O iFood apresentou uma representação ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) contra a Keeta, plataforma de delivery controlada pela chinesa Meituan, acusando a concorrente de adotar práticas predatórias e de concorrer com preços artificialmente baixos no Brasil. O pedido foi protocolado em 31 de agosto de 2026.
Segundo o iFood, a Keeta estaria utilizando recursos financeiros da controladora chinesa para bancar prejuízos durante a expansão no país, com descontos que podem chegar a 80% e cupons de até R$ 250. A empresa brasileira quer que o Cade investigue a estratégia, determine a interrupção de eventuais vendas abaixo do custo e acompanhe dados de custos e preços da rival.
A Keeta contesta as acusações e afirma que a iniciativa representa uma tentativa do iFood de dificultar a concorrência. A empresa diz que ainda não havia sido notificada sobre a representação e que está disposta a fornecer informações às autoridades.
A disputa acontece em um momento de forte transformação no mercado brasileiro de delivery, com a entrada de novos aplicativos e uma competição mais agressiva por consumidores, restaurantes e entregadores.
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O que o iFood acusa a Keeta de fazer?

A principal acusação é de preços predatórios. Em termos simples, a prática ocorre quando uma empresa oferece produtos ou serviços por preços muito baixos, potencialmente abaixo dos próprios custos, com o objetivo de conquistar mercado e prejudicar ou eliminar concorrentes.
No caso da Keeta, o iFood sustenta que os descontos oferecidos aos consumidores e as condições comerciais para restaurantes e entregadores estariam gerando prejuízos por pedido. A companhia afirma que esses resultados seriam financiados pelo caixa da Meituan, controladora da plataforma.
A representação também menciona cupons de até R$ 250 e descontos de até 80%. Para o iFood, a questão não está simplesmente na existência de promoções, mas na possibilidade de os descontos fazerem parte de uma estratégia sustentada por recursos financeiros da matriz para ganhar participação de mercado.
Por que preços muito baixos podem ser um problema?
Descontos, por si só, não configuram necessariamente uma infração concorrencial. Empresas frequentemente reduzem preços para conquistar clientes, lançar produtos ou estimular o consumo.
A preocupação antitruste aparece quando uma companhia teria condições de sustentar preços abaixo dos custos durante determinado período e, com isso, enfraquecer concorrentes. Depois de uma eventual redução da concorrência, poderia haver espaço para mudanças nas condições comerciais, como preços ou comissões mais elevados.
É justamente essa possibilidade que o iFood pede ao Cade para analisar. A empresa argumenta que o impacto não ficaria restrito às plataformas, podendo atingir restaurantes, entregadores e consumidores.
O que o iFood pediu ao Cade?
A representação apresentada pela companhia busca três medidas principais.
- abertura de um processo administrativo para investigar a conduta da Keeta;
- adoção de uma medida preventiva para interromper eventuais práticas de preços abaixo dos custos;
- acesso periódico a informações sobre custos e preços da Keeta para permitir o acompanhamento independente da estratégia comercial.
O iFood defende que uma eventual intervenção precisa ocorrer antes que os efeitos sobre o mercado se consolidem. A empresa cita experiências internacionais para sustentar que a saída de concorrentes pode acontecer rapidamente quando uma plataforma consegue sustentar uma política agressiva de subsídios.
O que diz a lei brasileira sobre preços predatórios?
A representação se apoia na Lei nº 12.529/2011, que estrutura o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência e estabelece regras para prevenção e repressão às infrações contra a ordem econômica.
O artigo 36 prevê como infrações práticas que possam produzir efeitos como limitar ou prejudicar a livre concorrência, dominar mercado relevante ou eliminar concorrentes. Entre as condutas mencionadas pela legislação está a venda de bens ou serviços injustificadamente abaixo do preço de custo, em determinadas circunstâncias.
O iFood também fundamenta o pedido de intervenção preventiva no artigo 84 da mesma lei. A existência de uma representação, entretanto, não significa que o Cade já tenha concluído que houve uma infração. Cabe ao órgão analisar as informações, avaliar os efeitos econômicos da conduta e decidir quais providências são cabíveis.
Por que a chegada da Keeta mudou o mercado brasileiro?
A Keeta começou sua operação no Brasil em outubro de 2025, inicialmente com um projeto-piloto em Santos e São Vicente. Desde então, a plataforma passou a expandir sua presença no país.
A entrada da empresa faz parte da estratégia internacional da Meituan, gigante chinesa de tecnologia especializada em serviços locais e delivery. Segundo informações divulgadas pela imprensa, a companhia anunciou um plano de investimento de R$ 5,6 bilhões no Brasil ao longo de cinco anos.
O movimento aumentou a disputa em um setor que durante anos teve o iFood como principal plataforma do mercado brasileiro.
A competição também envolve a 99Food e outras empresas, tornando restaurantes e entregadores peças importantes na disputa pela expansão das plataformas.
Keeta diz que iFood quer impedir a concorrência
A Keeta rejeita a interpretação apresentada pelo iFood. Em nota, a empresa classificou a representação como uma tentativa de preservar uma posição dominante e afirmou que o mercado brasileiro de delivery possui cláusulas de exclusividade que dificultam a entrada de concorrentes.
