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Novo El Niño pode ser o mais intenso desde o século XIX, segundo projeções

Um El Niño de intensidade excepcional está ganhando força no Oceano Pacífico e poderá influenciar o clima mundial até 2027. Projeções internacionais indicam que

Bruna MachadoPor Bruna Machado··13 min de leitura
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Um El Niño de intensidade excepcional está ganhando força no Oceano Pacífico e poderá influenciar o clima mundial até 2027. Projeções internacionais indicam que o fenômeno tem possibilidade real de superar os maiores eventos registrados desde 1950.

O alerta ganhou repercussão após projeções do Met Office, serviço meteorológico do Reino Unido, apontarem um sinal de aquecimento do Pacífico de intensidade incomum. Outros centros também identificam um cenário preocupante.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, calcula uma probabilidade superior a 90% de um El Niño muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o início de 2027. Para o trimestre entre outubro e dezembro, o órgão estima 69% de chance de um evento considerado histórico.

Isso ainda não permite afirmar que este será, com certeza, o El Niño mais forte já medido. Os modelos trabalham com probabilidades e são atualizados à medida que novas informações sobre o oceano e a atmosfera se tornam disponíveis.

No Brasil, porém, a preparação já começou. Órgãos como INMET, INPE, Cemaden, ANA, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil acompanham os possíveis impactos, que incluem mais chuva no Sul, seca no centro-norte do país, ondas de calor e maior risco de incêndios.

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O El Niño já está acontecendo?

El Niño
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

Sim. As condições de El Niño foram confirmadas em junho de 2026, depois que cientistas observaram o aquecimento persistente das águas do Pacífico Equatorial e mudanças correspondentes na circulação da atmosfera.

Não basta o oceano ficar quente por alguns dias. Para caracterizar o fenômeno, os meteorologistas analisam se o aquecimento se mantém e se a atmosfera começa a responder.

Entre os sinais observados estão:

  • aumento da temperatura da superfície do Pacífico;
  • enfraquecimento dos ventos alísios;
  • deslocamento das áreas de formação de nuvens;
  • mudanças na pressão atmosférica;
  • acúmulo de água quente abaixo da superfície;
  • alteração dos padrões de chuva próximos à Linha do Equador.

A NOAA informou em seu boletim de 13 de agosto que as temperaturas da superfície do mar já estavam mais de 2°C acima da média em partes do Pacífico Equatorial oriental.

Na região Niño 3.4, uma das áreas mais utilizadas para acompanhar o fenômeno, a anomalia média de julho estava em 1,4°C. Em uma área mais próxima da costa sul-americana, chamada Niño 1+2, o desvio chegava a 2,9°C. Os números constam na discussão oficial sobre o El Niño publicada pela NOAA.

O Instituto Nacional de Meteorologia também confirma que o El Niño está presente e deve persistir pelo menos até o fim do verão de 2026/2027.

Por que este El Niño pode bater recorde?

O que chama atenção não é apenas o aquecimento já observado na superfície. Há uma grande quantidade de água anormalmente quente nas camadas profundas do Pacífico.

Essa reserva de calor funciona como combustível. Conforme a água quente sobe e se espalha, ela pode sustentar a intensificação do fenômeno nos próximos meses.

Modelos internacionais projetam que a anomalia da temperatura do mar poderá ultrapassar níveis observados nos eventos mais intensos das últimas décadas.

A Organização Meteorológica Mundial informou que as projeções combinadas dos principais centros climáticos apontam anomalias sazonais superiores a 2,9°C em áreas de monitoramento do Pacífico. A entidade classifica o El Niño como forte e prevê sua intensificação entre agosto e outubro. O alerta foi publicado pela Organização Meteorológica Mundial.

A NOAA utiliza um indicador chamado RONI, sigla em inglês para Índice Oceânico Niño Relativo. Ele compara o aquecimento do Pacífico Equatorial com o comportamento das águas tropicais ao redor.

Segundo o órgão, há 69% de probabilidade de esse índice alcançar pelo menos 2,5°C no trimestre de outubro a dezembro. Se isso acontecer, o evento superará os episódios anteriores na série considerada, iniciada em 1950.

Recorde ainda é uma projeção

O percentual de 69% indica uma possibilidade elevada, mas deixa espaço para outros resultados. O fenômeno pode perder força antes do pico ou atingir uma intensidade um pouco inferior à prevista.

