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Economia opera em duas velocidades com juro alto; Itaú aponta setores mais afetados

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 8 min de leitura
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A economia brasileira passa por um momento de contrastes. Enquanto setores dependentes de crédito e investimentos de longo prazo enfrentam maior pressão com os juros elevados, atividades ligadas ao consumo e aos serviços continuam encontrando espaço para crescer.

Um levantamento do Itaú, que analisou 34 setores da economia, mostra justamente essa diferença. O estudo identificou impactos provocados pelo custo do dinheiro, pela falta de trabalhadores qualificados, pelas mudanças trazidas pela reforma tributária e pelo aumento da concorrência de produtos chineses.

O cenário ajuda a explicar por que alguns segmentos apresentam desempenho mais resistente enquanto outros reduzem investimentos e enfrentam dificuldades para ampliar os negócios.

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Quais setores estão sentindo mais os efeitos da economia?

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

De acordo com o levantamento do Itaú, a percepção sobre a demanda varia bastante entre os diferentes setores analisados.

Em uma escala de 0 a 10, a média geral ficou em 6,3. Entre as atividades com avaliação mais baixa aparecem aves e suínos e saneamento, ambos com nota 3. Açúcar e álcool ficou em 4,5, enquanto o mercado residencial recebeu 4,7.

Também tiveram notas de 5 setores como bens de capital, química, papel e celulose e mineração.

Na outra ponta, o turismo recebeu nota 10. Óleo e gás e farmácias ficaram com 9, enquanto varejo de vestuário e calçados também alcançou 9. Hotéis e restaurantes registraram 8,7.

A diferença mostra que os efeitos dos juros elevados não são iguais para toda a economia.

Por que os juros altos prejudicam alguns setores mais do que outros?

A taxa básica de juros, a Selic, influencia o custo do crédito no país. Quando permanece elevada, empresas e consumidores tendem a enfrentar condições mais caras para contratar empréstimos e financiamentos.

O impacto costuma ser maior em atividades que precisam investir grandes quantias antes de obter retorno. Construção, mercado imobiliário, indústria e produção de máquinas são exemplos de setores que podem adiar projetos quando o custo de financiamento aumenta.

Para essas empresas, uma nova fábrica, equipamento ou empreendimento pode exigir anos para recuperar o dinheiro investido. Com juros elevados, a conta do projeto fica mais difícil de fechar.

Por outro lado, negócios ligados ao consumo imediato podem sofrer efeitos diferentes. Turismo, alimentação e determinados serviços dependem mais diretamente da renda e da disposição das famílias e empresas para consumir.

A queda da Selic já melhora as condições para as empresas?

A Selic entrou em trajetória de redução, mas isso não significa que o crédito tenha ficado barato imediatamente.

Em setembro de 2026, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica para 13,75% ao ano. Mesmo com o corte, o Banco Central manteve uma postura cautelosa diante das expectativas de inflação e das incertezas econômicas.

A transmissão da política monetária também leva tempo. Uma empresa que hoje contrata um financiamento ainda pode encontrar taxas elevadas, dependendo do prazo, do risco da operação e das condições oferecidas pela instituição financeira.

Por isso, uma eventual melhora do crédito tende a aparecer gradualmente nas decisões de consumo e investimento.

Falta de mão de obra também preocupa as empresas

O custo do dinheiro não é o único problema apontado pelo levantamento.

A dificuldade para encontrar trabalhadores qualificados aparece como outro obstáculo importante. Entre os 34 subsetores analisados pelo Itaú, 18 registraram nota igual ou superior a 7 nesse quesito, em uma escala de 0 a 10.

A média ficou em 7.

Algumas atividades tiveram dificuldade ainda maior. A indústria de vestuário e calçados registrou 9,5, enquanto frigoríficos, varejo de vestuário e turismo chegaram a 10.

Na prática, a falta de profissionais pode limitar a capacidade de expansão das empresas. Mesmo quando existe demanda pelos produtos ou serviços, uma companhia pode ter dificuldade para aumentar a produção ou abrir novas unidades se não conseguir contratar trabalhadores.

Produtos chineses aumentam a concorrência

Outro fator destacado pelo Itaú é o avanço dos produtos chineses no mercado brasileiro.

A maior presença de importados aumenta a competição em diferentes segmentos, incluindo eletrônicos, veículos, vestuário e bens de consumo.

Para as empresas brasileiras, o efeito pode aparecer nas margens de lucro. Quando há produtos importados com preços competitivos, fica mais difícil repassar integralmente aos consumidores aumentos nos custos de produção.

Ao mesmo tempo, essa concorrência pode beneficiar o consumidor em determinadas categorias, ao ampliar a oferta de produtos e limitar aumentos de preços.

