O comportamento financeiro dos brasileiros está passando por uma transformação silenciosa, mas profunda. A tradicional caderneta de poupança, por décadas o investimento mais popular do país, começa a perder espaço — especialmente entre os mais jovens.
Jovens brasileiros abandonam poupança e impulsionam mercado de criptomoedas, revela pesquisa
Pesquisa da Anbima mostra queda na poupança e alta no uso de criptomoedas por jovens brasileiros. A transformação digital impulsiona essa mudança.
Em contrapartida, o mercado de criptomoedas tem atraído a atenção dessa nova geração, conectada, tecnológica e ávida por autonomia e oportunidades de crescimento financeiro mais agressivo.
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Pesquisa revela recuo na poupança e crescimento cripto

Uma pesquisa conduzida pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), em parceria com o instituto Datafolha, revelou um dado simbólico: a participação da caderneta de poupança entre os brasileiros caiu de 25% para 23% em um ano.
Apesar de parecer discreto, esse recuo ganha significado quando observado em paralelo ao crescimento da adoção de criptomoedas entre jovens, que saltou de 2% para 4%.
Embora o percentual ainda seja pequeno em números absolutos, o dobro de adesão em um período tão curto aponta para uma tendência sólida e crescente. Esse movimento acompanha uma mudança de mentalidade, onde os jovens priorizam investimentos de maior potencial de valorização, mesmo com maior exposição ao risco.
A opinião do mercado: flexibilidade e autonomia como fatores-chave
Para Ney Pimenta, CEO do BityBank — uma exchange nacional de criptomoedas —, o recuo da poupança e o avanço do interesse por ativos digitais entre os jovens refletem mais do que simples escolhas financeiras: representam uma guinada cultural.
“A promessa de retorno acelerado, aliada à flexibilidade das criptomoedas, atrai uma geração que quer mais controle sobre suas finanças e diversificação real de portfólio”, afirma Pimenta.
Na visão do executivo, os ativos digitais oferecem uma experiência que está em sintonia com os hábitos tecnológicos dessa faixa etária. Transações rápidas, plataformas intuitivas e acesso global a mercados antes restritos são atrativos que a poupança, com sua rentabilidade reduzida e natureza conservadora, não consegue competir.
A geração da conectividade e da descentralização
A crescente adoção de criptomoedas também se relaciona com o perfil digital dos jovens. Acostumados a consumir produtos e serviços via aplicativos, eles esperam o mesmo dinamismo das soluções financeiras.
“Eles não querem mais enfrentar filas em agências bancárias. Tudo deve ser feito em poucos cliques, com transparência, mobilidade e, sobretudo, controle direto”, completa Ney Pimenta.
Esse novo comportamento se encaixa perfeitamente no ecossistema cripto, onde a descentralização, a autonomia e a ausência de intermediários são características intrínsecas.
A barreira da educação financeira
Apesar da tendência positiva em relação à adoção de criptomoedas, a pesquisa da Anbima revelou um dado preocupante: 63% da população brasileira ainda não compreende nem mesmo os produtos financeiros mais simples.
A falta de conhecimento se torna um entrave para decisões de investimento mais conscientes — especialmente quando se trata de ativos mais complexos, como os criptoativos.
“Há uma defasagem educacional clara. O jovem está disposto a investir, mas muitas vezes sem saber exatamente no que está se envolvendo. Isso pode levar a decisões equivocadas e, por consequência, a frustrações”, alerta Pimenta.
A ausência de uma base sólida em educação financeira coloca em risco a saúde econômica dessa geração, mesmo diante do entusiasmo com as novas tecnologias.
O papel das exchanges e fintechs na educação
O cenário desafia tanto o setor público quanto o privado. Exchanges, corretoras e plataformas de investimento têm a oportunidade — e a responsabilidade — de oferecer conteúdo acessível, didático e contínuo, de forma a empoderar os novos investidores.
Cursos gratuitos, vídeos educativos, simuladores e atendimento humanizado são algumas das ferramentas que podem ajudar a reduzir esse abismo educacional. O objetivo é simples: garantir que o aumento da participação nos mercados seja acompanhado de decisões bem-informadas.
Criptomoedas e transformação do comportamento financeiro