Também existem diferenças entre os indicadores usados pelos centros meteorológicos. Um evento pode estabelecer recorde em determinada região ou índice sem necessariamente superar todos os episódios históricos em todas as medições.

Por isso, expressões como “o mais forte da história” precisam ser usadas com cautela. O mais preciso, neste momento, é dizer que o El Niño tem alta probabilidade de se tornar muito forte e uma possibilidade relevante de alcançar intensidade histórica nos registros modernos.

Comparações com os últimos 500 ou mil anos apresentam incertezas ainda maiores. Antes das medições instrumentais, os cientistas precisam reconstruir o clima com informações preservadas em corais, sedimentos, anéis de árvores e outras evidências naturais.

Como o El Niño muda o clima?

O El Niño começa no oceano, mas seus efeitos se espalham pela atmosfera. O aquecimento do Pacífico modifica a circulação dos ventos, o transporte de umidade e a formação de áreas de chuva.

Em condições normais, os ventos alísios empurram as águas quentes do Pacífico em direção à Ásia e à Oceania. Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem, permitindo que o calor se desloque para o centro e o leste do oceano.

A mudança interfere na chamada circulação de Walker, um grande movimento atmosférico sobre o Pacífico tropical. Com isso, regiões que normalmente recebem muita chuva podem ficar mais secas, enquanto outras enfrentam precipitações acima do normal.

Os efeitos não são iguais em todos os lugares. O fenômeno pode favorecer enchentes em uma região e estiagem em outra.

Um El Niño forte também não garante que todo impacto típico ocorrerá. Frentes frias, temperatura do Atlântico, Dipolo do Oceano Índico, umidade do solo e outros sistemas continuam influenciando o tempo.

O que pode acontecer no Brasil?

O segundo boletim do Painel El Niño 2026-2027, produzido por órgãos brasileiros, prevê para o trimestre de agosto a outubro chuvas acima da média em áreas do Sul e precipitações abaixo da média no centro-norte do país.

As temperaturas também devem permanecer acima do normal em grande parte do território. Essa combinação aumenta a atenção para ondas de calor, incêndios, seca, enchentes e deslizamentos.

Sul pode enfrentar chuva intensa

Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná costumam registrar mais chuva durante episódios de El Niño. O risco cresce quando frentes frias permanecem sobre a região e encontram grande quantidade de umidade.

Os possíveis efeitos incluem:

  • enchentes;
  • alagamentos urbanos;
  • deslizamentos de terra;
  • elevação rápida dos rios;
  • temporais com granizo;
  • interrupções em estradas;
  • perdas nas lavouras;
  • doenças provocadas pelo excesso de umidade.

Isso não significa que choverá continuamente em todos os municípios. A previsão climática indica uma tendência para semanas ou meses, e não o tempo exato de cada dia.

O morador deve acompanhar os avisos de curto prazo do INMET e da Defesa Civil. São esses alertas que indicam quando uma tempestade realmente se aproxima.

Norte e Nordeste têm risco de seca

O El Niño costuma reduzir as chuvas no norte e no leste da Amazônia e em partes do norte do Nordeste. O impacto pode se tornar mais evidente se o fenômeno permanecer ativo durante 2027.

Menos chuva e temperaturas elevadas reduzem a umidade do solo, afetam rios menores e aumentam a vulnerabilidade da vegetação ao fogo.

Agricultura familiar, pastagens, abastecimento de comunidades isoladas e transporte fluvial podem ser prejudicados. Na Amazônia, rios baixos também dificultam o acesso a alimentos, medicamentos e serviços públicos.

O risco não é uniforme em todo o Nordeste. Áreas costeiras, semiáridas e regiões mais ao sul podem responder de maneiras diferentes conforme a época do ano.

Centro-Oeste e Sudeste podem ter mais calor

As projeções indicam maior probabilidade de temperaturas acima da média no Centro-Oeste e no Sudeste.

Períodos prolongados de calor e baixa umidade aumentam a ocorrência de queimadas, pressionam o consumo de energia e elevam os riscos à saúde.

Idosos, crianças, gestantes, pessoas com doenças cardiovasculares e trabalhadores expostos ao sol precisam de atenção especial. Desidratação, queda de pressão, exaustão térmica e agravamento de problemas respiratórios podem ocorrer.

