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Sistema de pagamento do Brics ganha força em negociações entre países do bloco

Brics avançam em negociações para criar sistema de pagamento e revisar ARC. Interoperabilidade e uso de moedas locais ganham destaque.

Bianca BorgesPor Bianca Borges6 min de leitura
Brasil brics

As negociações para a criação de um sistema de pagamento próprio entre os países do Brics ganharam impulso durante o encontro de ministros das Finanças e presidentes de Bancos Centrais do bloco, realizado no Rio de Janeiro.

A proposta busca reduzir a dependência do dólar norte-americano e promover o uso de moedas locais nas transações entre os membros.

O comunicado final da reunião apontou progressos significativos, embora ainda discretos, no desenvolvimento de um mecanismo de interoperabilidade entre os sistemas de pagamento dos países membros.

Apesar da ausência de detalhes técnicos no documento, os avanços são considerados fundamentais na construção de uma nova arquitetura financeira global multipolar.

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Sistema de pagamento do Brics: O que está em jogo?

bandeiras de países do BRICS.
Imagem: Oleg Elkov / shutterstock.com

Integração financeira sem o dólar

A proposta central do sistema próprio de pagamento do Brics é permitir transações transfronteiriças diretas entre as moedas locais dos países membros, eliminando a necessidade da conversão para o dólar.

Isso pode representar uma mudança estratégica nas finanças internacionais, ao reduzir a influência do sistema financeiro ocidental sobre as economias emergentes.

O bloco, que representa atualmente 39% do PIB mundial e quase metade da população global, vê no projeto um instrumento de soberania econômica. Além disso, um sistema próprio pode baratear transações, reduzir riscos cambiais e ampliar o comércio entre os países do grupo.

Progresso técnico e institucional

Segundo o comunicado, houve progresso na identificação de caminhos para a interoperabilidade dos sistemas de pagamentos.

Isso significa alinhar protocolos tecnológicos, regulatórios e de segurança para permitir a conexão entre bancos centrais e instituições financeiras dos 11 membros permanentes: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia.

Embora não haja ainda um sistema em operação, o relatório “Sistema de Pagamentos Transfronteiriços do Brics”, elaborado pelo Banco Central do Brasil, fornece a base conceitual e operacional para os próximos passos.

Revisão do Acordo de Reservas Contingentes

Expansão de moedas e inclusão de novos membros

Outro avanço anunciado durante o encontro foi a revisão do Acordo de Reservas Contingentes (ARC), mecanismo criado em 2014 para apoio mútuo entre os países do Brics em situações de instabilidade cambial ou crises financeiras.

A principal mudança será a inclusão de novas moedas no ARC, ampliando sua flexibilidade. A meta é tornar o mecanismo mais eficaz diante das novas configurações do bloco, que incorporou novos membros em 2024 e deve formalizar a entrada de outros em 2026.

A revisão deve considerar também a integração de moedas de países como Irã, Arábia Saudita e Indonésia, além da definição de critérios para futuras adesões.

Espera-se uma nova rodada de negociações no segundo semestre de 2025, antes da passagem da presidência rotativa do Brics do Brasil para a Índia.

Linha de garantia multilateral para a transição ecológica

Novo Banco de Desenvolvimento e capital verde

No âmbito ambiental, os ministros anunciaram a criação de uma linha de garantia multilateral para financiar projetos de transição ecológica nos países do Sul Global.

A iniciativa será conduzida pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) — o chamado “Banco dos Brics” — sem a necessidade de novos aportes financeiros dos países membros.

O objetivo é reduzir o risco dos financiamentos verdes por meio da utilização de garantias que cubram inadimplências, tornando os investimentos mais atrativos para o setor privado.

Uma iniciativa piloto será desenvolvida ainda em 2025, com os primeiros resultados sendo apresentados na Cúpula do Brics de 2026, prevista para acontecer na Índia.

Apelo ao financiamento climático internacional

O comunicado final do encontro também reforça a posição dos Brics na agenda de financiamento climático. O bloco defendeu um sistema de apoio mais justo, equitativo e acessível, voltado especialmente às nações em desenvolvimento.

Os líderes do grupo pediram que instituições financeiras internacionais ampliem o suporte para a adaptação e mitigação dos efeitos climáticos, de forma a criar um ambiente que incentive a participação do setor privado.

O papel do Brasil nas negociações

Presidência do Brics em 2025

Sob a presidência do Brasil, a 17ª Reunião de Cúpula do Brics tem caráter estratégico.

O governo brasileiro, representado pelo ministro da Fazenda Fernando Haddad e pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tem promovido a agenda de fortalecimento do bloco como alternativa às instituições ocidentais.

A atuação do Brasil tem buscado equilibrar os interesses dos membros fundadores com os dos países recentemente incorporados, ampliando a influência global do bloco sem perder sua identidade como aliança de economias emergentes.

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Comércio com países do Brics

Atualmente, os países do Brics representam 36% das exportações brasileiras e 34% das importações, tornando-se parceiros comerciais centrais para o Brasil.

A adoção de um sistema de pagamento próprio pode aumentar a competitividade do país, eliminando custos com câmbio e promovendo maior estabilidade nas transações.

Desafios pela frente

Interoperabilidade e soberania monetária

Apesar dos avanços, desafios técnicos e políticos permanecem. Implementar um sistema de pagamento que funcione com múltiplas moedas nacionais, respeitando a soberania monetária de cada país, requer alta coordenação tecnológica e diplomática.

Além disso, a resistência de sistemas financeiros dominantes e a pressão geopolítica representam obstáculos adicionais. Os países do Brics terão que demonstrar coesão política e agilidade institucional para transformar as ideias em realidade.

Segurança cibernética e confiança

Outro ponto sensível é a segurança dos sistemas digitais envolvidos nas transações. A criação de um sistema próprio demanda altos níveis de proteção contra ataques cibernéticos, vazamentos de dados e fraudes.

A confiança entre os países do bloco, especialmente em um cenário global polarizado, será determinante para o sucesso do projeto.

Perspectivas para o futuro

Brasil
Imagem: rafapress / Shutterstock.com

Um novo capítulo na ordem financeira global?

Se bem-sucedido, o sistema próprio de pagamento do Brics pode representar um marco na descentralização da economia global. Mais do que um desafio técnico, trata-se de um projeto geopolítico e estratégico que busca redefinir os fluxos de poder financeiro no século XXI.

O segundo semestre de 2025 será decisivo para consolidar os avanços técnicos e políticos, com foco na interoperabilidade, na adoção de moedas alternativas no ARC e no lançamento da linha de garantia ecológica.

Enquanto a presidência brasileira chega à reta final, as decisões tomadas agora ecoarão nas próximas décadas, especialmente quando a Índia assumir a liderança em 2026.

Conclusão

O avanço nas negociações para a criação de um sistema próprio de pagamento entre os países do Brics reflete a crescente ambição do bloco em moldar a nova ordem financeira global.

Entre desafios técnicos, pressões geopolíticas e inovações institucionais, o Brics caminha para se tornar um ator decisivo no cenário internacional — com o Brasil no centro desta transformação histórica.

Bianca Borges

Autor

Bianca Borges

Bianca Borges é estudante de Publicidade e desenvolvedora em formação, com paixão por cultura pop, tecnologia e universos geek. Fã de Star Wars, DC Comics, RPG e The Walking Dead, ela traz sua visão criativa e analítica para o time do Seu Crédito Digital, colaborando na produção de conteúdos relevantes sobre consumo, serviços públicos e finanças do dia a dia. Com estilo descontraído e foco em clareza, Bianca ajuda leitores a entender temas complexos com leveza e precisão.

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