O setor energético brasileiro passou por uma mudança relevante com a decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em 25 de junho de 2025.
Biodiesel enfrenta dificuldades, diz Santander; uma ação lidera após alteração na mistura
Santander vê momento difícil com aumento da mistura de biodiesel. Para 3tentos, cenário é positivo; distribuidoras enfrentam margens.
O órgão aprovou o aumento da mistura obrigatória de biocombustíveis aos combustíveis fósseis, com impacto direto na composição do diesel e da gasolina vendida no país.
A partir de agosto de 2025, a mistura de biodiesel no diesel B sobe de 14% para 15%, enquanto o etanol anidro na gasolina C passa de 27% para 30%.
A medida faz parte de uma estratégia mais ampla do governo federal para incentivar fontes de energia renovável, reduzir a emissão de gases de efeito estufa e promover maior integração entre o agronegócio e o setor energético.
No entanto, a reação do mercado foi mista: enquanto algumas empresas são vistas como favorecidas pela nova política, outras podem enfrentar dificuldades.
Segundo análise do Santander, o impacto será desigual entre os players do setor, com distribuidoras como Vibra, Ultrapar e Raízen possivelmente enfrentando pressão em suas margens, ao passo que companhias integradas, como a 3tentos, devem se beneficiar do novo cenário.
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Santander vê momento desfavorável para distribuidoras

Em relatório divulgado no mesmo dia da decisão, o banco Santander avaliou que o aumento da mistura de biocombustíveis pode representar um risco para os resultados financeiros das principais distribuidoras de combustíveis do país.
A análise foca especialmente em três empresas listadas na bolsa: Vibra Energia (VBBR3), Ultrapar (UGPA3) e Raízen (RAIZ4).
Segundo os analistas Rodrigo Almeida, Guilherme Palhares e Eduardo Muniz, o aumento da mistura de biodiesel vem em um momento delicado e pode comprimir as margens das distribuidoras, dificultando o repasse de custos ao consumidor final.
Problemas de fiscalização e alta de custos
O banco destaca dois pontos críticos:
ANP suspende fiscalização
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) suspendeu, para o mês de julho, seu programa de verificação da qualidade dos combustíveis.
Isso cria um cenário em que empresas que não cumprem integralmente a mistura obrigatória podem obter vantagem competitiva injusta frente às que seguem a legislação à risca.
Prêmios do biodiesel em alta
Outro ponto levantado pelo Santander é o aumento no preço do biodiesel em relação ao diesel fóssil, conhecido como “prêmio”. Essa elevação pressiona os custos das distribuidoras, que, sem poder repassar esse acréscimo aos consumidores, podem ver suas margens operacionais reduzidas significativamente.
Etanol anidro: medida já esperada, mas efeitos incertos
No caso da gasolina, o aumento da proporção de etanol anidro para 30% já era amplamente esperado pelo mercado, principalmente em função do crescimento na produção de etanol de milho, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Sudeste.
Competitividade da gasolina deve melhorar
O banco observa que essa mudança pode tornar a gasolina mais competitiva frente ao etanol hidratado nas bombas, favorecendo os consumidores e possivelmente aumentando a demanda pela gasolina.
Contudo, os analistas alertam que os benefícios de custo poderão ser anulados por uma possível queda nos preços da gasolina, o que neutralizaria qualquer ganho para as distribuidoras.
3tentos: a grande beneficiada da mudança
Enquanto as grandes distribuidoras enfrentam um cenário desafiador, a 3tentos (TTEN3) desponta como uma das principais beneficiadas com o aumento da mistura de biodiesel.
A empresa é uma das poucas no setor que atua de forma integrada, desde a produção agrícola até a industrialização e comercialização de biocombustíveis.
Capacidade ociosa e vantagem estratégica
A capacidade ociosa da indústria de biodiesel está atualmente em torno de 25%, o que representa uma oportunidade para empresas como a 3tentos aproveitarem o aumento da demanda.
Segundo o Santander, o Brasil tem capacidade instalada para atingir uma mistura de até 18% sem precisar realizar grandes investimentos adicionais.
Além disso, a queda recente de 6% nos preços do biodiesel, ocorrida desde o adiamento anterior da medida, coloca a empresa em posição ainda mais estratégica.
Com preços mais baixos e aumento de demanda, a 3tentos pode aumentar sua margem operacional e aproveitar a recuperação nos preços no médio prazo.
Integração com o setor agrícola fortalece modelo de negócios
A companhia também se destaca por ter forte presença na cadeia produtiva da soja, o que reduz os custos de matéria-prima para a produção de biodiesel.
A recente redução na diferença de preços entre o óleo de soja e o biodiesel afetou negativamente empresas exclusivamente refinadoras, mas favoreceu players integrados como a 3tentos.
Projeções do Santander para as ações
A seguir, o resumo das recomendações e preços-alvo do Santander para as quatro ações analisadas:
Vibra Energia (VBBR3)
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- Recomendação: Neutra
- Preço-alvo: R$ 20,50
- Potencial de queda: -5,96%
Ultrapar (UGPA3)
- Recomendação: Neutra
- Preço-alvo: R$ 21,00
- Potencial de alta: 20,69%
Raízen (RAIZ4)
- Recomendação: Neutra
- Preço-alvo: R$ 1,90
- Potencial de alta: 15,85%
3tentos (TTEN3)
- Recomendação: Neutra
- Preço-alvo: R$ 18,00
- Potencial de alta: 23,46%
Apesar da perspectiva positiva para a 3tentos, o Santander mantém recomendações neutras para todas as ações, refletindo a cautela do banco diante das incertezas regulatórias e operacionais do setor.
Desafios e oportunidades para o mercado de biocombustíveis

O papel do “Combustível do Futuro”
A mudança nas proporções de mistura integra a agenda do programa “Combustível do Futuro”, iniciativa que busca modernizar o setor de transporte no país por meio de políticas sustentáveis. A proposta é reduzir a emissão de carbono e aumentar a presença de biocombustíveis na matriz energética brasileira.
Setor ainda enfrenta entraves
Mesmo com os avanços, o setor de biocombustíveis ainda enfrenta importantes desafios estruturais, como:
- Falta de fiscalização contínua;
- Insegurança regulatória;
- Volatilidade nos preços de grãos como a soja;
- Capacidade limitada de produção em algumas regiões.
Crescimento do etanol de milho deve aliviar pressão
O avanço do etanol de milho tem sido uma resposta eficaz à sazonalidade da cana-de-açúcar. Com mais usinas em operação e aumento da produtividade, espera-se que esse tipo de etanol ajude a estabilizar a oferta e os preços ao longo do ano, reduzindo riscos para o setor.
Conclusão: quem está preparado pode colher frutos
A elevação das misturas obrigatórias de biodiesel e etanol representa um passo importante na transição energética brasileira, mas chega em um momento de alta complexidade para os principais agentes do mercado.
Para distribuidoras como Vibra, Ultrapar e Raízen, a medida traz riscos operacionais e financeiros. Por outro lado, empresas como a 3tentos, que possuem modelo integrado e diversificado, se colocam em posição privilegiada para capturar os benefícios do novo cenário.
O investidor atento deverá acompanhar não apenas os desdobramentos regulatórios, mas também a capacidade das empresas de adaptar suas operações e preservar suas margens. No jogo da transição energética, não basta estar no setor certo: é preciso estar preparado para o momento certo.
