Com o aumento da tensão nos mercados internacionais e o temor crescente de uma recessão mundial, muitos investidores brasileiros se perguntam: há risco de calote nos títulos públicos emitidos pelo Tesouro Nacional, como o Tesouro Direto?
Juros mais altos podem nos levar a um calote? Entenda o risco
O Brasil corre risco de calote com a dívida pública? Entenda por que os títulos do Tesouro Direto em reais são considerados seguros mesmo em cenário de recessão global e juros altos.
A dúvida, enviada por um ouvinte do Rio de Janeiro, é pertinente em um cenário de juros elevados e endividamento crescente do setor público.
Apesar dos receios, a resposta direta é: não há risco de calote nos títulos públicos emitidos em reais. Mas isso não significa que a situação fiscal do país seja confortável — e nem que o cenário esteja isento de riscos para a economia como um todo.
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Entendendo o que é o Tesouro Direto

O que são os títulos públicos?
O Tesouro Direto é um programa criado pelo Governo Federal em parceria com a B3 (antiga BM&FBovespa), que permite a compra de títulos públicos por pessoas físicas de forma simples, direta e acessível, via internet.
Esses títulos representam empréstimos feitos pelos investidores ao governo. Em troca, o Tesouro Nacional se compromete a devolver o dinheiro com juros em uma data futura.
Tipos de títulos mais populares
- Tesouro Selic (LFT): acompanha a taxa básica de juros (Selic).
- Tesouro Prefixado (LTN): tem rentabilidade fixa.
- Tesouro IPCA+ (NTN-B): corrige o valor pela inflação (IPCA) e paga juros reais.
Governo pode dar calote em títulos públicos?

Por que o Tesouro não quebra como uma empresa ou família?
Diferente de uma empresa ou uma família, o Tesouro Nacional tem capacidade de emitir moeda. Isso significa que, para dívidas emitidas em reais, o governo sempre poderá pagar seus compromissos — mesmo que precise emitir mais moeda para isso.
Ou seja, o Tesouro pode captar recursos em reais no mercado sempre que precisar, e não enfrenta o mesmo risco de inadimplência que pessoas ou empresas enfrentariam ao tomar empréstimos com juros altos.
E a dívida em dólar?
Aqui a história muda. Quando o governo emite dívida em moeda estrangeira, como o dólar, ele não tem autonomia para criar essa moeda. Nesse caso, o pagamento depende da existência de reservas internacionais, como já aconteceu no passado.
O Brasil já deu calote em dívidas externas, como nos anos 1980, durante a chamada década perdida, e em outras crises de balanço de pagamentos. Mas esse risco não se aplica à dívida emitida em reais.
Qual o impacto de juros altos na dívida pública?
A dívida pública cresce mais rápido
Quanto maiores os juros, mais rapidamente a dívida pública aumenta, porque o governo precisa pagar mais para rolar seus compromissos. Hoje, com a taxa Selic em níveis elevados, o custo para manter e refinanciar a dívida é mais alto.
“Não tem risco de calote, mas se o governo gasta muito com juros, tem que gastar menos com outras coisas”, explica um especialista em finanças públicas.
Consequências do descontrole fiscal
Mesmo sem calote, o aumento excessivo da dívida obriga o governo a fazer ajustes em outras áreas, como:
- Redução de investimentos públicos;
- Cortes em áreas sociais;
- Aumento da carga tributária;
- Pressão inflacionária via emissão monetária.
Se o desequilíbrio fiscal persistir, pode haver perda de confiança dos investidores, fuga de capitais, alta do dólar, inflação descontrolada e até instabilidade política.
O que diz a Constituição sobre o salário mínimo e o endividamento?
A Constituição Federal de 1988 estabelece que o salário mínimo deve ser suficiente para cobrir as necessidades básicas do trabalhador e sua família, incluindo alimentação, moradia, saúde, educação e lazer.
Por isso, quando o gasto com juros da dívida começa a engolir o orçamento público, o país entra em um dilema: pagar os credores ou investir no bem-estar social?
Quais são os riscos fiscais reais do Brasil hoje?
Situação atual da dívida pública
De acordo com o Banco Central, a dívida bruta do governo geral já ultrapassa 75% do PIB — um dos maiores percentuais da história recente. Com as despesas obrigatórias crescendo mais do que as receitas, o país enfrenta um déficit estrutural.
Risco de instabilidade, não de calote
A possibilidade de calote é praticamente nula, mas o risco real está na deterioração da credibilidade fiscal, o que pode:
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- Elevar ainda mais os juros futuros;
- Dificultar o crescimento econômico;
- Reduzir a atratividade dos títulos públicos.
E se houver uma recessão global?
O que muda com a desaceleração internacional?
Em um cenário de recessão global, como o que começa a se desenhar, há redução da demanda por produtos brasileiros, menor crescimento econômico e possível queda na arrecadação do governo. Isso piora o quadro fiscal.
Se os investidores passarem a enxergar o Brasil como mais arriscado, podem exigir prêmios maiores para comprar títulos públicos, elevando ainda mais o custo da dívida.
O Tesouro Selic continua sendo seguro?

Por que o Tesouro Selic é considerado o título mais seguro do Brasil?
Mesmo com os desafios fiscais, o Tesouro Selic é o investimento mais seguro do país, porque:
- É garantido pelo próprio governo;
- Tem liquidez diária;
- Não sofre grandes variações de preço, pois acompanha a taxa Selic.
Além disso, ele rende mais quando os juros estão altos, o que pode ser vantajoso para quem quer preservar o poder de compra e fugir da volatilidade do mercado.
O que o investidor deve fazer neste cenário?
Dicas para quem investe em títulos públicos
- Foque em títulos atrelados à Selic se busca segurança e liquidez.
- Evite alongar demais o prazo de vencimento em um cenário incerto.
- Acompanhe as contas públicas e a evolução da dívida/PIB.
- Diversifique seus investimentos, combinando Tesouro Direto com ativos de renda fixa privada ou fundos.
Considerações finais
Apesar dos desafios econômicos e do cenário global conturbado, não há risco de calote nos títulos emitidos em reais pelo Tesouro Nacional, como o Tesouro Selic. O governo brasileiro sempre poderá emitir moeda para honrar esse tipo de compromisso.
No entanto, o crescimento contínuo da dívida pública, em um ambiente de juros elevados, impõe limitações ao orçamento público e exige ajustes fiscais responsáveis para evitar desequilíbrios mais sérios, como os vividos na época da hiperinflação.
Para o investidor que aplica em Tesouro Direto, especialmente em Tesouro Selic, o ambiente ainda é seguro. Mas vale manter atenção às condições macroeconômicas, à evolução das contas públicas e à credibilidade do governo perante o mercado.
