O leilão marcado pelo governo para o dia 1º de agosto de 2025 promete não apenas liquidar uma dívida antiga das pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) com o mercado de curto prazo, como também abrir espaço para que grandes usinas hidrelétricas (UHEs) renovem suas concessões por até sete anos. A avaliação é do banco Santander, que vê no certame uma janela estratégica para grandes grupos geradores.
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Leilão de PCHs pode estender concessões de grandes UHEs, como Cemig e Auren, com retorno de até 13%, aponta relatório do Santander.
Com um valor total estimado em R$ 1,1 bilhão, o leilão prevê que os passivos das PCHs sejam convertidos em créditos negociáveis. As grandes usinas interessadas disputarão esses créditos, oferecendo lances em dinheiro. Aquelas que se comprometerem a pagar mais, ganham o direito de renovar suas concessões antecipadamente. Para as PCHs, a participação no leilão exige o encerramento de disputas judiciais e a liquidação de seus débitos.
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Oportunidade para as gigantes da energia

Empresas do setor hidrelétrico veem no leilão chance de ampliar concessões
Entre os nomes destacados pelo Santander como mais propensos a participar estão: Cemig (CMIG4), Auren (AURE3), Engie Brasil (EGIE3), Eletrobras (ELET3) e Enel Américas. A expectativa é que o leilão movimente estratégias setoriais de longo prazo, considerando os retornos estimados e a relevância de ampliar concessões em tempos de margens apertadas.
Cemig: vantagem em antecipar prorrogação
A Cemig, estatal mineira de energia, aparece como destaque no relatório por possuir concessões importantes vencendo já em 2027, o que a coloca à frente dos concorrentes em termos de urgência. Ainda que enfrente tarifas de transmissão mais altas, a empresa pode encontrar vantagem competitiva pela necessidade de alongar seu fluxo de caixa o quanto antes.
Auren: escala e menor custo logístico
A Auren Energia, por sua vez, é elogiada por apresentar maior capacidade elegível para renovação, além de custos médios de transmissão mais baixos. Essa característica é vista como estratégica, especialmente em um contexto no qual o custo logístico pode ser o diferencial para viabilizar ou inviabilizar projetos de grande escala.
Detalhes técnicos do leilão
Premissas e condições da proposta de renovação
As UHEs vencedoras do certame terão direito a renovar concessões por até sete anos, conforme parâmetros previamente definidos pelo governo federal. Entre as principais premissas estão:
- Preço de energia de R$ 229,85 por MWh
- Despesas operacionais de R$ 95,81 por MWh
- Taxa de desconto real de 10,94% ao ano
- Alíquota de impostos de 34%
Com essas condições, o Santander calcula que o leilão pode viabilizar a renovação de aproximadamente:
- 480 MW médios de capacidade firme para concessões com vencimento em 2027
- 810 MW médios para concessões com término previsto em 2032
Cálculos do Santander indicam TIR de até 12,9%
Cenários realistas favorecem retorno competitivo
Utilizando premissas mais conservadoras e realistas, como preço de longo prazo de R$ 160/MWh, fator de geração (GSF) de 85% e alavancagem de 70% no pagamento da outorga, o banco estimou as taxas internas de retorno (TIR) em:
- 12,9% no cenário otimista (concessões vencendo em 2027)
- 10,3% no cenário mais conservador (concessões até 2032)
Essas taxas são consideradas atrativas, especialmente em um contexto de Selic em declínio e busca por retornos reais em ativos estruturados.
Riscos e incertezas ainda pairam sobre o leilão

Tarifas de transmissão elevadas ameaçam viabilidade
Um dos pontos críticos destacados é o impacto das tarifas de transmissão — principalmente para geradoras localizadas em regiões com infraestrutura precária. Nesses casos, os custos operacionais podem corroer parte da rentabilidade prevista, tornando o projeto menos atrativo.
Escala regional como fator competitivo
Empresas com maior presença nas regiões de atuação das PCHs — ou com ativos próximos — tendem a levar vantagem por conta da redução de custos operacionais e sinergia logística.
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Risco regulatório e de judicialização
Um impasse regulatório já começou a afetar o andamento do certame. A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) deveria ter votado, recentemente, ajustes nas regras do leilão, mas um pedido de vista adiou a deliberação. Isso aumenta a possibilidade de judicialização, ou até mesmo adiamento ou cancelamento da licitação, especialmente se a medida provisória que sustenta o processo não for aprovada pelo Congresso.
Histórico do passivo das PCHs
Crise hídrica de 2014 originou dívida bilionária
O leilão tem origem em uma crise hídrica iniciada em 2014, quando diversas usinas foram afetadas por uma severa redução do volume de chuvas. Para mitigar o impacto financeiro, várias geradoras — sobretudo PCHs — conseguiram liminares judiciais para evitar o pagamento integral de suas obrigações com o mercado de curto prazo.
Esse movimento, embora legalmente respaldado à época, resultou no acúmulo de um passivo bilionário. Desde então, o governo já tentou, sem sucesso, dois acordos anteriores para resolver o problema — ambos fracassaram na adesão de PCHs que operam no mercado livre.
Agora, o novo leilão de agosto de 2025 é visto como uma última tentativa de encerrar a disputa, que envolve aproximadamente R$ 1,1 bilhão em dívidas não pagas.
Expectativa de alta concorrência

Grandes players e novos interessados devem entrar no certame
Com previsões de preços futuros em alta e retorno real atrativo, o Santander acredita que o leilão pode atrair não só os grandes players esperados como Eletrobras, Auren, Engie e Enel, mas também novos interessados que queiram ganhar musculatura no setor hidrelétrico. A depender da resolução dos impasses regulatórios e da manutenção do cronograma, o leilão pode se tornar um divisor de águas para o mercado de geração no país.
Considerações finais
Oportunidade estratégica, mas com entraves a serem superados
O leilão de passivos das PCHs representa, para as grandes UHEs, mais que uma simples negociação de créditos: é uma chance concreta de prolongar ativos estratégicos, aumentar previsibilidade de receita e consolidar presença regional com retorno real competitivo.
No entanto, a complexidade regulatória, somada ao histórico de judicializações e custos operacionais elevados em algumas regiões, impõe riscos relevantes. Ainda assim, se bem-sucedido, o leilão poderá encerrar um impasse de mais de uma década e dar novo fôlego à matriz hidrelétrica brasileira.
