A JAC Motors chegou ao Brasil disposta a ocupar um espaço relevante entre as montadoras. Quinze anos depois, a fabricante chinesa vive uma realidade bastante diferente: a rede que chegou a aproximadamente 70 concessionárias foi reduzida a apenas três pontos de venda.
As lojas remanescentes estão em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. A redução faz parte de uma reestruturação que inclui maior concentração nas vendas digitais, retirada de automóveis do portfólio e uma aposta mais forte em picapes e veículos comerciais.
A montadora, porém, afirma que não está deixando o Brasil. A estratégia é manter uma operação menor e menos dependente da tradicional rede de concessionárias.
O contraste chama atenção principalmente pela forma como a história da JAC começou no país. Em março de 2011, foram abertas 50 concessionárias simultaneamente em 28 cidades, uma das estreias mais agressivas de uma fabricante chinesa no mercado brasileiro.
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O que aconteceu com a JAC Motors no Brasil?

A situação atual da JAC é resultado de uma sequência de mudanças ocorridas ao longo de mais de uma década.
A fabricante chegou ao país em meio à primeira grande expansão das marcas chinesas. JAC, Chery e Lifan estavam entre as empresas que tentavam convencer brasileiros a experimentar carros de fabricantes que ainda eram pouco conhecidos no mercado nacional.
A JAC adotou uma estratégia agressiva.
Seus primeiros produtos, especialmente J3 e J3 Turin, apostavam em uma lista extensa de equipamentos, preços competitivos e garantia de seis anos.
A empresa também investiu pesadamente em publicidade para construir rapidamente reconhecimento de marca.
Faustão, então um dos apresentadores mais conhecidos da televisão brasileira, foi escolhido como garoto-propaganda.
O plano funcionou inicialmente: a JAC vendeu cerca de 23,7 mil veículos em 2011. Em 2026, porém, a situação é praticamente oposta. De janeiro a julho, foram registrados somente 346 emplacamentos.
JAC chegou abrindo 50 concessionárias de uma vez
Poucas marcas tiveram uma estreia tão ambiciosa quanto a JAC.
Em 18 de março de 2011, a montadora iniciou oficialmente sua operação comercial com 50 concessionárias abertas simultaneamente em 28 cidades brasileiras.
Na época, estavam previstos investimentos de aproximadamente R$ 380 milhões em rede, publicidade, adaptações dos automóveis e despesas relacionadas à operação brasileira.
Até o final daquele ano, a rede chegou a aproximadamente 70 pontos.
O tamanho da estrutura demonstrava que o projeto não era apenas testar a aceitação dos carros chineses. A intenção era transformar rapidamente a JAC em uma marca nacionalmente conhecida.
Esse crescimento deveria ganhar um segundo impulso com a produção local.
Fábrica da JAC na Bahia prometia investimento de R$ 900 milhões
Ainda em 2011, surgiu o projeto que poderia ter mudado completamente a história da empresa no país.
JAC Motors e Grupo SHC anunciaram a construção de uma fábrica no Polo Industrial de Camaçari, na Bahia.
O investimento projetado era de R$ 900 milhões.
A unidade teria capacidade para fabricar 100 mil veículos por ano em dois turnos e deveria gerar aproximadamente 3.500 empregos diretos. O projeto previa 80% do investimento sob responsabilidade do Grupo SHC e 20% da JAC Motors chinesa.
A previsão inicial era iniciar a produção em maio de 2014.
Isso permitiria à JAC deixar de depender exclusivamente dos veículos importados e criar uma operação industrial própria no Brasil.
A fábrica, contudo, nunca chegou a produzir automóveis.
Por que a fábrica da JAC nunca saiu do papel?
O projeto enfrentou uma combinação de mudanças econômicas, regulatórias e comerciais.
Um dos primeiros obstáculos apareceu ainda em 2011, quando o governo brasileiro elevou em 30 pontos percentuais o IPI para determinados automóveis importados.
Naquele momento, a própria JAC chegou a suspender temporariamente seus planos enquanto aguardava mudanças nas condições estabelecidas pelo governo.
O projeto acabou retomado e avançou até o lançamento da pedra fundamental, mas sofreu sucessivos adiamentos.
Enquanto isso, as vendas da marca perderam força.
Sem o volume inicialmente esperado e diante das mudanças nas condições do mercado, o projeto industrial foi abandonado.
