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Mineração de Bitcoin pode ser a salvação das geradoras de energia no Brasil? Especialistas e empresas analisam cenários

Geradoras de energia no Brasil estudam projetos de mineração de Bitcoin para reduzir perdas bilionárias causadas pelo excesso de geração e falta de demanda.

Tainara FerreiraPor Tainara Ferreira6 min de leitura
Mineradoras de Bitcoin

O setor elétrico brasileiro, especialmente voltado para fontes renováveis, enfrenta um paradoxo: ao mesmo tempo em que o país possui uma das maiores capacidades de geração eólica e solar do mundo, milhares de megawatts deixam de ser aproveitados devido a cortes de produção impostos pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Esse fenômeno, conhecido como “curtailment”, representa perdas financeiras bilionárias para empresas do setor. Para enfrentar esse desafio, algumas das principais geradoras de energia do país estão considerando uma alternativa ousada: usar a mineração de Bitcoin como solução para absorver a energia excedente.

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Como funciona a mineração de Bitcoin?

A base da atividade

A mineração de Bitcoin é o processo pelo qual computadores especializados (ASICs) resolvem cálculos matemáticos complexos para validar transações na rede da criptomoeda.

Consumo intensivo de energia

Essa atividade é notoriamente intensiva em consumo energético, o que historicamente gerou críticas ambientais. Porém, no contexto brasileiro, ela surge como aliada de geradoras renováveis, justamente porque pode operar sob demanda, utilizando energia excedente.

Flexibilidade como vantagem

Diferentemente de outros consumidores industriais, os mineradores podem ajustar sua operação de forma rápida — ligando ou desligando equipamentos de acordo com a disponibilidade de energia. Isso torna a atividade altamente compatível com o cenário de intermitência e sobra de geração renovável.

Geradoras brasileiras interessadas na mineração de Bitcoin

Bitcoin
Imagem: Freepik

Empresas que já estudam projetos

De acordo com informações confirmadas por executivos e fontes ligadas ao setor, algumas das companhias que avaliam seriamente a adoção desse modelo incluem:

  • Casa dos Ventos, em parceria com a francesa TotalEnergies;
  • Atlas Renewable Energy, ligada à gestora GIP;
  • Renova Energia, que estuda implantações em seu complexo eólico Alto Sertão III.

Outras empresas em negociação

Além dessas, Engie Brasil e Auren Energia também iniciaram conversas preliminares com mineradoras e fabricantes de equipamentos, ainda que sem confirmação oficial de projetos.

Modelos de negócio em avaliação

Venda direta de energia

O formato mais simples seria a venda direta de energia excedente das usinas para operadores de mineração.

Parceria com data centers

Outra alternativa envolve data centers que hospedam clientes mineradores. Nesse caso, a geradora fornece energia estável e próxima à fonte, reduzindo custos de transmissão.

Joint ventures e sociedade

Há também discussões sobre geradoras se tornarem sócias diretas em operações de mineração, compartilhando riscos e lucros.

O peso dos cortes no sistema elétrico brasileiro

O que é o curtailment?

O termo curtailment se refere à interrupção ou redução da geração de energia elétrica por ordem do sistema, mesmo quando há capacidade instalada disponível.

Impactos financeiros

Segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), os cortes superam 40% da produção potencial em alguns parques, especialmente no Nordeste.

Somente entre meados de 2023 e julho de 2024, as perdas acumuladas pelas usinas eólicas chegaram a R$ 4 bilhões.

Exemplos práticos

Na Renova Energia, a estratégia é aproveitar estruturas ociosas do Alto Sertão III, um complexo eólico na Bahia, instalando data centers convencionais ou de mineração de Bitcoin para absorver o excedente local.

Argumentos a favor da mineração de Bitcoin como solução energética

1. Redução de desperdício

O maior benefício seria aproveitar energia que hoje é descartada, transformando prejuízo em receita.

2. Estabilidade para investidores

A possibilidade de firmar contratos com mineradoras poderia dar previsibilidade financeira para geradoras renováveis.

3. Incentivo à expansão renovável

Se houver uma demanda garantida para absorver excedentes, empresas podem se sentir mais seguras para investir em novos projetos.

4. Integração com economia digital

O Brasil poderia se posicionar como um hub global de mineração verde, aproveitando sua matriz energética majoritariamente limpa.

Obstáculos e riscos do modelo

Custos de importação

O alto preço e impostos sobre equipamentos de mineração (ASICs) dificultam a viabilidade financeira dos projetos.

Incerteza sobre cortes futuros

Especialistas destacam que é difícil prever o nível de curtailment nos próximos anos, o que torna arriscado investir em estruturas caras.

Declarações do setor

O CEO da CPFL Energia, Gustavo Estrella, resumiu o dilema:

“É uma solução criativa, mas de altíssimo risco. Não acredito que vá acontecer em escala suficiente para mudar o cenário.”

Volatilidade do Bitcoin

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Como o ativo é altamente volátil, sua queda de preço pode inviabilizar a operação em determinados momentos.

Casos internacionais de integração entre energia e mineração

Estados Unidos

Nos EUA, mineradoras já firmam contratos com geradoras renováveis para operar em períodos de sobra, ajudando a estabilizar a rede.

China

Apesar da proibição oficial, durante anos a China foi líder na mineração justamente por aproveitar energia excedente de hidrelétricas em regiões remotas.

América Latina

Países como Paraguai e Argentina também estudam atrair mineradores para aproveitar energia hidroelétrica excedente.

Potenciais impactos econômicos e ambientais

Benefícios econômicos

  • Aumento de receita para geradoras;
  • Atração de investimentos em infraestrutura digital;
  • Possível redução de tarifas, caso as perdas do setor sejam mitigadas.

Desafios ambientais

Embora o Brasil possua energia limpa, críticos temem que o avanço da mineração possa estimular novos projetos baseados em fósseis em outros países.

Oportunidade de liderança

Se regulamentado com critérios ambientais, o Brasil poderia se tornar referência em mineração sustentável de Bitcoin.

Perspectivas para o setor elétrico e cripto no Brasil

Caminho regulatório

Para que esses projetos avancem, será necessário:

  • Definir regras de tributação específicas para a mineração de Bitcoin;
  • Facilitar importação de equipamentos;
  • Garantir contratos claros de fornecimento energético.

Integração com políticas públicas

Se bem planejado, o modelo pode se alinhar às metas de expansão de energias renováveis e inovação tecnológica do país.

Conclusão: solução promissora ou aposta arriscada?

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Imagem: Freepik

A ideia de utilizar a mineração de Bitcoin como saída para o problema dos cortes de geração elétrica no Brasil divide opiniões.

De um lado, há entusiasmo de geradoras que veem na atividade uma forma de recuperar perdas bilionárias e dar utilidade à energia excedente. De outro, persistem dúvidas sobre a viabilidade financeira, riscos regulatórios e volatilidade do mercado cripto.

O fato é que o debate está aberto e deve ganhar força nos próximos anos, à medida que o Brasil busca soluções criativas para equilibrar sua matriz renovável e se inserir de forma estratégica na economia digital global.

Tainara Ferreira

Autor

Tainara Ferreira

Tainara Ferreira atua como redatora no portal Seu Crédito Digital, contribuindo com pautas que facilitam o entendimento de políticas públicas, programas sociais, economia do dia a dia e direitos dos cidadãos. Com olhar atento aos temas que impactam diretamente a vida da população brasileira, tem como missão traduzir informações complexas em conteúdos claros, úteis e acessíveis.

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