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Disputa por preços das canetas emagrecedoras pode redesenhar o setor farmacêutico brasileiro

Fim da patente do Ozempic acelera concorrência, reduz preços e muda projeções do mercado de GLP-1 no Brasil até 2030.

Melissa BarbosaPor Melissa Barbosa9 min de leitura
Ozempic

A perda da patente do Ozempic desencadeou uma das maiores transformações recentes da indústria farmacêutica brasileira. Com a abertura do mercado para medicamentos similares à base de semaglutida, fabricantes nacionais e multinacionais passaram a disputar espaço por meio de uma estratégia centrada na redução de preços, ampliação do acesso e aumento do volume de vendas.

Ao mesmo tempo em que mais pacientes passam a ter condições financeiras de iniciar tratamentos com Ozempic e outros medicamentos para diabetes tipo 2 e obesidade, empresas do setor enfrentam um cenário de margens menores e concorrência cada vez mais intensa.

Relatório do Goldman Sachs aponta que essa mudança estrutural, impulsionada pelo fim da patente do Ozempic, deverá redefinir o mercado brasileiro de medicamentos da classe GLP-1 ao longo da próxima década, alterando projeções de receita, participação de mercado e rentabilidade das principais farmacêuticas.

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O que muda com o fim da patente do Ozempic

Ozempic
Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital

A quebra da exclusividade da semaglutida abriu espaço para que laboratórios brasileiros passassem a comercializar medicamentos equivalentes após as autorizações regulatórias.

Na prática, isso significa que:

  • novos concorrentes entram no mercado;
  • os preços tendem a cair significativamente;
  • o acesso da população aumenta;
  • o consumo cresce em ritmo superior ao observado nos últimos anos;
  • fabricantes passam a competir principalmente por preço e distribuição.

Segundo o Goldman Sachs, esse movimento representa uma mudança semelhante à observada em outros segmentos farmacêuticos após o vencimento de grandes patentes.

Mercado brasileiro deve manter crescimento, mas com menor rentabilidade

Apesar da intensificação da concorrência após o fim da patente do Ozempic, o Goldman Sachs mantém praticamente inalterada sua estimativa para o mercado formal brasileiro em 2026.

A projeção continua em aproximadamente R$ 17,5 bilhões, considerando os preços praticados no varejo.

Dados da IQVIA até maio de 2026 mostram vendas acumuladas de cerca de R$ 6,5 bilhões, indicando que o mercado de medicamentos como o Ozempic e outros da classe GLP-1 segue em crescimento consistente, embora sem aceleração tão intensa quanto parte dos analistas esperava.

Entre os fatores que limitaram esse avanço estão:

  • sazonalidade das vendas;
  • competição com medicamentos comercializados informalmente;
  • expectativa dos consumidores pela chegada de produtos mais baratos.

Guerra de preços deve acelerar em 2027

O principal impacto da quebra da patente aparece nas projeções para 2027.

Embora o mercado continue crescendo, o Goldman Sachs reduziu sua expectativa de expansão anual do varejo formal de 38% para 32%, reflexo direto da forte queda dos preços médios.

Ainda assim, o mercado deverá movimentar aproximadamente R$ 23,1 bilhões, sustentado pelo aumento expressivo do número de pacientes tratados.

Segundo o banco, a expectativa é de comercialização de aproximadamente:

  • 25,5 milhões de caixas vendidas
  • ticket médio próximo de R$ 900 por unidade

Na avaliação dos analistas, a estratégia passa a privilegiar escala em vez de margens elevadas.

EMS inaugura nova política de preços

Um dos principais fatores para a revisão das projeções foi a estratégia adotada pela EMS com o lançamento do Ozivy.

O medicamento chegou ao varejo por cerca de R$ 465, aproximadamente 54% abaixo do preço praticado pelo Ozempic.

Além disso, programas promocionais reduziram temporariamente o custo mensal para valores próximos de R$ 287 durante os primeiros meses de tratamento.

Essa política alterou completamente o patamar de entrada para consumidores brasileiros.

Enquanto anteriormente o tratamento custava aproximadamente R$ 1.000 mensais, agora tornou-se financeiramente acessível para famílias de renda intermediária.

