O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, reforçou nesta segunda-feira (26/5) críticas à elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e ao atual patamar da taxa Selic.
Mercadante defende Haddad e aponta IOF como obstáculo ao financiamento
Mercadante critica IOF por dificultar crédito e pede corte da Selic. Presidente do BNDES defende Haddad e sugere impostos alternativos.
Durante evento em comemoração ao Dia da Indústria, na sede do BNDES, no Rio de Janeiro, o economista alertou que a política fiscal do país precisa ser revista para evitar o estrangulamento do crédito.
Em tom de defesa ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, Mercadante também destacou a necessidade de união institucional para a superação da crise fiscal e econômica. “Temos que ajudar o ministro a entregar o arcabouço fiscal”, declarou.
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A crítica ao IOF: “Dificulta o crédito e tem efeito restritivo”

IOF como instrumento de contração monetária
O IOF, tributo que incide sobre operações de crédito, câmbio, seguro e títulos, voltou ao centro do debate econômico nacional após o governo federal anunciar aumento em suas alíquotas.
A justificativa era ampliar a arrecadação para ajudar no cumprimento da meta fiscal. Entretanto, a medida encontrou forte resistência de setores produtivos e do mercado financeiro.
Para Mercadante, o IOF tem impacto direto na restrição ao crédito e encarece as operações financeiras, afetando negativamente o setor empresarial — especialmente as pequenas e médias empresas.
“O IOF tem uma função de contração monetária, porque aumenta o custo do crédito. Mas a Selic gera dívida, e o IOF gera receita”, argumentou.
Contraponto entre arrecadação e endividamento
O presidente do BNDES diferenciou os efeitos entre o aumento da Selic e a elevação do IOF.
Segundo ele, enquanto a alta dos juros básicos eleva os encargos da dívida pública, o IOF gera receita imediata, ajudando a melhorar a relação dívida/PIB. Ainda assim, ressaltou que o impacto no crédito é severo e precisa ser ponderado.
Selic sob pressão: “É hora de reduzir com responsabilidade”
Taxa básica de juros no centro das atenções
A Selic, atualmente em 14,75% ao ano, foi duramente criticada por Mercadante, que chamou o patamar de “ponto fora da curva”. Segundo ele, o BNDES tem conseguido operar mesmo sob a rigidez monetária, mas reforçou que é hora de o Banco Central entrar no debate e começar a flexibilizar a política monetária.
“Vamos baixar a Selic. Tem espaço para fazer isso de forma gradual, segura e sustentável”, afirmou.
Impacto nos investimentos produtivos
A crítica à taxa de juros também se baseia nos efeitos sobre o setor produtivo.
A manutenção da Selic em níveis elevados desestimula o investimento de longo prazo e dificulta o acesso a linhas de financiamento mais baratas, como as oferecidas pelo BNDES. O efeito cascata acaba atingindo a indústria, os serviços e o consumo das famílias.
A defesa de Haddad: “Não pode ficar sozinho”
Um apelo à unidade institucional
Ao longo de sua fala, Mercadante fez questão de sair em defesa do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que vem sendo alvo de críticas após os episódios de vai-e-volta nas decisões sobre o IOF.
Ele elogiou o compromisso do ministro com os valores republicanos e a responsabilidade fiscal, pedindo apoio institucional ao seu trabalho.
“O Haddad tem uma responsabilidade imensa, uma visão estratégica. Ele não pode ficar sozinho.”
Cobrança ao Congresso e à sociedade
Além do apoio político a Haddad, o presidente do BNDES fez um chamado à sociedade civil, ao Parlamento e ao empresariado para que participem ativamente da construção de soluções para os desafios fiscais do país. Para ele, as mudanças estruturais exigem mais do que boa vontade do Executivo.
“O Parlamento, a sociedade e os empresários precisam ajudar. O desafio fiscal é de todos”, destacou.
