A taxa de juros do crédito consignado no Brasil superou a marca simbólica de 50% ao ano em algumas modalidades destinadas a trabalhadores da iniciativa privada. O movimento, que chama a atenção de economistas, consumidores e autoridades, foi impulsionado pela criação de uma nova linha de crédito voltada ao público CLT, conhecida como crédito consignado para o trabalhador. Enquanto o crédito com desconto em folha para beneficiários do INSS mantém uma taxa média menor, a linha voltada aos empregados formais do setor privado tem apresentado encarecimento expressivo.
Linha de “Crédito do Trabalhador” encarece: veja o impacto no bolso
Taxa de juros do crédito consignado ultrapassa 50% ao ano com nova linha para trabalhadores. Entenda o impacto para o consumidor.
Essa mudança ocorre em meio ao esforço do Banco Central para reduzir a Selic e estimular o consumo, mas esbarra na realidade do mercado de crédito, que ainda carrega os efeitos da inadimplência elevada e da desconfiança dos bancos em relação à recuperação de valores.
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O que é o crédito consignado
O crédito consignado é uma modalidade de empréstimo com desconto automático em folha de pagamento. Ele é considerado uma das opções com menor risco para os bancos, já que o pagamento é descontado diretamente do salário ou benefício do tomador, reduzindo a inadimplência. Justamente por isso, as taxas de juros do consignado são tradicionalmente menores do que as de outras linhas de crédito pessoal.
No entanto, essa lógica tem sido parcialmente alterada com a criação de linhas voltadas ao público trabalhador formal da iniciativa privada, cujos contratos não possuem a mesma estabilidade dos servidores públicos ou aposentados.
Nova linha para trabalhadores eleva média dos juros
Nos últimos meses, os dados do Banco Central apontaram uma elevação nas taxas médias do crédito consignado, especialmente após o lançamento da nova linha de crédito destinada aos trabalhadores do setor privado. A taxa média, que girava em torno de 30% ao ano no início de 2024, ultrapassou 50% ao ano em junho de 2025.
Essa alta está relacionada ao maior risco percebido pelas instituições financeiras ao conceder crédito para trabalhadores com vínculos empregatícios mais instáveis. O aumento também reflete a tentativa dos bancos de compensar a inadimplência histórica nesse segmento, já que o desconto em folha, nesse caso, depende da permanência no emprego.
Diferença entre categorias de consignado
O crédito consignado é dividido em três grandes categorias principais:
Consignado para aposentados e pensionistas do INSS
- Taxa média: entre 1,7% e 2,1% ao mês (cerca de 22% a 28% ao ano)
- Risco: baixo
- Vínculo: benefício vitalício
Consignado para servidores públicos
- Taxa média: entre 1,5% e 2% ao mês
- Risco: muito baixo
- Estabilidade: alta
Consignado para trabalhadores da iniciativa privada
- Taxa média atual: ultrapassa 3,5% ao mês (acima de 50% ao ano)
- Risco: elevado
- Estabilidade: variável
É essa última categoria que está puxando para cima a média geral do crédito consignado no país, segundo especialistas.
Por que os juros estão tão altos?
Alguns fatores explicam o aumento acentuado das taxas na nova linha de crédito:
1. Insegurança no vínculo empregatício
Diferente de aposentados ou servidores, o trabalhador CLT pode ser demitido a qualquer momento. Isso representa um risco maior de descontinuidade no pagamento, o que encarece o crédito.
2. Inadimplência em alta
Mesmo com desconto em folha, casos de inadimplência têm crescido. Quando há desligamento, o banco precisa negociar diretamente com o cliente, o que aumenta o risco e o custo.
3. Margem consignável limitada
A margem consignável, que é a fatia do salário que pode ser comprometida com o consignado, é de 35%. Isso limita o valor das parcelas e faz com que os bancos cobrem mais juros para compensar o menor retorno.
4. Custos operacionais e risco jurídico
Empresas de menor porte ou que não possuem convênios com bancos apresentam mais dificuldades para garantir a operação do desconto em folha, aumentando a incerteza.
Reações do mercado e dos especialistas
Economistas afirmam que a elevação dos juros, mesmo com a Selic em queda, revela uma disfunção no sistema de crédito. “Há uma percepção de que o crédito com desconto em folha para o trabalhador não é tão seguro quanto se imaginava, especialmente em tempos de mercado de trabalho volátil”, explica o analista financeiro Marcos Guerra.
Instituições financeiras também relatam desafios na implementação da nova linha. Segundo dados da Febraban, algumas fintechs e bancos digitais estão se retirando dessa modalidade por considerar o risco elevado demais para os ganhos potenciais.
Governo estuda medidas para conter alta dos juros

O Ministério da Fazenda, em conjunto com o Banco Central, estuda medidas para garantir que o crédito consignado para trabalhadores tenha uma regulamentação mais segura. Entre as possibilidades, estão:
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- Criação de um fundo garantidor para cobrir casos de demissão
- Ampliação da margem consignável para contratos com maior prazo
- Incentivos fiscais para instituições que oferecerem taxas mais baixas
O objetivo é reduzir os custos para o consumidor e evitar que o consignado se transforme em uma armadilha de endividamento.
Riscos do consignado para o trabalhador
Apesar de parecer atrativo, o consignado para trabalhadores pode se tornar uma armadilha, especialmente quando a taxa ultrapassa os 50% ao ano. Entre os riscos, estão:
- Endividamento em caso de demissão
- Comprometimento excessivo da renda mensal
- Dificuldade de renegociação após perda de vínculo
Organizações de defesa do consumidor alertam para a importância de ler o contrato com atenção e simular diferentes cenários antes de assumir essa dívida.
Alternativas ao crédito consignado
Para quem precisa de recursos, é importante considerar outras formas de crédito, que podem ter custos menores dependendo do perfil:
- Crédito pessoal com garantia (ex: veículo ou imóvel)
- Empréstimos entre pessoas físicas via plataformas P2P
- Antecipação de recebíveis para autônomos
Além disso, é fundamental avaliar a real necessidade do empréstimo e considerar a construção de uma reserva de emergência como medida preventiva.
Como comparar taxas de juros
O Banco Central disponibiliza em seu site o Ranking de Juros, que permite comparar as taxas praticadas por diferentes instituições para cada tipo de crédito. Basta:
- Acessar o site oficial do Banco Central
- Buscar por “Ranking de Juros”
- Filtrar por modalidade de crédito (ex: consignado)
- Conferir as instituições com menores taxas
Essa prática permite ao consumidor negociar melhores condições com base em dados reais.
Conclusão
O aumento das taxas do crédito consignado para trabalhadores da iniciativa privada levanta alertas sobre a qualidade do crédito oferecido e os riscos associados. Superando a marca de 50% ao ano, essa modalidade deixa de ser vantajosa em muitos casos e pode comprometer o orçamento de milhares de brasileiros.
Embora o consignado ainda seja uma alternativa mais barata do que o rotativo do cartão ou o cheque especial, é necessário cautela. Comparar taxas, simular cenários e buscar orientação financeira são passos essenciais para evitar o superendividamento. Cabe ao governo e às instituições financeiras aprimorar o modelo e garantir que essa opção de crédito continue sendo acessível e segura para a população.