Redução dos preços amplia o mercado consumidor

Segundo a análise do Goldman Sachs, a queda dos preços praticamente dobra o universo potencial de consumidores.

Antes da chegada dos similares, apenas famílias com renda per capita superior a aproximadamente R$ 10 mil mensais conseguiam manter o tratamento de forma contínua.

Com medicamentos na faixa dos R$ 450 mensais, o tratamento passa a representar cerca de 4% da renda de famílias com renda per capita próxima de R$ 5 mil.

Essa mudança explica a revisão da projeção de vendas.

O banco elevou sua expectativa para:

  • 25,5 milhões de caixas vendidas em 2027

Anteriormente, a estimativa era de aproximadamente:

  • 18,6 milhões de caixas

Ou seja, a expansão do mercado será impulsionada principalmente pelo aumento do número de pacientes, e não pelo crescimento dos preços.

Como fica a disputa entre os principais medicamentos

A nova dinâmica afeta cada produto de maneira diferente.

Mounjaro deve manter liderança em receita

Mesmo enfrentando descontos promocionais, a tirzepatida continua sendo vista como o medicamento mais competitivo em eficácia clínica para perda de peso.

O Goldman Sachs projeta crescimento de aproximadamente 20% no volume vendido, sustentado por:

  • maior eficácia terapêutica;
  • adoção crescente de doses mais altas;
  • fortalecimento de programas comerciais.

Ozempic perde volume, mas preserva posicionamento premium

A expectativa é de queda próxima de 30% no volume comercializado.

Mesmo assim, a estratégia da fabricante deve priorizar:

  • manutenção da força da marca;
  • posicionamento premium;
  • diferenciação frente aos similares.

Além disso, a empresa passa a disputar o segmento de medicamentos equivalentes por meio de sua parceria com a Eurofarma.

Wegovy mantém estabilidade

Como os primeiros similares concentram-se principalmente na apresentação de 1 mg, o Wegovy tende a preservar volumes relativamente estáveis.

A concorrência direta ainda permanece limitada em algumas apresentações.

Novos similares devem dominar o crescimento

O Goldman Sachs estima que medicamentos como:

  • Ozivy;
  • Semavy;
  • futuros lançamentos da Hypera e outros laboratórios;

respondam por aproximadamente 14 milhões de caixas comercializadas em 2027.

Esse segmento será o principal responsável pela expansão do mercado.

Hypera deve enfrentar margens mais apertadas

Embora a Hypera seja uma das empresas mais aguardadas entre os novos participantes, o Goldman Sachs mantém recomendação neutra para suas ações.

A expectativa é que a empresa conquiste cerca de:

  • 8% de participação nas vendas de semaglutida

Isso poderia adicionar aproximadamente:

  • R$ 693 milhões em receitas brutas durante 2027

Entretanto, fatores como importação do produto acabado, investimentos elevados em marketing e estrutura comercial devem limitar ganhos de margem nos primeiros anos.

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RD Saúde continua bem posicionada

Mesmo reduzindo suas estimativas de lucro para os próximos anos, o Goldman Sachs manteve recomendação positiva para as ações da RD Saúde.

Os analistas acreditam que grande parte das preocupações do mercado já está refletida nas cotações.

Entre as projeções para 2027 estão:

  • GLP-1 representando aproximadamente 12,5% das vendas da companhia;
  • faturamento da categoria próximo de R$ 7,4 bilhões;
  • liderança nas vendas dos medicamentos de referência;
  • participação próxima de 20% entre os similares.

Na visão do banco, a expansão do volume tende a compensar parte da pressão sobre os preços.

Mercado informal ainda representa um grande desafio

Outro ponto destacado no relatório é o tamanho do mercado paralelo.

A estimativa é que ele tenha movimentado aproximadamente R$ 11 bilhões em 2025.

Esse segmento inclui principalmente:

  • medicamentos importados irregularmente;
  • revendas em redes sociais;
  • clínicas não autorizadas;
  • medicamentos manipulados fora das condições permitidas.

