As limitações impostas à antecipação do saque-aniversário do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) provocaram forte reação entre trabalhadores e instituições financeiras. Pesquisa da AtlasIntel, encomendada pela Associação Brasileira dos Bancos (ABBC) e pela Zetta, mostra que a maioria dos trabalhadores que utilizam a modalidade discorda das mudanças aprovadas pelo Conselho Curador do FGTS em outubro do ano passado.
Bancos veem risco de insatisfação generalizada com mudanças no saque-aniversário
Novas regras do saque-aniversário do FGTS reduzem crédito em até 96% e geram reação de trabalhadores e bancos.
As medidas passaram a valer em novembro e incluem carência de 90 dias para antecipação após adesão ao saque aniversário, limite de parcelas antecipadas, restrição de uma operação por ano e teto mínimo e máximo para prestação do empréstimo.
O impacto foi imediato: segundo levantamento da ABBC e da Zetta, o volume mensal de crédito com garantia do FGTS caiu de R$ 3 bilhões para R$ 600 milhões — retração de 80%. A projeção indica queda acumulada de 96% até o fim de 2027, o que pode inviabilizar a modalidade.
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O que mudou nas regras da antecipação
As alterações aprovadas pelo Conselho Curador do FGTS estabeleceram:
Carência de 90 dias
O trabalhador precisa esperar três meses após optar pelo saque aniversário para contratar a antecipação.
Limite de parcelas antecipadas
Até outubro de 2026, será possível antecipar no máximo cinco parcelas anuais. Depois disso, o limite cai para três.
Apenas uma operação por trabalhador
Cada trabalhador poderá fazer apenas uma antecipação por ano.
Prestação entre R$ 100 e R$ 500
Foi fixado valor mínimo de R$ 100 e máximo de R$ 500 para cada parcela do empréstimo.
Segundo a ABBC, 78 pontos percentuais da queda inicial nas operações ocorreram justamente em contratos cuja prestação era inferior a R$ 100 — perfil comum entre trabalhadores de renda mais baixa.
O que diz a pesquisa com trabalhadores
O levantamento da AtlasIntel foi realizado entre 16 e 23 de novembro, com 4.243 respondentes que já tiveram vínculo formal de trabalho. A margem de erro é de dois pontos percentuais e o nível de confiança é de 95%.
Entre os principais resultados:
- 70% dos que optaram pelo saque aniversário já usaram antecipação via empréstimo
- 65,7% acreditam que as novas regras prejudicam o trabalhador
- 86,96% dos que já usaram a linha são contra o fim da antecipação
Para que o dinheiro é usado?
A principal conclusão do estudo contraria uma das preocupações do governo: não houve registro de uso dos recursos para apostas online.
Entre os que utilizaram o saque aniversário:
- 59% usaram para pagar dívidas urgentes ou mais caras
- 19,9% destinaram a despesas com saúde e medicamentos
- 11% compraram bens de uso pessoal
- 9,6% investiram o valor
Entre os que anteciparam via empréstimo:
- 69,6% pagaram dívidas
- 28,1% custearam saúde
- 7,1% compraram bens
De acordo com Ricardo Barbosa, economista-chefe da Zetta, “os brasileiros não usam o dinheiro do saque aniversário para fazer apostas”.
Comparação de juros: FGTS x consignado privado
Um dos principais argumentos das associações do setor financeiro é o custo da linha.
Segundo a ABBC:
- Antecipação do FGTS: média de 1,79% ao mês
- Consignado privado: cerca de 3,79% ao mês
- Consignado tradicional: 6,66% ao mês
- Cartão parcelado: 9,25% ao mês
- Crédito para negativados: até 19,95% ao mês
A diferença é relevante em um país onde, segundo dados amplamente divulgados pelo mercado de crédito, cerca de 74% do público desse perfil está com restrições no CPF.
Outro ponto destacado é que a antecipação do FGTS não compromete a renda mensal do trabalhador, pois o pagamento é garantido pelo saldo futuro do fundo — diferente do consignado, que é descontado diretamente do salário.
Quem fica sem acesso ao crédito?
Segundo dados apresentados pela ABBC:
- 134 milhões de trabalhadores têm conta ativa com saldo no FGTS
- 49 milhões são celetistas com carteira assinada
- 85 milhões não teriam acesso ao consignado privado
Mesmo entre os celetistas, a taxa de aprovação é baixa. Pesquisa feita com cinco instituições apontou que, de cada 100 trabalhadores que tentaram contratar consignado privado, apenas 25 conseguiram aprovação.
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Isso significa que parte significativa dos trabalhadores pode ficar sem alternativa de crédito com juros mais baixos.
Impacto econômico estimado
A ABBC e a Zetta estimam que o fim da linha pode gerar impacto negativo de R$ 35 bilhões na economia. Para efeito comparativo, a redução do imposto de renda anunciada pelo governo teria impacto estimado de R$ 32 bilhões, beneficiando cerca de 16 milhões de pessoas.
Já o saque aniversário conta com cerca de 40 milhões de trabalhadores cadastrados. Destes, 28 milhões já utilizaram a antecipação.
Outro dado relevante: apesar do crescimento dos saques — de R$ 9 bilhões em 2020 para R$ 50 bilhões até novembro de 2025 — o saldo total do FGTS subiu de R$ 424 bilhões para R$ 695 bilhões no período, segundo números divulgados pelo setor.
Governo pode rever as medidas?
Representantes da ABBC afirmam ter conversado com a Casa Civil para discutir os impactos das restrições, especialmente o piso de R$ 100 por parcela, que atingiu diretamente trabalhadores de menor renda.
Até o momento, não há sinalização oficial de revisão das regras.
O debate gira em torno de dois pontos centrais:
- Proteção do trabalhador contra superendividamento
- Manutenção do acesso a crédito mais barato para quem não tem outras opções
Vale a pena usar a antecipação do saque aniversário?
Do ponto de vista financeiro, a decisão depende do objetivo do recurso.
Pode fazer sentido quando:
- O trabalhador tem dívida com juros acima de 2% ao mês
- Precisa de recurso emergencial para saúde
- Não tem acesso ao consignado
Pode não ser recomendável quando:
- O objetivo é consumo não essencial
- Há alternativa de crédito mais barata
- O trabalhador depende do saldo do FGTS para eventual demissão
Antes de contratar, é fundamental comparar o Custo Efetivo Total (CET) e simular cenários.
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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
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