O mercado financeiro chega à reunião de setembro do Comitê de Política Monetária (Copom) com atenção concentrada nos próximos passos da taxa básica de juros. A avaliação da XP é de que o Banco Central poderá reduzir a Selic para 13,75% ao ano nesta reunião e manter uma trajetória de cortes até atingir 13,25% no encerramento de 2026.
A expectativa considera a perda de ritmo da economia brasileira e sinais de desaceleração da inflação. Ao mesmo tempo, o cenário permanece cercado por riscos externos, incertezas fiscais e pressões que podem dificultar uma redução mais acelerada dos juros.
A reunião do Copom ocorre nos dias 15 e 16 de setembro, e a decisão é acompanhada de perto porque interfere diretamente no custo do crédito, nos investimentos e nas condições financeiras das famílias e empresas.
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A projeção da XP parte da percepção de que a atividade doméstica está perdendo força. O Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre levou a instituição a reduzir sua estimativa de crescimento econômico em 2026, de 2% para 1,7%.
Uma economia menos aquecida tende a diminuir a pressão sobre os preços e pode abrir espaço para uma política monetária menos restritiva. Esse processo, porém, precisa ser acompanhado pelo comportamento das expectativas de inflação, que continuam acima da meta perseguida pelo Banco Central.
O IPCA de agosto também reforçou a percepção de alívio no curto prazo. O índice registrou deflação de 0,32%, influenciado principalmente pela queda de determinados preços administrados.
Corte de 0,25 ponto percentual é esperado
Para setembro, a estimativa da XP é de uma redução de 0,25 ponto percentual. Caso a previsão se confirme, a Selic passaria de 14% para 13,75% ao ano.
Apesar da expectativa de corte, os economistas consideram que uma pausa poderia ser justificável diante das incertezas atuais. A avaliação, entretanto, é de que o Copom deverá continuar com a chamada calibração da política monetária.
O movimento tende a ter impacto limitado sobre os ativos financeiros no dia da decisão, justamente porque a redução já é amplamente esperada pelos investidores. Mudanças no comunicado e nas sinalizações para as próximas reuniões podem ser mais relevantes para os mercados.
Inflação continua sendo o principal desafio
A trajetória dos preços permanece como um dos principais fatores que podem determinar a velocidade dos cortes. A XP estima que a projeção de inflação do próprio Copom para 2026 possa recuar de 5,1% para 4,9%.
Para 2027, contudo, a expectativa poderia subir de 3,8% para 3,9%. No horizonte mais longo utilizado pelo Banco Central para orientar a política monetária, a projeção também poderia apresentar uma pequena revisão para cima.
Esse quadro explica por que uma eventual redução dos juros não significa que o Banco Central considere a inflação totalmente controlada. A autoridade monetária precisa avaliar não apenas os preços atuais, mas também expectativas, atividade econômica, câmbio e possíveis choques futuros.
Cenário internacional aumenta a cautela
O ambiente externo é outro elemento que pode limitar a velocidade do ciclo de cortes. Segundo a análise da XP, o petróleo voltou a superar US$ 100 por barril em meio às tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã.
Uma alta persistente do petróleo pode pressionar combustíveis e outros custos de produção, criando novas dificuldades para o processo de desinflação.
As taxas de juros de longo prazo também permanecem elevadas em diferentes economias. Nos Estados Unidos, o rendimento dos títulos do Tesouro de dez anos se aproximou de 5%, movimento que aumenta a atratividade relativa de ativos internacionais e pode afetar fluxos de capital para países emergentes.
Na Europa, a política monetária também adiciona incertezas, enquanto as decisões do Federal Reserve são acompanhadas pelos mercados globais.
El Niño pode afetar os alimentos
Além dos combustíveis, as condições climáticas representam um risco adicional. A possibilidade de efeitos do El Niño sobre o clima pode influenciar a oferta de alimentos in natura no fim de 2026 e durante os primeiros meses de 2027.
Para o consumidor brasileiro, esse tipo de choque pode aparecer diretamente nos preços de produtos agrícolas. Para o Banco Central, uma elevação persistente dos alimentos pode dificultar a convergência da inflação e exigir maior cautela nos cortes de juros.
Câmbio e cenário fiscal entram no radar
No Brasil, o comportamento do real continua sendo uma variável importante. A XP elevou sua projeção cambial de R$ 5,10 para R$ 5,15 por dólar.
Até o momento, a entrada de investimentos estrangeiros e as exportações de commodities ajudam a sustentar o câmbio. Uma eventual deterioração do cenário externo ou fiscal, porém, poderia produzir pressão adicional sobre a moeda brasileira.
As expectativas de inflação também apresentaram piora. A projeção para o fim de 2027 passou de 4,22% para 4,30%, enquanto a estimativa para os 12 meses encerrados em março de 2028 avançou de 4,04% para 4,05%.
Esses números mostram por que a condução dos juros continua exigindo cautela mesmo diante de sinais de enfraquecimento da economia.
Diesel e jornada 6×1 podem gerar novas pressões
No cenário doméstico, a XP também chama atenção para fatores capazes de elevar custos. Entre eles está a discussão no Congresso sobre mudanças na jornada de trabalho 6×1.
Caso uma alteração seja aprovada e produza aumento relevante dos custos para determinados setores, parte desse impacto pode ser repassada aos preços, dependendo da capacidade das empresas de absorver as despesas adicionais.
O mercado de diesel também permanece no radar. Diferenças em relação às referências internacionais podem abrir espaço para reajustes, caso as condições externas permaneçam desfavoráveis.
O que esperar da Selic em 2027

Para 2027, a XP trabalha com uma taxa terminal de 11,50% ao ano. O ritmo desse processo, entretanto, dependerá principalmente da evolução das expectativas de inflação, da política fiscal do próximo governo e dos choques de oferta no exterior.
A política fiscal será particularmente relevante porque mudanças na trajetória das contas públicas podem influenciar a percepção de risco, o câmbio e as expectativas de inflação.
Por isso, mesmo que o Copom consiga reduzir os juros em 2026, isso não significa necessariamente que haverá uma queda rápida até níveis muito menores no ano seguinte.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
