Uma ação protocolada na Justiça Federal de São Paulo está exigindo que empresas de apostas online devolvam todo o dinheiro do Bolsa Família que, segundo a denúncia, foi utilizado por beneficiários do programa social para realizar jogos online desde novembro de 2024. A medida ocorre após o Supremo Tribunal Federal (STF) determinar que o governo federal adote mecanismos para impedir o uso indevido dos recursos do programa em sites de apostas.
Justiça cobra devolução de valores do Bolsa Família aplicados em apostas online
Empresas de apostas são cobradas judicialmente pela devolução de verbas do Bolsa Família usadas por beneficiários em jogos desde 2024.
A ação também requer que essas empresas sejam condenadas a pagar R$ 500 milhões por danos morais coletivos, valor que, caso a Justiça aceite o pedido, será destinado a projetos sociais a serem definidos pelo Ministério da Justiça.
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Organizações sociais estão por trás da ação

O processo foi movido por um grupo de entidades da sociedade civil, entre elas a Educafro, o Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedeca) e o Centro de Defesa dos Direitos Humanos Padre Ezequiel Ramin, comandado pelo padre Júlio Lancellotti. As ONGs alegam que as empresas de apostas não apenas falharam em implementar mecanismos de restrição ao uso de verbas sociais, como também promoveram ações publicitárias voltadas justamente ao público de baixa renda.
O impacto das bets nas finanças populares
Em um dos trechos da ação, os advogados das entidades afirmam que:
“Cada novo ato de consumo de jogos por parte de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, com recursos públicos transferidos para sua subsistência, não configura apenas uma irregularidade financeira individualizada, mas sim uma renovação da lesão coletiva e uma perpetuação do ciclo de miséria, ludopatia e exclusão social”.
A crítica se alinha às recentes declarações do presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, que defendeu a taxação das apostas como uma forma de equilibrar perdas do IOF, e ao discurso de autoridades que vêm apontando as bets como um novo vetor de endividamento das famílias mais pobres.
Omissão das empresas é alvo de críticas
As organizações sociais apontam ainda que as empresas de apostas não tomaram qualquer iniciativa concreta para impedir que beneficiários do Bolsa Família usassem os recursos do programa em jogos online. Pelo contrário, conforme consta no processo, há indícios de que diversas plataformas direcionaram campanhas de marketing agressivas justamente a esse público, com promoções, bônus e facilidades de pagamento.
Argumentos centrais da ação
- Falta de políticas eficazes de jogo responsável.
- Omissão em implementar filtros para impedir apostas com recursos sociais.
- Ação deliberada de marketing sobre populações vulneráveis.
- Desvio de finalidade das verbas públicas.
- Violação de direitos humanos e sociais.
Proposta de solução: bloqueio por CPF
Além da devolução integral dos valores e da indenização milionária, o processo pede que a Justiça obrigue as empresas de apostas online a desenvolverem um sistema tecnológico próprio e seguro que impeça o uso de CPFs cadastrados em programas sociais, como o Bolsa Família, em suas plataformas.
Esse sistema seria auditável e independente, com a finalidade de evitar que recursos públicos destinados à subsistência básica das famílias brasileiras sejam desviados para jogos de azar.
Histórico da decisão do STF

A movimentação judicial tem origem em decisão do ministro Luiz Fux, do STF, que em novembro de 2024 determinou que o governo federal criasse barreiras efetivas para impedir o uso do Bolsa Família em apostas online. A decisão foi motivada por denúncias crescentes de que beneficiários do programa estariam utilizando os valores para fazer apostas esportivas, potencialmente agravando quadros de vulnerabilidade social e ludopatia.
Fux considerou que o uso indevido dos recursos fere os princípios constitucionais que norteiam os programas de transferência de renda.
Panorama atual do Bolsa Família
Enquanto a ação judicial segue seu curso na 13.ª Vara Cível Federal de São Paulo, os pagamentos do Bolsa Família continuam sendo feitos regularmente. Em maio, por exemplo, a Caixa Econômica Federal pagou os valores aos beneficiários com NIS final 6. O valor médio do benefício, segundo o governo, está em R$ 667,49, incluindo os adicionais por composição familiar.
O que dizem os especialistas
Para Márlon Reis, um dos autores da ação e ex-juiz eleitoral, a responsabilização civil das empresas de apostas é urgente e necessária. “Não basta o governo tentar impedir o uso indevido. As empresas precisam ser coatoras dessa responsabilidade, especialmente porque lucram diretamente com a vulnerabilidade dos seus clientes”, afirma.
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O advogado Rafael Estorilio complementa que “as apostas online vêm corroendo a já frágil estabilidade financeira das famílias brasileiras mais pobres, alimentando um ciclo de dependência e miséria que os programas sociais tentam justamente combater”.
Aposta na impunidade?
O crescimento explosivo das apostas online no Brasil não tem sido acompanhado pela devida regulamentação. Apesar de o setor movimentar bilhões de reais por ano, a fiscalização e o controle sobre o funcionamento das bets ainda são incipientes, o que abre margem para práticas nocivas ao interesse público.
A falta de mecanismos de exclusão automática de beneficiários de programas sociais, segundo as ONGs, é um exemplo claro de omissão dolosa que deve ser reparada.
Ministério da Justiça poderá indicar projetos sociais
Caso a Justiça aceite os pedidos da ação, os R$ 500 milhões cobrados das empresas de apostas por danos morais coletivos seriam destinados a projetos sociais previamente selecionados pelo Ministério da Justiça. O objetivo seria justamente mitigar os danos causados à sociedade brasileira, especialmente às populações mais vulneráveis.
Caminhos possíveis para a decisão judicial

O processo segue agora para manifestação do Ministério Público Federal (MPF) e, posteriormente, para decisão do juiz responsável. Se a Justiça acatar os pedidos das ONGs, o caso pode gerar jurisprudência e criar uma nova frente de responsabilização de empresas que operam no mercado de apostas digitais no Brasil.
A decisão poderá ainda provocar um efeito cascata, obrigando as plataformas a adotarem políticas mais rígidas de controle de acesso e filtragem de usuários, especialmente os mais vulneráveis.
Conclusão: o jogo que custa caro à sociedade
O uso de recursos do Bolsa Família em apostas online revela uma lacuna grave na regulação do setor, além de um problema social profundo. Quando beneficiários de programas sociais direcionam o pouco que têm para jogos de azar, a sociedade como um todo perde — e o objetivo do programa, que é combater a fome e a pobreza, é comprometido.
A ação judicial representa uma tentativa concreta de reverter esse quadro, cobrando responsabilidade das empresas e propondo soluções técnicas e jurídicas para proteger os mais pobres da exploração promovida por plataformas de aposta.
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