O Ministério de Minas e Energia (MME) abriu na terça-feira (24) consulta pública para discutir as novas regras de aplicação de descontos nas tarifas de uso das redes de transmissão e distribuição de energia elétrica. A proposta foi publicada no Diário Oficial da União e faz parte da regulamentação da Medida Provisória nº 1.300, que trata da reforma do setor elétrico assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em maio deste ano.
Atenção: nova tarifa social pode multar em até 3 vezes o valor da conta
MME abre consulta pública sobre regras para descontos nas tarifas de energia. Proposta prevê isenção para famílias do CadÚnico.
Com início de vigência previsto para 5 de julho de 2025, a MP 1300 traz mudanças estruturais no setor elétrico nacional, incluindo a ampliação da Tarifa Social de Energia Elétrica, a abertura do mercado livre para pequenos consumidores e novos incentivos para contratos bilaterais de energia. A norma, no entanto, ainda precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional para ser transformada em lei.
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O que está em discussão na consulta pública?
Descontos nas tarifas de uso de redes
A proposta do MME busca regulamentar os critérios para aplicação de descontos nas chamadas TUST e TUSD, siglas para Tarifa de Uso do Sistema de Transmissão e Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição. Essas tarifas são cobradas de empresas que usam as redes de energia para entregar eletricidade ao consumidor final — e, por tabela, impactam diretamente o valor da conta de luz paga pela população.
De acordo com o texto da consulta pública, o objetivo é permitir condições mais vantajosas para grupos específicos de consumidores, especialmente os de baixa renda e inscritos no Cadastro Único (CadÚnico), que passarão a ter isenção total ou descontos proporcionais na conta de luz.
Critérios de isenção e desconto parcial
A proposta estabelece os seguintes critérios de elegibilidade:
- Isenção total da conta de luz para famílias:
- Inscritas no CadÚnico;
- Com consumo mensal de até 80 kWh;
- Desconto parcial para famílias:
- Com renda de até 1 salário mínimo per capita;
- Que consomem até 120 kWh por mês;
- O desconto será aplicado sobre a CDE (Conta de Desenvolvimento Energético), um dos principais encargos setoriais repassados à conta de luz.
O governo estima que as medidas beneficiarão cerca de 110 milhões de pessoas: 60 milhões com isenção total e 50 milhões com descontos parciais, tornando-se a maior ampliação da tarifa social já realizada no país.
Contratos bilaterais e registro na CCEE
Nova regra para incentivos
Outro ponto importante da regulamentação é o que trata sobre a validação dos contratos bilaterais na CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica). Segundo a proposta, os descontos só serão concedidos aos contratos que forem formalmente registrados e validados na CCEE até o dia 31 de dezembro de 2025.
Se o contrato não for registrado dentro do prazo, será considerado convencional e não terá direito a incentivos tarifários. A medida visa evitar fraudes, garantir rastreabilidade e dar maior transparência às transações no setor elétrico.
Estímulo ao mercado livre de energia
Esse movimento também tem como pano de fundo a abertura gradual do mercado livre de energia para consumidores de baixa tensão, como residências e pequenos comércios, um dos principais pilares da MP 1300. Até então, apenas consumidores de média e alta tensão — geralmente empresas — podiam negociar diretamente a compra de energia com fornecedores no mercado livre.
A expectativa é que a regulamentação desses contratos com desconto incentive a competição no setor elétrico, reduza preços no longo prazo e proporcione mais autonomia ao consumidor final.
Encargo extraordinário por desvios de energia

Multa por diferença entre contratado e consumido
O texto da consulta pública também propõe a criação de um encargo financeiro extraordinário para compensar desvios entre o volume de energia contratado e o efetivamente consumido ou gerado. A ideia é evitar desequilíbrios operacionais no sistema e distorções nos contratos bilaterais.
O valor da multa será equivalente a três vezes o custo das cotas da CDE e será dividido igualmente entre as partes do contrato: 50% para o consumidor e 50% para o gerador ou comercializador de energia. A medida, segundo o MME, tem o intuito de responsabilizar ambas as partes pela previsibilidade e eficiência do consumo e geração contratados.
Impacto no planejamento do setor
Com a imposição desse encargo, o governo espera reduzir as chamadas sobras e déficits energéticos que podem comprometer a estabilidade da rede elétrica nacional. A nova regra também tem impacto direto na previsão de receita das distribuidoras e transmissoras, que dependem da regularidade do fluxo de energia contratado para manter seus planejamentos operacionais.
Ampliação da tarifa social: um dos pilares da MP 1300
Histórico e atualizações
A Tarifa Social de Energia Elétrica já existe no Brasil desde 2002 e garante descontos progressivos na conta de luz para famílias de baixa renda. Com a MP 1300, o governo propõe uma ampliação significativa desse benefício, incluindo:
- Isenção total até 80 kWh/mês;
- Faixas intermediárias com desconto até 120 kWh;
- Maior integração com o CadÚnico;
- Automatização do processo de concessão, evitando que famílias elegíveis fiquem de fora.
Justificativa social e econômica
Segundo o MME, o custo do programa é compensado pelos benefícios sociais e econômicos da medida, entre eles:
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- Redução da inadimplência;
- Diminuição de cortes por falta de pagamento;
- Aumento da regularização do fornecimento em áreas vulneráveis;
- Estímulo ao consumo consciente de energia;
- Geração de renda indireta ao liberar recursos para outras necessidades básicas.
O custo do benefício será financiado pela CDE, que é rateada entre todos os consumidores do país, mas com peso maior sobre consumidores de alta renda e empresas de grande porte.
Contexto político e desafios para aprovação da MP
Congresso ainda precisa aprovar a Medida Provisória
A MP 1300 entra em vigor em 5 de julho de 2025, mas precisa ser votada e aprovada pelo Congresso Nacional em até 120 dias para ser convertida em lei. O tema é considerado sensível, pois envolve subsídios, mudanças contratuais e redistribuição de encargos no setor elétrico.
A proposta enfrenta resistência de setores do mercado e da oposição, que argumentam que os incentivos propostos podem gerar aumento de tarifas para consumidores de maior consumo e pressionar o equilíbrio financeiro das distribuidoras.
Por outro lado, entidades da sociedade civil e especialistas em energia defendem que o modelo atual precisa ser modernizado, inclusive para garantir acesso universal à energia em condições justas.
Consulta pública como ferramenta de diálogo
A consulta pública aberta pelo MME permite que empresas, consumidores, entidades setoriais e cidadãos em geral enviem sugestões até o dia 22 de julho de 2025. A participação pode ser feita por meio da plataforma oficial do governo federal, e todas as contribuições serão avaliadas para eventual incorporação ao texto final da regulamentação.
O ministério aposta na transparência e no diálogo com os agentes do setor para construir um modelo sustentável e equilibrado.
O que dizem especialistas do setor?

Avaliação técnica é positiva, mas há ressalvas
Especialistas consultados por veículos setoriais veem avanços na proposta, especialmente na ampliação da tarifa social e na tentativa de tornar o setor mais eficiente. No entanto, destacam alguns pontos de atenção:
- A necessidade de controle rigoroso sobre os critérios de elegibilidade;
- O risco de aumento indireto nas tarifas para os demais consumidores;
- A complexidade da implementação técnica dos encargos por desvios de energia;
- O desafio de educar pequenos consumidores sobre o funcionamento do mercado livre.
A principal recomendação é que o governo mantenha transparência na definição dos custos e na execução das medidas compensatórias, evitando sobrecarga desproporcional para qualquer faixa de consumidores.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
