A lista de exceções à tarifa de 50% anunciada pelos Estados Unidos ao Brasil trouxe certo alívio a alguns setores exportadores. Contudo, o real motivo da preocupação está nas regras que ainda vigem. O estado do Rio Grande do Norte, responsável por quase metade das exportações brasileiras de sal marinho para os EUA, sente diretamente os impactos da medida.
Sal do Brasil pode desaparecer do mercado americano por causa de tarifaço
Tarifas dos EUA sobre o sal marinho do Rio Grande do Norte ameaçam 4 mil empregos e exportações. Setor busca alternativas, mas desafios persistem.
Assim como a carne, pescado, café e madeira, o sal nacional também foi atingido pelas novas barreiras tarifárias impostas pelos Estados Unidos. Isso pode resultar na exclusão progressiva do sal brasileiro do maior mercado consumidor mundial, uma situação que preocupa produtores, empresários e especialistas locais.
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O impacto econômico para o Rio Grande do Norte e o setor salineiro

Segundo Airton Torres, presidente do Sindicato da Indústria da Extração do Sal do Estado do Rio Grande do Norte (Siesal-RN), “com o tarifaço, nosso comércio exterior está reduzido em quase 50%. Isso é muito relevante.” O setor, que responde por 98% da produção nacional, corre o risco de perder até 4 mil empregos diretos e indiretos, englobando atividades de venda, distribuição e logística.
O volume de exportações afetadas
Os Estados Unidos consomem cerca de 50 milhões de toneladas de sal anualmente, das quais aproximadamente 32% são importadas. O Rio Grande do Norte responde por uma média anual de 550 mil toneladas exportadas para os EUA, o equivalente a 34% de toda a importação americana desse produto.
O documento do Siesal reforça a importância estratégica do sal para o país, alertando que a desestruturação da indústria salineira brasileira pode colocar o país em dependência externa.
Limitações naturais e alternativas de mercado
Diante da manutenção das tarifas, existem duas soluções de curto prazo: buscar mercados alternativos ou direcionar a produção para o consumo interno. Ambas enfrentam barreiras impostas pela própria natureza do sal, comercializado a um custo muito baixo — cerca de US$ 0,54 por tonelada no Brasil, segundo dados do GlobalProductPrices entre março de 2022 e junho de 2025.
Airton Torres explica que, por conta dos custos logísticos, o sal potiguar só consegue competir em mercados próximos ao Oceano Atlântico, incluindo as costas da América Latina, Estados Unidos e África Ocidental. Mercados distantes tornam o produto inviável economicamente.
O mercado interno: um desafio a mais
Se o Tio Sam deixa de ser uma opção, a tendência é que a produção do Rio Grande do Norte volte suas vendas para o mercado interno brasileiro, que é significativamente menor — com demanda estimada em 7 milhões de toneladas por ano, 86% inferior à americana.
Narciso Neto Souto, diretor presidente da F. Souto, empresa familiar potiguar, ressalta que a demanda doméstica cresce lentamente e que o mercado interno já está sendo atendido. “Jogando mais sal nesse mercado, o impacto será ruim para as empresas que exportam e para as que já atuam aqui”, diz.
Competição e queda de preços
A competição com importações, como as do Chile beneficiadas pela isenção de impostos do Mercosul, também contribui para a pressão sobre os preços. Para o consumidor final, o efeito imediato pode parecer benéfico, mas para os produtores locais, a redução de preço pode significar queda de receita e prejuízos.
O professor de macroeconomia da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), Joedson de Farias, alerta que os compradores principais são grandes indústrias, que podem se aproveitar da situação para negociar descontos ainda maiores na matéria-prima, afetando a rentabilidade dos produtores.
Consequências práticas: obras suspensas e perspectivas sombrias
O impacto já é sentido no dia a dia das empresas. Souto revela que sua empresa precisou suspender as obras de uma nova refinaria que estavam previstas para este ano, em virtude da incerteza sobre a capacidade de crescimento do setor.
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“Estou segurando mais o término da refinaria porque não temos certeza se conseguiremos crescer”, lamenta.
Existe possibilidade de reversão?
Há opiniões divergentes dentro do setor sobre o futuro das tarifas. Airton Torres mantém otimismo quanto às negociações, acreditando que “o bom senso pode prevalecer” e que a dependência americana pelo sal importado pode fazer com que as tarifas sejam revistas.
Já Souto, com visão mais pessimista, destaca as dificuldades políticas envolvidas. “Não vejo sinalização de melhora, nem do lado brasileiro, nem do americano”, afirma.
O papel dos governos e a necessidade de incentivos

Joedson de Farias aponta que o suporte dos governos estadual e federal será fundamental para minimizar os danos e preservar empregos. Apesar do sal não impactar diretamente a balança comercial em larga escala, sua importância estadual e o número de empregos envolvidos tornam o produto relevante para a economia local.
“Esperamos que seja possível chegar a termos melhores, para o Brasil e especialmente para o Rio Grande do Norte”, conclui.
Conclusão
As tarifas americanas sobre o sal marinho brasileiro representam um desafio significativo para o Rio Grande do Norte, maior produtor nacional e principal exportador para os EUA. A pressão econômica, a limitação do mercado interno e a necessidade de alternativas viáveis exigem uma atuação conjunta do setor produtivo e dos governos para preservar a indústria e os empregos que dela dependem.