A companhia também defendeu o uso de cupons como uma estratégia comum para apresentar uma plataforma nova aos consumidores.
Segundo a empresa, os descontos são utilizados para estimular a experimentação inicial e fazem parte de uma estratégia de aquisição e retenção de clientes. A Keeta afirma ainda que a participação dos restaurantes em campanhas promocionais é opcional.
A companhia também citou o próprio iFood, que oferece promoções e cupons aos usuários por meio de seus programas comerciais.
O conflito não começou com a denúncia ao Cade
A representação apresentada em agosto é apenas mais um capítulo da disputa entre as duas empresas.
Em maio de 2026, o iFood entrou com uma ação judicial contra a Keeta em São Paulo, acusando a concorrente de tentar obter informações estratégicas por meio de abordagens a funcionários. A companhia pediu indenização de R$ 1 milhão e alegou concorrência desleal. A Keeta negou as acusações.
A Keeta, por sua vez, também já apresentou questionamentos às autoridades concorrenciais envolvendo outras plataformas. Em junho, a Superintendência-Geral do Cade recomendou o arquivamento de um inquérito relacionado a uma reclamação da Keeta contra a 99Food.
A disputa, portanto, envolve diferentes frentes: preços, contratos com restaurantes, exclusividade, acesso a informações e condições de competição.
O que pode acontecer agora?
A representação do iFood não significa que a Keeta será imediatamente proibida de oferecer descontos.
O Cade precisa analisar o caso e decidir se existem elementos suficientes para aprofundar a investigação. Durante esse processo, o órgão pode solicitar documentos, dados econômicos e informações às empresas envolvidas.
Também poderá avaliar se existe fundamento para uma medida preventiva antes da conclusão definitiva do caso. Uma eventual intervenção dependerá da análise técnica e jurídica do órgão.
A questão central será determinar se os descontos e demais condições comerciais praticados pela Keeta representam uma estratégia legítima de entrada e competição ou se configuram uma prática capaz de prejudicar a concorrência no longo prazo.
O que muda para consumidores, restaurantes e entregadores?
Para o consumidor, a disputa tende a significar mais promoções e alternativas de aplicativos no curto prazo. A entrada de um concorrente forte pode pressionar as plataformas a oferecer preços mais competitivos e melhorar serviços para conquistar usuários.
Restaurantes também podem ganhar poder de negociação à medida que aumentam as opções de plataformas. Por outro lado, contratos de exclusividade e diferentes modelos de comissão podem influenciar quanto cada estabelecimento consegue aproveitar dessa concorrência.
Para os entregadores, a disputa pode aumentar a demanda por profissionais e elevar a competição entre plataformas por mão de obra. A própria concorrência entre aplicativos já vem sendo apontada como um fator que afeta o mercado de entregas no Brasil.
O efeito de longo prazo, porém, dependerá da capacidade de cada empresa de manter suas operações e promoções sem comprometer a sustentabilidade financeira do negócio.
O consumidor vai perder os descontos da Keeta?
Não há, neste momento, uma decisão determinando o fim das promoções da Keeta.
O que existe é um pedido do iFood para que o Cade investigue a estratégia comercial da concorrente e avalie a necessidade de medidas preventivas.
Portanto, enquanto não houver determinação do órgão ou outra decisão aplicável, a Keeta poderá continuar utilizando suas estratégias comerciais dentro das regras vigentes.
A Keeta pode ser condenada pelo Cade?
Pode, caso uma investigação conclua que houve infração à ordem econômica e que estejam presentes os requisitos legais para responsabilização.
Mas essa conclusão ainda não existe. A acusação apresentada pelo iFood é uma alegação de uma concorrente e será submetida à análise das autoridades competentes.
O caso ganha relevância justamente porque envolve uma das maiores empresas do setor no Brasil e uma multinacional com capacidade financeira para investir na expansão internacional.
O que está em jogo na disputa entre iFood e Keeta?

A discussão vai muito além dos cupons de desconto.
De um lado, o iFood sustenta que uma empresa com grande capacidade financeira pode suportar prejuízos durante a expansão para conquistar mercado e, eventualmente, enfraquecer concorrentes. Do outro, a Keeta afirma que está apenas utilizando ferramentas comerciais comuns para entrar em um mercado concentrado e disputar consumidores.
Para o Cade, a questão será separar uma competição agressiva, que pode beneficiar o consumidor, de uma eventual estratégia capaz de reduzir a concorrência no futuro.
A decisão poderá ter impacto sobre o funcionamento do mercado de delivery brasileiro, especialmente nas relações entre plataformas, restaurantes e entregadores. Por enquanto, a investigação ainda depende das próximas etapas de análise do órgão antitruste.
Conclusão
A disputa entre iFood e Keeta ainda deve avançar no Cade. O órgão terá de avaliar se os descontos praticados pela empresa chinesa representam concorrência legítima ou preços predatórios.
Enquanto isso, as promoções da Keeta continuam sem nenhuma determinação de suspensão. O caso pode definir os limites da competição no mercado de delivery brasileiro e impactar consumidores, restaurantes e entregadores.
