fazem bem desde 2023.

“Ninguém previu que o maior impacto por longe seria nos programadores”, disse David Malan, professor de ciência da computação em Harvard, em entrevista ao IEEE Spectrum em fevereiro de 2026. Ele atribui o fenômeno à “natureza solitária e altamente estruturada do trabalho de código”.

O resultado é uma divisão clara no mercado americano: programadores técnicos (júniors, implementadores) em queda livre. Arquitetos de sistema, engenheiros de IA, especialistas em segurança — em alta.

O padrão americano que ninguém está publicando no Brasil

Os dados do Bureau of Labor Statistics e do Burning Glass Institute revelam um fenômeno específico que vai além do número headline de -27,5%:

As empresas não estão contratando menos — estão pulando os júniors.

Entre 2018 e 2024, a fatia de vagas de desenvolvimento de software exigindo até 3 anos de experiência caiu de 43% para 28%. Em análise de dados, de 35% para 22%. O total de vagas ficou estável. As contratações sênior continuaram. O que sumiu foi a porta de entrada.

Um programador com 5 anos de experiência agora faz o trabalho que antes precisaria de três júniors — com o auxílio de ferramentas de IA. As empresas perceberam que preferem um profissional experiente que usa IA a três inexperientes que não usam.

As consequências para quem está começando a carreira são severas. A entrada das maiores empresas de tecnologia americanas para recém-formados caiu 25% de 2023 para 2024. O desemprego para jovens de 20 a 24 anos com diploma de ciências da computação subiu de 5,2% para 6,2% — paradoxalmente acima do desemprego de quem tem só ensino técnico.

O que os dados brasileiros mostram hoje

Cruzamos os dados do mercado formal de trabalho brasileiro para programadores (CBO 3171 — técnicos de desenvolvimento de sistemas) entre 2021 e 2025.

O saldo ainda é positivo — mas a direção mudou:

AnoAdmissõesDemissõesSaldo
202130.81535.750-4.935
202244.52033.866+10.654
202330.73826.990+3.748
202434.53727.644+6.893
202536.03230.534+5.498

O saldo de 2025 é positivo. Mas há dois sinais que merecem atenção:

Primeiro: as admissões de 2025 (36.032) estão 19% abaixo do pico de 2022 (44.520). A queda não é um colapso — é uma deflação gradual que espelha exatamente o que aconteceu nos EUA um a dois anos antes.

Segundo: 2022 foi o ano do boom global de TI — contratações infladas pela demanda pós-pandemia, que depois normalizaram. Descontada essa bolha, o mercado de TI brasileiro em 2025 está apenas 17% acima de 2021. Cresceu, mas devagar.

O saldo ainda é positivo porque o dado agrega júnior e sênior. Se houvesse o recorte por senioridade — que o mercado formal brasileiro não captura diretamente — provavelmente veríamos o mesmo padrão americano: sênior estável, júnior caindo.

O telemarketing e o administrativo ainda crescem — mas olhe o salário

Enquanto o programador sofre nos EUA e dá sinais de deflação no Brasil, as ocupações que “deveriam” ser destruídas primeiro seguem crescendo no mercado formal brasileiro:

OcupaçãoAdmissões 2021Admissões 2025Saldo 2025Salário 2021Salário 2025
Telemarketing234.670356.688+44.240R$ 1.198R$ 1.610
Administrativo808.1621.725.305+467.062R$ 2.029N/D
Programador TI30.81536.032+5.498R$ 4.863R$ 5.608
Digitador4.7046.606-304R$ 1.627R$ 2.069

O digitador é o único com saldo negativo em 2025 — o primeiro sinal real de substituição no escritório brasileiro. Mas o número é pequeno: -304 postos contra +467.062 no administrativo.

O dado mais revelador está no salário do telemarketing: +34,5% de 2021 a 2025. Enquanto o volume cai nos EUA, no Brasil o salário sobe. Uma hipótese plausível: a IA está eliminando as tarefas mais simples do atendimento, e quem permanece no setor passa a resolver problemas mais complexos — e a ganhar mais por isso. É o mesmo padrão que antecedeu a queda americana: primeiro os salários sobem (os piores saem), depois o volume despenca.

A defasagem de 3 anos

O Brasil historicamente adota tendências tecnológicas com 2 a 4 anos de atraso em relação aos EUA — não por incapacidade, mas por uma combinação de acesso mais lento a ferramentas, mercado de software menor, menor penetração de Big Tech e diferentes dinâmicas salariais que tornam a substituição menos urgente para as empresas locais.