A proposta alternativa: tributar apostas online
Imposto sobre as bets como nova fonte de arrecadação
Na busca por alternativas à alta do IOF, Mercadante sugeriu que o governo federal poderia ampliar a arrecadação por meio da taxação de plataformas de apostas online, as chamadas “bets”.
Apesar de reconhecer a dificuldade de implementar esse modelo, ele afirmou que o potencial de receita justificaria o esforço.
“Não é fácil arrecadar bets, mas poderíamos, com isso, diminuir o impacto do IOF e criar alternativas mais justas.”
A complexidade de tributar o setor digital
O mercado de apostas online cresce exponencialmente no Brasil, mas ainda carece de regulamentação eficiente.
A proposta de tributar o setor está em debate no Congresso, e pode se tornar uma das novas fontes de receita não inflacionárias para o governo, reduzindo a pressão sobre impostos já existentes.
Entenda o contexto: recuos e críticas após alta do IOF
Anúncio seguido de recuo
A recente alta do IOF foi inicialmente anunciada com o objetivo de arrecadar R$ 20,5 bilhões em 2025. Entretanto, após forte repercussão negativa, especialmente no mercado financeiro, o governo revogou parte das medidas poucas horas após o anúncio.
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- Aplicações de fundos nacionais no exterior;
- Remessas de pessoas físicas ao exterior.
Permanecem em vigor:
- Aumento da alíquota na compra de moeda estrangeira;
- Elevação do IOF em operações de crédito para empresas e MEIs.
Mercado reage com desconfiança
O recuo parcial do governo foi interpretado por analistas como sinal de fragilidade na condução econômica. O episódio provocou queda na confiança do mercado e colocou em xeque a capacidade de execução do plano fiscal apresentado por Fernando Haddad.
Reações do setor produtivo e do mercado
Indústria pede previsibilidade e crédito barato
A indústria nacional, representada por entidades como a CNI (Confederação Nacional da Indústria), tem cobrado do governo medidas de estímulo ao investimento, como a redução dos juros e a oferta de crédito acessível. A elevação do IOF foi vista como uma contradição nesse sentido.
Sistema financeiro alerta para instabilidade
Economistas e analistas do mercado financeiro alertaram que mudanças repentinas na tributação minam a previsibilidade e aumentam o risco-país. A crítica à falta de coordenação na política econômica ganhou força com os vazamentos e recuos da última semana.
BNDES: expansão sob restrição monetária

Avanço apesar da Selic
Mesmo com a Selic em níveis elevados, o BNDES tem reportado aumento na liberação de crédito e ampliação de sua atuação em projetos estratégicos, como transição energética, infraestrutura e reindustrialização.
Mercadante destacou que o banco tem atuado com criatividade para contornar as dificuldades impostas pela política monetária.
Papel estratégico do BNDES
Para o governo, o BNDES é peça-chave na retomada do crescimento sustentável. A capacidade do banco de financiar projetos de longo prazo com taxas competitivas é um diferencial importante em um ambiente de juros altos.
Conclusão: Um chamado à articulação econômica
O discurso de Aloizio Mercadante revela um esforço claro de reorientar o debate econômico em torno de alternativas sustentáveis para a política fiscal brasileira. Ao defender Fernando Haddad e criticar a Selic e o IOF, ele propõe uma visão mais integrada e pragmática da política econômica.
A crise recente mostrou que ajustes precipitados, sem diálogo com o mercado e a sociedade, podem comprometer não apenas a arrecadação, mas também a confiança.
A proposta de tributar apostas online e a cobrança por um corte gradual na Selic sinalizam caminhos possíveis para conciliar responsabilidade fiscal com estímulo ao crescimento.
O Brasil, diante de um desafio fiscal histórico, precisa construir pontes entre arrecadação, estímulo ao crédito e responsabilidade macroeconômica — e esse processo passa por diálogo, coordenação e transparência nas decisões.