A unidade que deveria simbolizar a transformação da JAC em uma fabricante nacional acabou se tornando uma das principais promessas não concretizadas da primeira onda de montadoras chinesas no Brasil.
Rede começou a encolher poucos anos após a estreia
A redução das concessionárias aconteceu relativamente rápido.
Se a JAC havia alcançado dezenas de pontos de venda durante sua estreia, por volta de 2014 sua estrutura já havia diminuído consideravelmente.
O encolhimento acompanhou a queda nas vendas.
Manter uma concessionária exige volume suficiente para sustentar despesas com imóveis, funcionários, veículos de exposição, estoque e estrutura comercial.
Quando os emplacamentos diminuem, manter uma rede extensa se torna economicamente mais difícil.
A JAC passou então por diferentes tentativas de reposicionamento.
Uma das mais importantes aconteceu com a eletrificação.
JAC tentou se reinventar apostando em carros elétricos
Anos depois da fase de J3 e J3 Turin, a JAC enxergou nos veículos elétricos uma oportunidade para reconstruir sua presença no país.
A marca chegou a oferecer um dos portfólios de elétricos mais diversificados do mercado brasileiro.
Modelos como E-JS1, E-JS4 e E-J7 fizeram parte dessa estratégia, juntamente com veículos comerciais eletrificados.
O problema é que o mercado mudou novamente.
Uma nova geração de fabricantes chinesas passou a disputar o consumidor brasileiro, algumas delas com investimentos muito superiores em produto, marketing, concessionárias e produção local.
BYD e GWM são exemplos dessa nova fase da indústria chinesa no Brasil.
A concorrência aumentou justamente em uma categoria que a JAC havia escolhido para tentar se diferenciar.
Vendas dos elétricos da JAC despencaram em 2026
Os números recentes mostram a dificuldade enfrentada pela estratégia.
Segundo dados de emplacamentos compilados em levantamento publicado pelo UOL, as vendas de veículos elétricos da JAC caíram 65,6% em 2026 na comparação com o mesmo período de 2025.
No total, a marca registrou apenas 346 veículos entre janeiro e julho de 2026.
O E-JS1 ainda responde por parte dos emplacamentos de automóveis da fabricante, mas outros produtos perderam espaço.
O E-JS4 e o sedã E-J7 deixaram de fazer parte efetivamente da linha comercializada, dentro do processo de redução do portfólio.
Isso levou a empresa a procurar novamente outro caminho.
JAC agora aposta principalmente em picapes
A Hunter se tornou uma peça central na nova estratégia.
A picape é oferecida em versões voltadas tanto ao uso particular quanto profissional, incluindo configurações a diesel e elétricas.
Na linha Heavy Duty 2025/2026, por exemplo, a JAC anuncia capacidade de carga de até 1.400 kg, tração 4×4, motor turbodiesel e câmbio automático ZF de oito marchas.
A empresa também oferece diferentes configurações da Hunter, incluindo versões destinadas ao trabalho e uma opção elétrica.
A estratégia representa uma mudança relevante.
Em vez de tentar competir diretamente pelo consumidor de carros de passeio em grande escala, a JAC procura espaços mais específicos, como picapes e veículos comerciais.
De cinco lojas para apenas três concessionárias

A redução mais recente da rede ocorreu em 2026.
A JAC chegou a manter cinco concessionárias vinculadas à operação da Hunter.
Posteriormente, a unidade de Brasília encerrou suas atividades e uma das lojas de São Paulo entrou em processo de unificação com outra operação.
Com a reorganização, a rede comercial ficou concentrada em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.
O cenário é especialmente simbólico quando comparado com 2011.
Na estreia, eram 50 concessionárias abertas no mesmo dia.
Quinze anos depois, restaram três pontos comerciais dentro da estrutura reorganizada.
JAC está saindo do Brasil?
Apesar da forte redução da operação, a resposta é não, pelo menos segundo a estratégia divulgada pela própria empresa.
A JAC afirma que continua atuando no mercado brasileiro.
O que mudou foi o modelo de negócio.
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+311 mil seguidores
A companhia informou que vem desenvolvendo há aproximadamente dois anos uma estrutura de vendas online e à distância, permitindo atender consumidores sem depender de uma concessionária tradicional em cada região.
O objetivo é trabalhar com uma operação física muito menor e utilizar os canais digitais para alcançar clientes de outras localidades.
A JAC também mantém uma rede de assistência técnica consideravelmente maior do que sua estrutura de vendas.