Indústria automotiva enfrenta nova disputa

O setor automotivo é um dos exemplos dessa transformação.

A entrada e expansão de fabricantes asiáticos, especialmente no mercado de veículos elétricos, aumentam a competição com as montadoras que já atuam no país.

A disputa não envolve apenas preços. Tecnologia, eficiência, escala de produção e capacidade de oferecer novos modelos também passaram a ter peso maior nas estratégias das empresas.

Para a indústria brasileira, isso aumenta a necessidade de elevar produtividade e investir em competitividade em um momento no qual o custo do capital ainda é elevado.

Reforma tributária também entra nas decisões

As mudanças no sistema tributário brasileiro acrescentam outro elemento ao planejamento das empresas.

A reforma tributária do consumo prevê uma transição para um novo modelo de tributação, com a criação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).

A adaptação não ocorre apenas na cobrança dos impostos. Empresas também precisam preparar sistemas, documentos fiscais, processos internos e planejamento financeiro para as novas regras.

O levantamento do Itaú aponta as incertezas relacionadas à reforma como um dos fatores considerados pelas companhias antes de tomar decisões de investimento.

O que isso representa para o consumidor?

Os efeitos desse cenário podem chegar ao consumidor de várias maneiras.

Nos segmentos que enfrentam maior concorrência internacional, a presença de produtos importados pode ajudar a segurar preços. Em contrapartida, empresas nacionais podem ter margens menores e reduzir planos de expansão.

Já os juros elevados afetam diretamente quem depende de financiamento para comprar imóveis, veículos ou outros bens de maior valor.

Quando o crédito fica mais caro, parte dos consumidores adia a compra. Essa redução da demanda, por sua vez, pode afetar empresas que dependem dessas vendas.

Economia não está reagindo de uma única maneira

Os dados mostram que não existe uma resposta uniforme da economia brasileira ao ambiente atual.

Setores dependentes de crédito e grandes investimentos enfrentam obstáculos diferentes daqueles encontrados por atividades ligadas ao consumo e aos serviços.

Ao mesmo tempo, empresas de diferentes áreas precisam lidar com desafios que vão além dos juros, como a escassez de profissionais qualificados, a competição internacional e a adaptação à reforma tributária.

A redução da Selic pode melhorar gradualmente as condições financeiras, mas outros fatores continuarão influenciando as decisões das empresas.

Para o consumidor, isso significa que preços, crédito e oferta podem seguir trajetórias diferentes dependendo do setor. Para as companhias, o momento exige maior atenção aos custos, à produtividade e ao planejamento dos investimentos.

O que pode acontecer daqui para frente?

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A evolução da economia dependerá principalmente da trajetória dos juros, da inflação, da renda das famílias, das condições de crédito e do ambiente internacional. Para o Itaú, esses fatores devem continuar determinando ritmos diferentes entre os setores da economia nos próximos meses.

Uma melhora do custo do dinheiro pode abrir espaço para empresas retomarem projetos que foram adiados. A demanda doméstica também será importante para setores ligados ao consumo, enquanto atividades mais dependentes de financiamento continuarão sentindo os efeitos dos juros elevados.

Na indústria, porém, o desafio é mais amplo. Além das condições financeiras, as empresas precisam enfrentar a concorrência estrangeira e encontrar formas de aumentar a produtividade diante da escassez de trabalhadores qualificados. Na avaliação do Itaú, essa combinação de fatores ajuda a explicar por que alguns segmentos conseguem manter a demanda enquanto outros permanecem mais pressionados.

O levantamento do Itaú mostra, portanto, uma economia que não está simplesmente crescendo ou desacelerando de maneira uniforme. Os resultados variam conforme a dependência de crédito, o comportamento do consumidor, a concorrência internacional e as características de cada atividade.

Conclusão

O levantamento do Itaú mostra uma economia brasileira marcada por diferenças cada vez mais claras entre os setores. Enquanto juros elevados dificultam investimentos e pressionam atividades dependentes de crédito, segmentos ligados ao consumo e aos serviços encontram condições mais favoráveis para manter a demanda.

Ao mesmo tempo, a concorrência de produtos chineses, a falta de mão de obra qualificada e a adaptação à reforma tributária acrescentam novos desafios para as empresas. A queda da Selic pode aliviar parte dessa pressão nos próximos meses, mas seus efeitos tendem a aparecer de forma gradual.

Para o consumidor, o cenário deve continuar sendo sentido principalmente no custo do crédito, nos preços e na oferta de produtos e serviços. Para as empresas, o momento exige atenção aos custos, produtividade e planejamento diante de uma economia que segue apresentando comportamentos diferentes de acordo com cada setor.

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