Em pouco mais de um ano de governo, Javier Milei conseguiu reduzir a inflação de três dígitos na Argentina, implementando um ajuste fiscal rápido e agressivo. O resultado impressiona pela velocidade, mas levanta dúvidas sobre a sustentabilidade política e social dessa estratégia.
Para o economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central do Brasil e sócio-fundador da Gávea Investimentos, o caso argentino traz lições importantes para o Brasil, que, segundo ele, ainda “brinca com fogo” ao adiar reformas estruturais e conviver com juros persistentemente elevados.
As declarações foram feitas durante participação no podcast Outliers, produzido pelo InfoMoney e apresentado por Clara Sodré e Fabiano Cintra, ambos da XP Investimentos.
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Milei e o ajuste fiscal imediato

Como foi feito o corte de gastos
Ao assumir a presidência em dezembro de 2023, Javier Milei prometeu aplicar um choque de austeridade para enfrentar a hiperinflação que corroía a economia argentina. Diferente de seus antecessores, o economista libertário optou por ajustes imediatos, sem escalonamento ou medidas graduais.
- Redução de subsídios a setores como energia e transporte.
- Corte drástico de gastos públicos, incluindo ministérios e estatais.
- Congelamento de contratações e revisão de benefícios sociais.
- Fortalecimento do superávit fiscal como meta prioritária.
Resultado inicial: inflação em queda
A inflação, que superava os três dígitos anuais, começou a mostrar sinais de retração já nos primeiros meses. Esse movimento trouxe alívio temporário ao mercado e credibilidade às promessas de Milei.
Segundo Fraga, o impacto foi “impressionante”, principalmente porque o presidente cumpriu imediatamente o que havia prometido em campanha:
“O que Milei fez foi muito impressionante, porque ele fez o ajuste de fato. Não prometeu para daqui a quatro anos. Ele foi lá e fez”, afirmou.
As fragilidades do modelo argentino
Sustentabilidade política
Apesar do êxito inicial, a estratégia enfrenta riscos. Milei governa com uma base parlamentar limitada e enfrenta forte resistência de setores sociais e políticos.
Para Armínio Fraga, esse é o maior desafio:
“Não tem nada que seja blindado se o mundo político não se organizar e não se comportar”, disse, apontando que a instabilidade política pode comprometer os ganhos econômicos.
Medidas “toscas” em alguns pontos
Fraga reconheceu os méritos do plano, mas destacou limitações:
“Em alguns aspectos, é bem fundamentada, mas em outros é meio tosca. Ele sabe disso.”
As críticas refletem a visão de que, embora o ajuste tenha sido eficiente no curto prazo, ele pode se tornar insustentável se não houver reformas estruturais duradouras e apoio político.
Lições para o Brasil
O risco de “brincar com fogo”
Na avaliação de Armínio Fraga, o Brasil corre riscos ao adiar reformas fiscais e estruturais e se apoiar em juros elevados como forma de equilibrar a economia:
“O Brasil segue brincando com fogo, convivendo com juros persistentemente altos e adiando reformas necessárias.”
Reformas estruturais como prioridade
Para o economista, o país precisa enfrentar debates sobre:
- Reforma administrativa, para melhorar eficiência do gasto público.
- Simplificação tributária, garantindo competitividade.
- Controle das despesas obrigatórias, que comprimem o orçamento.
A ausência dessas medidas, segundo ele, gera dependência excessiva da política monetária, que, isolada, não resolve os problemas estruturais.
A pressão sobre bancos centrais
Interferência política crescente
Armínio Fraga também comentou sobre a crescente interferência política em bancos centrais ao redor do mundo. Citou o exemplo dos Estados Unidos, onde Donald Trump chegou a pressionar publicamente o Federal Reserve para cortar juros e até ameaçou dirigentes, como Lisa Cook.
Perigo do populismo econômico
Segundo Fraga, é comum que políticos populistas usem o discurso de que metas de inflação já foram atingidas para justificar políticas expansionistas arriscadas.
“É muito fácil, sobretudo para um político com veia populista, dizer que as metas de inflação já são um dado e que agora pode aproveitar um pouco. Só que isso é perigoso.”
Limites do papel dos bancos centrais
Fraga defendeu que a crença de que bancos centrais podem resolver todos os problemas é equivocada e perigosa. Para ele, a atuação dessas instituições depende diretamente da política fiscal:
“O banco central é tão bom quanto a sua política fiscal. Cortar juros sem contrapartida pode até parecer uma economia imediata, mas, no fim, gera prêmio de risco e taxas mais altas.”
Milei, Brasil e o cenário global

A experiência argentina como “alerta”
O caso Milei serve de alerta para o Brasil: é possível promover mudanças rápidas, mas o preço político e social pode ser alto. No caso argentino, protestos, paralisações e perda de apoio popular já desafiam a governabilidade.
Brasil entre cautela e urgência
No Brasil, as reformas são discutidas há anos, mas avançam lentamente. O risco, segundo especialistas, é que o país permaneça preso a juros elevados e enfrente dificuldades fiscais crescentes sem enfrentar as raízes do problema.
Desafio global da inflação
Milei, Brasil e outros países compartilham um mesmo desafio: controlar a inflação em um ambiente global marcado por volatilidade, tensões geopolíticas e custos fiscais elevados.
Considerações finais
A estratégia de Javier Milei na Argentina é vista por muitos como um experimento radical de austeridade. O corte imediato de gastos trouxe resultados rápidos na inflação, mas levanta questionamentos sobre sua sustentabilidade política e social.
Para Armínio Fraga, a experiência argentina deixa uma lição clara ao Brasil: ajustes precisam ser feitos, cedo ou tarde, e adiar reformas estruturais só aumenta o risco de crises futuras.
No cenário global, o alerta é ainda maior: bancos centrais não podem carregar sozinhos o peso da estabilização econômica. Sem políticas fiscais responsáveis, qualquer conquista monetária será frágil e temporária.