Segundo informações divulgadas pela marca, existem mais de uma centena de oficinas e pontos credenciados para atendimento de proprietários.
A própria página oficial da JAC informa possuir mais de 150 pontos de atendimento, embora sua relação inclua concessionárias, rede autorizada e estruturas de assistência, e não apenas lojas de venda de veículos.
Ter apenas três concessionárias prejudica quem já tem um JAC?
A redução da rede pode gerar preocupação principalmente entre proprietários que moram longe das cidades onde permanecem as lojas.
Mas concessionária e assistência técnica não são necessariamente a mesma coisa.
Uma marca pode possuir poucos pontos destinados à venda de veículos novos e manter oficinas credenciadas em um número maior de cidades.
No site oficial, a JAC apresenta estabelecimentos autorizados em diferentes estados para manutenção e serviços.
Antes de comprar um veículo da marca, entretanto, o consumidor deve verificar qual é a assistência autorizada mais próxima de sua cidade.
Isso é particularmente importante em automóveis elétricos, nos quais determinados reparos exigem profissionais treinados, equipamentos específicos e acesso a componentes de alta tensão.
Peças e manutenção se tornam pontos importantes
Quando uma montadora reduz significativamente sua participação no mercado, disponibilidade de peças e manutenção passam naturalmente a pesar mais na decisão de compra.
Isso não significa que um carro da JAC ficará automaticamente sem assistência.
A fabricante continua operando no país e mantém rede credenciada.
Mas o consumidor pode avaliar fatores práticos antes da compra, como distância até uma oficina autorizada, prazo médio para obtenção de componentes e cobertura da garantia.
Também vale considerar a revenda.
Modelos de baixo volume podem apresentar um mercado de usados menor do que veículos de fabricantes com presença mais ampla.
Caminhões são uma história diferente dentro da JAC
Existe ainda uma particularidade importante na operação brasileira.
A estrutura dos automóveis leves não representa toda a atuação da JAC no país.
A operação de caminhões possui uma estratégia própria e ganhou relevância especialmente entre os veículos comerciais.
Em 2026, a marca ainda aparece com posição expressiva no segmento de caminhões elétricos. Segundo levantamento publicado pelo UOL, a JAC detinha 57,39% desse mercado.
Há também uma separação operacional: enquanto o Grupo SHC mantém a operação ligada aos veículos leves e comerciais elétricos, a estrutura de caminhões a diesel possui atuação diretamente relacionada à JAC Motors chinesa.
Isso ajuda a explicar por que o encolhimento das concessionárias de automóveis não significa necessariamente o desaparecimento completo da fabricante no Brasil.
O contraste com a nova geração de chinesas
A trajetória da JAC também mostra quanto o mercado brasileiro mudou desde 2011.
Quando a marca chegou, carros chineses ainda despertavam forte desconfiança entre parte dos consumidores.
Hoje, fabricantes da China estão entre as protagonistas da transformação do setor automotivo brasileiro, principalmente em híbridos e elétricos.
A diferença está na escala.
Enquanto a primeira geração tentou ganhar espaço principalmente com preço e equipamentos, empresas chinesas mais recentes passaram a combinar produtos competitivos com grandes investimentos, redes próprias e projetos industriais locais.
A própria Bahia, onde a fábrica da JAC nunca se concretizou, voltou ao centro dessa transformação com novos investimentos da indústria automotiva chinesa.
De promessa de fábrica a operação enxuta
Poucas trajetórias ilustram tão bem as mudanças do mercado automotivo brasileiro quanto a da JAC Motors.
A marca chegou abrindo 50 concessionárias simultaneamente, investiu em uma campanha nacional com Faustão e apresentou planos para construir uma fábrica de R$ 900 milhões capaz de produzir 100 mil carros por ano.
Quinze anos depois, a fábrica nunca saiu do papel e a estrutura comercial foi reduzida drasticamente.
Em 2026, a empresa passa a apostar em uma combinação bastante diferente: menos lojas físicas, vendas digitais, picapes e veículos comerciais.
A JAC não anunciou uma saída do Brasil, mas sua presença atual está distante da operação de grande volume imaginada em 2011.
A comparação resume a transformação: de aproximadamente 70 concessionárias no auge da estreia para apenas três pontos de venda em sua estrutura mais recente — um dos maiores processos de encolhimento entre as marcas que participaram da primeira onda de fabricantes chinesas no mercado brasileiro.