No caso da IA e do mercado de trabalho, os sinais americanos começaram em 2022-2023. Os sinais brasileiros começaram a aparecer em 2024-2025. O intervalo é exatamente o histórico.

Se o padrão se confirmar, o Brasil deve ver entre 2026 e 2028:

  • Queda nas admissões de programadores técnicos júniors
  • Salários de TI sênior subindo (escassez relativa)
  • Primeiros sinais negativos em telemarketing
  • Administrativo começa a desacelerar

Não é certeza — é o que a curva histórica sugere.

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Os dados americanos deixam uma mensagem clara para quem está começando: a porta de entrada está fechando, não o mercado inteiro.

Quem já tem experiência e usa IA como ferramenta de amplificação está sendo mais contratado, não menos. O problema é o profissional que está tentando entrar sem experiência prévia — exatamente o perfil que a IA tornou mais fácil de substituir ou de dispensar.

Três movimentos que os dados sugerem:

Especialização em IA não é diferencial — é pré-requisito. 84% dos desenvolvedores americanos já usam ferramentas de IA no dia a dia, segundo a Stack Overflow Developer Survey 2025. Quem não usa está em desvantagem estrutural.

O mercado ainda contrata — mas para funções que a IA não resolve. Arquitetura de sistemas, segurança, integração de modelos, prompt engineering avançado, interpretação de negócio. São funções que exigem contexto e julgamento que a IA ainda não tem.

A experiência prática passou a valer mais que o diploma. Com a queda das vagas para recém-formados, quem tem projetos reais, contribuições open source ou histórico verificável sai na frente de quem tem só a formação.

O que os dados não conseguem dizer

Antes de concluir, é preciso ser honesto sobre os limites desta análise.

Os dados brasileiros cobrem apenas o mercado formal CLT. Programadores PJ, freelancers e trabalhadores informais não aparecem — e esse é exatamente o segmento mais exposto à substituição por IA, já que as empresas usam cada vez mais ferramentas internas em vez de contratar serviços externos.

O número americano de -27,5% para “programadores” mistura categorias distintas do BLS que não têm equivalente exato no CBO brasileiro. A comparação é válida como tendência, não como dado absoluto transponível.

E há o fator que nenhum dado captura: quantos programadores estão empregados, mas fazendo um trabalho que seria de três pessoas — com a ajuda da IA. O emprego existe, o salário é pago, mas a demanda por novos profissionais simplesmente não cresce no mesmo ritmo.

A narrativa que ninguém está contando

A maioria das manchetes sobre IA e empregos fala em projeções: “vai transformar”, “pode eliminar”, “deve afetar”. Nós olhamos o que já aconteceu.

O que os dados mostram é uma história mais específica e mais surpreedente do que o hype sugere: a IA não começou pelos empregos de menor qualificação. Começou pelo trabalho mais estruturado, mais replicável, mais codificável — e isso significou programadores júniors antes de atendentes de telemarketing.

No Brasil, o saldo ainda é positivo. Mas a trajetória já aponta na mesma direção.

Fontes e metodologia

Dados brasileiros: Novo CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), Ministério do Trabalho e Emprego, via Base dos Dados (BigQuery). Período: 2021–2025 (anos completos). CBO 3171 (programadores técnicos), 4110 (administrativo), 4223 (telemarketing), 4121 (digitador). Admissões = código 97. Demissões = códigos 40, 31, 32, 33, 35. Cobre apenas vínculos formais CLT.

Dados americanos: Bureau of Labor Statistics (BLS), Occupational Employment and Wage Statistics; Burning Glass Institute, relatório de vagas por senioridade 2024; SignalFire, análise de contratação de recém-formados 2024; Stack Overflow Developer Survey 2025; IEEE Spectrum, fevereiro 2026.

Análise: Score de Cidades — inteligência de dados municipais.

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

Eduardo Mendes

Autor

Eduardo Mendes

Eduardo Mendes é cofundador do Seu Crédito Digital, especialista em SEO, jornalista e bacharel em Administração de Empresas pela UFRGS. Apaixonado por finanças e empreendedorismo, escreve em blogs desde 2014 e atua criando conteúdos, vídeos e análises para ajudar o público a tomar decisões financeiras mais inteligentes.

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