O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) está no centro de um escândalo que escancarou práticas abusivas contra aposentados e pensionistas em todo o país. A empresa de crédito Sudacred, conveniada ao INSS, é acusada de induzir beneficiários a contratarem seguros sem a devida autorização — resultando em descontos mensais diretos nos seus benefícios.
INSS sob suspeita: seguros contratados em tempo recorde; áudios expõem o caso
Escândalo envolvendo INSS e empresa Sudacred revela contratação de seguros sem consentimento de aposentados.
O caso veio à tona graças a uma série de reportagens do portal Metrópoles, que revelou uma operação sistemática envolvendo captação irregular de dados, ligações enganosas e débitos automáticos mascarados.
Leia Mais:
Criança de 8 anos encomenda 70 mil pirulitos na Amazon usando celular da mãe
Denúncias e investigações: a origem do escândalo

A atuação da Sudacred e os primeiros sinais
Entre 2020 e 2023, a Sudacred acumulou mais de 60 reclamações formais no portal Consumidor.gov.br, plataforma do Ministério da Justiça. Os relatos apontavam descontos não reconhecidos nas contas de aposentados, levantando suspeitas sobre a legalidade dos procedimentos adotados pela empresa.
O modus operandi consistia em ligações de telemarketing, durante as quais atendentes informavam, com dados pessoais em mãos, que havia um “capital de seguro liberado” em nome do beneficiário. No entanto, o que realmente acontecia era a contratação automática de seguros — quase sempre sem o pleno entendimento ou consentimento do aposentado, em sua maioria idosos.
Reportagens do Metrópoles impulsionam investigações
A repercussão das denúncias resultou em 38 reportagens publicadas pelo Metrópoles, que detalharam o crescimento exponencial da arrecadação com esses seguros, ultrapassando R$ 2 bilhões em um único ano. Os conteúdos serviram de base para a abertura de inquérito pela Polícia Federal (PF) e para as investigações da Controladoria-Geral da União (CGU).
Operação Sem Desconto: reações e consequências
A ofensiva da Polícia Federal
A Operação Sem Desconto, deflagrada pela PF em 23 de abril de 2025, representou um marco nas investigações. As autoridades identificaram semelhanças com o esquema conhecido como “Farra do INSS“, em que sindicatos e associações aplicavam descontos irregulares nos benefícios de aposentados.
A operação resultou no afastamento do diretor de benefícios do INSS, Vanderlei Barbosa dos Santos, e culminou nas demissões do presidente do instituto e do ministro da Previdência, Carlos Lupi — ampliando o impacto político da crise.
Ligações gravadas expõem a estratégia de manipulação
Conversas reveladoras
Áudios obtidos pelo portal Metrópoles mostram a abordagem direta e manipuladora dos atendentes. Em uma das gravações, um idoso demonstra confusão ao ser informado sobre o “capital de seguro”, e chega a afirmar: “Nem sabia que tinha esse seguro”.
O que ele não percebia era que a contratação estava ocorrendo naquele momento, com base na suposta autorização verbal.
Há relatos de que todo o processo de “autorização” durava menos de três minutos, o que compromete ainda mais a legalidade e a transparência do procedimento.
Acesso privilegiado a dados sensíveis
Outro ponto que chama atenção é o amplo acesso da Sudacred a dados sensíveis, como CPF, endereço e número da conta corrente dos segurados. Essa informação, de uso restrito, levanta suspeitas sobre vazamentos ou compartilhamentos indevidos por parte de órgãos públicos ou empresas conveniadas.
Decisões judiciais reconhecem má-fé e determinam indenizações
Justiça condena práticas da Sudacred
Em dezembro de 2023, a juíza Denise Dias de Castro Bins Schwanck, da Justiça Federal do Rio Grande do Sul, proferiu uma sentença emblemática. Ela condenou a Sudacred e a Caixa Econômica Federal, que mantinha convênio com a empresa, a pagar R$ 3.300 de indenização a um aposentado que teve descontos indevidos em sua conta.
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
A magistrada destacou a falta de clareza na contratação e a ausência de consentimento explícito, enfatizando que o beneficiário sequer compreendia que estava aderindo a um seguro. “A vontade do autor não estava clara, o que compromete a validade do contrato”, afirma a decisão.
Contrato com o INSS foi firmado às vésperas da operação

Assinatura polêmica no Diário Oficial
Apesar das dezenas de reclamações e condenações judiciais, a Sudacred firmou um acordo de cooperação técnica com o INSS, publicado no Diário Oficial da União em 22 de abril de 2025, um dia antes da operação da PF. O documento foi assinado pelo então diretor Vanderlei Barbosa dos Santos, que viria a ser afastado horas depois.
Esse detalhe gerou indignação entre juristas e especialistas em políticas públicas, que apontam falhas graves nos mecanismos de controle e fiscalização dentro do próprio INSS.
O impacto nos beneficiários e os próximos passos
Dano financeiro e psicológico
A prática de descontos indevidos afeta diretamente a renda de aposentados e pensionistas, cuja maioria depende exclusivamente do benefício para sobreviver. Os valores, embora aparentemente pequenos — entre R$ 50 e R$ 80 mensais —, representam uma perda significativa para quem recebe um salário mínimo ou pouco mais.
Além do prejuízo financeiro, muitos idosos relataram ansiedade, insegurança e humilhação ao tentarem resolver o problema junto às instituições financeiras.
Reação do governo e expectativa por mudanças
Após a operação da PF, o novo comando do INSS prometeu revisar todos os convênios firmados com empresas de crédito e associações, além de implementar mecanismos mais rígidos de consentimento para descontos em folha. A Controladoria-Geral da União também prepara um relatório com recomendações estruturais para evitar que casos semelhantes voltem a acontecer.
Imagem: Freepik e Canva
Pode ser do seu interesse:
Pode ser do seu interesse:

