Com a promessa de transformar o cenário do fast food brasileiro, a rede chinesa Mixue Ice Cream & Tea prepara sua estreia no país com um investimento bilionário. A chegada da marca ocorre em meio a um pacote de acordos firmados entre Brasil e China, marcando um novo capítulo na relação econômica entre os dois países.
Rede chinesa de fast food, maior que McDonald’s e Starbucks, prepara sua estreia no mercado brasileiro
Rede chinesa de fast food Mixue estreia no Brasil com R$ 3,2 bi e promete 25 mil empregos até 2030. Saiba mais sobre a novidade!
Com um modelo de negócios agressivo, estética marcante e produtos de baixo custo, a empresa deve abrir milhares de vagas até o final da década, mas carrega também polêmicas em seu histórico.
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Brasil na mira da expansão asiática

Durante visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China, no início de maio, diversas empresas chinesas anunciaram aportes bilionários no Brasil. A agenda contou com a participação de ministros, parlamentares, autoridades e aproximadamente 200 empresários brasileiros.
Entre os principais anúncios, destacou-se a entrada da rede Mixue no mercado brasileiro, com investimento de R$ 3,2 bilhões e previsão de até 25 mil empregos criados até 2030.
O encontro entre Lula e o presidente chinês, Xi Jinping, simbolizou a intensificação da cooperação econômica. Além da Mixue, também manifestaram interesse em expandir suas operações no Brasil empresas como a montadora GWM, a gigante energética CGN e o app de entregas Keeta, da Meituan.
Da raspadinha ao império: como nasceu a Mixue
A trajetória da Mixue começou de forma modesta. Zhang Hongchao, então estudante universitário de Finanças na província de Henan, decidiu montar uma banca de doces nos anos 1990. A primeira tentativa não teve êxito, mas em 1997 ele fundou a barraca de raspadinhas Mixue Bingcheng, que viria a dar nome ao império. Apostando em preços acessíveis e sabor marcante, o negócio evoluiu rapidamente para um modelo de franquias especializado em sorvetes, bubble teas, smoothies e cafés.
Hoje, a Mixue é referência na China como uma marca popular entre o público jovem, com identidade visual chamativa, um mascote simpático, o Snow King, e uma trilha sonora repetitiva que virou assinatura da rede.
Uma rede maior que McDonald’s e Starbucks
Com mais de 45 mil lojas em operação na China e em outros 11 países da Ásia, como Tailândia e Singapura, a Mixue já ultrapassou gigantes como McDonald’s, Starbucks e Subway em número de unidades. A expansão agressiva é resultado de um modelo de negócios baseado em franquias de baixo custo e forte centralização na distribuição de insumos.
Diferente de outras redes globais, a Mixue atua mais como fornecedora de ingredientes e equipamentos do que como operadora direta das lojas. Essa estrutura permite expansão rápida, mas levanta dúvidas sobre a manutenção da qualidade dos produtos e serviços.
Estratégia baseada em franquias acessíveis
A chave para o crescimento acelerado da Mixue está no modelo de franquia. A empresa cobra taxas significativamente menores que a média do mercado e obtém lucros principalmente com a venda de matéria-prima e equipamentos aos franqueados.
O cardápio é enxuto e os preços giram em torno de R$ 4 a R$ 5 por produto, o que garante apelo entre jovens consumidores. A proposta da marca é democratizar o acesso a bebidas e sobremesas geladas. Porém, o modelo tem seu lado sombrio.
Em março de 2023, uma investigação conduzida pelo jornal The Beijing News denunciou práticas irregulares em unidades da Mixue na cidade de Nanquim. Foram encontrados ingredientes vencidos, etiquetas de validade adulteradas e contratação de funcionários sem registro formal. Após a repercussão, autoridades locais inspecionaram as lojas e exigiram a correção das irregularidades.
Especialistas afirmam que o foco em crescimento rápido pode comprometer o controle de qualidade. “O modelo baseado em franquias e baixos preços pressiona os franqueados a cortarem custos, o que muitas vezes resulta em práticas fora dos padrões”, apontou a publicação chinesa.
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Resultados financeiros expressivos e IPO de sucesso
Apesar das controvérsias, o desempenho financeiro da Mixue é notável. Em 2022, a empresa registrou lucro líquido superior a US$ 300 milhões. A margem elevada, mesmo com produtos baratos, se explica pela escala de operação e eficiência logística.
Em março de 2023, a Mixue lançou ações na Bolsa de Valores de Hong Kong, arrecadando cerca de US$ 444 milhões — o maior IPO do ano na cidade. As ações da empresa subiram mais de 40% logo na estreia, refletindo a confiança do mercado em sua capacidade de expansão.
Acusações de trabalho infantil

Além de problemas sanitários, a rede Mixue já foi alvo de sanções por violações trabalhistas. Em abril de 2022, uma loja da franquia em Tiantai foi multada por empregar uma menina de 15 anos, contrariando a legislação chinesa, que proíbe o trabalho de menores de 16 anos. Meses depois, outra unidade em Liaocheng recebeu multa semelhante pela mesma infração.
Esses episódios reforçam o debate sobre os limites do modelo de expansão acelerada baseado em franquias independentes, especialmente em mercados que exigem rigor em normas trabalhistas e sanitárias.
Desafios e expectativas para o mercado brasileiro
A chegada da Mixue ao Brasil é vista com entusiasmo, mas também com cautela. O país é um mercado competitivo no setor de alimentação e exige adaptações culturais e operacionais. Marcas chinesas como a Seres, por exemplo, enfrentaram dificuldades e encerraram operações no Brasil em pouco tempo. Já outras, como a BYD, conseguiram se firmar com estratégias bem definidas.
Para a Mixue, o desafio será replicar o sucesso asiático sem repetir os erros cometidos em casa. A promessa de investimento robusto e geração de empregos é atrativa, mas dependerá diretamente da aceitação do público brasileiro e do controle de qualidade nas unidades franqueadas.