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a manipulação de semaglutida sintética permanece proibida no Brasil, enquanto a tirzepatida possui regras específicas para manipulação sob critérios regulatórios.

Os analistas acreditam que a redução dos preços oficiais diminuirá o incentivo econômico para compras irregulares, favorecendo a migração dos consumidores para o mercado formal.

Caso aproximadamente 40% desse mercado paralelo seja absorvido pelo varejo regular, o tamanho do mercado poderá superar R$ 30 bilhões em 2027.

Em cenários mais otimistas, as estimativas apontam potencial próximo de R$ 40 bilhões.

Inclusão no SUS pode ampliar ainda mais o mercado

Outro fator monitorado pelos analistas é uma possível incorporação gradual de medicamentos da classe GLP-1, como o Ozempic, ao Sistema Único de Saúde (SUS).

O interesse decorre do elevado custo do tratamento das complicações relacionadas ao diabetes e à obesidade para o sistema público.

Projetos-piloto já avaliam o fornecimento da semaglutida, princípio ativo do Ozempic, para pacientes com obesidade grave em situações específicas.

Caso os preços industriais continuem caindo, aumenta a possibilidade de futuras incorporações ao SUS, desde que os medicamentos passem pelas avaliações de custo-efetividade conduzidas pelos órgãos responsáveis pela incorporação de novas tecnologias na rede pública.

Medicamentos orais representam a próxima fronteira

Além dos medicamentos injetáveis, o mercado acompanha o avanço das formulações orais.

Esses produtos têm potencial para ampliar significativamente o número de pacientes tratados, especialmente entre pessoas que apresentam resistência ao uso de injeções.

Entre os principais projetos estão:

  • Wegovy oral, atualmente em análise regulatória no Brasil;
  • orforglipron, desenvolvido pela Eli Lilly, com expectativa de chegada ao mercado brasileiro após aprovação regulatória.

A tendência observada internacionalmente indica que os comprimidos podem ganhar participação relevante ao longo dos próximos anos.

O que esperar para o mercado brasileiro de GLP-1

Ozempic
Imagem: anilorac – freepik

A indústria farmacêutica entra em uma nova fase marcada pelo fim da patente do Ozempic, maior concorrência, redução dos preços e expansão do acesso aos tratamentos para diabetes e obesidade.

Embora as empresas enfrentem margens menores, o aumento do número de pacientes tende a impulsionar o crescimento do mercado formal, beneficiando fabricantes, redes de farmácias e consumidores, inclusive com a ampliação da oferta de medicamentos similares ao Ozempic.

Ao mesmo tempo, fatores como a migração do mercado informal, a possível ampliação do acesso pelo SUS e o desenvolvimento de medicamentos orais podem ampliar ainda mais o potencial do segmento ao longo da próxima década.

Para os pacientes, a principal consequência é positiva: tratamentos que antes eram restritos a uma parcela menor da população passam a se tornar financeiramente mais acessíveis, consolidando uma nova etapa no mercado brasileiro de medicamentos à base de GLP-1.

Conclusão

O mercado brasileiro de medicamentos GLP-1 vive um momento de transformação impulsionado pelo fim da patente do Ozempic e pela chegada de novos concorrentes. A redução dos preços deve ampliar o acesso aos tratamentos para diabetes e obesidade, ao mesmo tempo em que intensifica a disputa entre as farmacêuticas e pressiona as margens de lucro. Nos próximos anos, fatores como a expansão dos similares, a possível incorporação pelo SUS e o avanço dos medicamentos orais devem continuar redesenhando o setor e consolidando um mercado mais competitivo e acessível para os brasileiros.

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

Melissa Barbosa

Autor

Melissa Barbosa

Melissa Barbosa é Redatora SEO e Designer no portal Seu Crédito Digital. Estudante de Jornalismo, possui sólida experiência em Marketing de Conteúdo, com foco em estratégias de SEO, comunicação digital e identidade visual. Apaixonada pelo universo da informação e da criatividade, une técnica e sensibilidade para transformar dados e tendências em conteúdos relevantes, que ajudam o público a entender melhor o cenário econômico, os benefícios sociais e os serviços digitais que impactam o dia a dia do brasileiro.

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