Enquanto as gerações anteriores priorizavam segurança e estabilidade — o que tornava a poupança atraente mesmo com rendimento abaixo da inflação —, os jovens estão mais abertos ao risco quando há possibilidade de maiores retornos.
Essa mudança de mentalidade pode ser explicada por múltiplos fatores:
- Cenário macroeconômico instável: a volatilidade dos mercados tradicionais e o baixo rendimento de produtos conservadores como a poupança empurram os investidores para alternativas;
- Cultura digital: familiaridade com tecnologia torna os jovens mais confortáveis com conceitos como blockchain, carteiras digitais e tokens;
- Busca por independência financeira: muitos jovens desejam construir patrimônio de forma acelerada, visando liberdade e qualidade de vida.
O consumo também é digital, e o dinheiro precisa acompanhar
O comportamento de consumo da geração Z e dos millennials é fortemente baseado em plataformas digitais. A transição para o investimento digital, portanto, é natural.
Aplicativos de delivery, mobilidade, educação, entretenimento e até relacionamentos moldaram um padrão de comportamento onde o celular é a principal interface com o mundo. Por que seria diferente com o dinheiro?
Essa familiaridade com o ambiente digital facilita a aceitação de conceitos como DeFi (finanças descentralizadas), stablecoins, NFTs e staking, que compõem o universo das criptomoedas.
Impactos para o mercado financeiro tradicional
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A ascensão das criptomoedas entre jovens brasileiros é um alerta para bancos, corretoras e instituições financeiras tradicionais. Para manter sua relevância, essas entidades precisarão atualizar sua abordagem.
Plataformas mais amigáveis, taxas competitivas, integração com ativos digitais e soluções personalizadas são diferenciais esperados por essa nova geração.
A burocracia, que por anos foi o padrão do sistema financeiro, está sendo substituída pela agilidade e simplicidade.
“Quem não se adaptar à linguagem e às demandas do jovem investidor corre o risco de perder relevância nos próximos anos”, observa Pimenta.
Regulamentação e segurança jurídica
O crescimento do mercado de criptomoedas também impõe desafios regulatórios. A proposta recente do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, de criar um imposto específico sobre criptoativos para aliviar o IOF, mostra que o governo está de olho no setor.
Embora a medida tenha como objetivo formalizar e arrecadar, ela levanta preocupações sobre a forma como será implementada. A falta de clareza jurídica pode desestimular novos investidores ou até mesmo afastar empresas do país.
O futuro do investimento no Brasil passa pelos criptoativos
O crescimento constante da adoção de criptomoedas entre os jovens brasileiros indica que esses ativos estão deixando de ser apenas uma promessa de futuro para se consolidarem como parte do presente. A tendência é que, nos próximos anos, o número de investidores digitais continue crescendo, ampliando a participação do setor na economia nacional.
Com a chegada dos ETFs de Bitcoin, tokens lastreados e plataformas mais intuitivas, a experiência do investidor tende a ser ainda mais acessível, segura e diversificada.
Um novo ciclo de educação e inovação
Para que essa transformação seja sustentável, será preciso investir fortemente em educação financeira. Escolas, universidades, fintechs e até influenciadores digitais terão um papel fundamental nesse processo.
A inovação tecnológica que impulsiona as criptomoedas deve vir acompanhada de uma cultura de responsabilidade, planejamento e compreensão dos riscos envolvidos.
Conclusão: o investidor brasileiro está mudando — e é jovem, digital e descentralizado

A pesquisa da Anbima mostra claramente que o perfil do investidor brasileiro está em transformação. A geração mais jovem, conectada e familiarizada com tecnologia, está liderando a revolução que tira a poupança do pedestal e coloca as criptomoedas no centro da estratégia de investimentos.
Esse movimento exige respostas rápidas do setor financeiro, do poder público e da sociedade em geral. Mais do que uma mudança de hábito, estamos diante de uma reconfiguração estrutural do modo como os brasileiros pensam, usam e multiplicam o dinheiro.