Mesmo nessas regiões, o El Niño não impede episódios de chuva forte. Temporais isolados podem acontecer depois de longos períodos secos, aumentando o risco de alagamentos em cidades com drenagem insuficiente.

Agricultura e alimentos podem ser afetados?

O efeito sobre a produção rural dependerá da cultura, da região e do momento em que a chuva ou a seca ocorrer.

No Sul, excesso de umidade pode atrasar o plantio e a colheita, favorecer doenças causadas por fungos e reduzir a qualidade de grãos. Trigo, soja, arroz e frutas podem ser afetados se os períodos chuvosos coincidirem com fases sensíveis das plantas.

No Centro-Oeste, chuvas irregulares e calor intenso podem dificultar o início da safra de verão. Um atraso no plantio da soja também pode reduzir a janela disponível para o milho de segunda safra.

No Norte e no Nordeste, a falta de água pode prejudicar pastagens, culturas permanentes e produtores familiares que dependem da chuva.

O consumidor pode sentir os efeitos no preço de determinados produtos, mas a alta não é automática. Estoques, importações, câmbio, custos de transporte e resultados de outras regiões também interferem no valor encontrado nos supermercados.

Produtores devem acompanhar o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, do Ministério da Agricultura. A ferramenta orienta as épocas de plantio com menor exposição a perdas e é importante para o acesso a determinadas modalidades de crédito e seguro rural.

O El Niño aumenta a temperatura do planeta?

O El Niño costuma elevar temporariamente a temperatura média global porque transfere mais calor do oceano para a atmosfera.

Esse impulso ocorre sobre uma tendência de longo prazo causada pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa. Em outras palavras, o fenômeno natural encontra um planeta que já está mais quente devido principalmente à queima de carvão, petróleo e gás.

A temperatura global já subiu aproximadamente 1,4°C em relação ao período pré-industrial. O Met Office estimou que 2026 poderia ficar entre 1,34°C e 1,58°C acima da média de 1850 a 1900, com valor central de 1,46°C. A projeção foi divulgada pelo serviço meteorológico britânico.

Como o efeito máximo de um El Niño sobre a temperatura mundial frequentemente aparece depois de seu pico, 2027 poderá disputar o posto de ano mais quente já registrado.

Ainda é cedo para tratar esse recorde como certo. A temperatura anual depende da evolução do El Niño, do comportamento dos oceanos e de outros fatores climáticos que serão observados ao longo dos próximos meses.

Mudança climática causa o El Niño?

Não. El Niño e La Niña são variações naturais do sistema climático e existem há milhares de anos.

A ciência ainda investiga se o aquecimento global tornará esses fenômenos mais frequentes ou mais intensos. Não há consenso de que todos os eventos futuros serão necessariamente mais fortes.

O ponto mais seguro é que os impactos acontecem agora em um ambiente mais aquecido. Uma onda de calor associada ao El Niño, por exemplo, soma-se à elevação de temperatura provocada pelas mudanças climáticas.

Um El Niño forte sempre provoca desastre?

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Não. A intensidade medida no Pacífico aumenta a possibilidade dos efeitos típicos, mas não determina sozinha o tamanho de cada desastre.

Uma chuva extrema somente vira tragédia quando encontra pessoas e estruturas vulneráveis. Moradias em encostas, cidades com pouca drenagem, rios ocupados e ausência de alertas aumentam as consequências.

Da mesma forma, uma estiagem produz impactos maiores onde faltam reservatórios, planos de abastecimento, irrigação eficiente e apoio aos agricultores.

Previsões sazonais funcionam como um aviso antecipado. Elas permitem que governos, produtores, empresas e famílias se preparem, mesmo sem saber exatamente onde e quando cada evento ocorrerá.

O próprio Cemaden chama atenção para o risco do sensacionalismo. Um “super El Niño” não significa que todos os lugares enfrentarão simultaneamente chuvas recordes, secas extremas e calor sem precedentes.

Como se preparar para os próximos meses?

A preparação deve considerar os riscos da região onde a pessoa mora.

No Sul, moradores de áreas próximas a rios ou encostas precisam conhecer rotas de saída e acompanhar a Defesa Civil. Documentos, medicamentos e contatos importantes podem ser reunidos em uma bolsa de emergência.

No centro-norte do país, os cuidados devem incluir hidratação, redução da exposição ao calor, atenção à fumaça e uso consciente da água.

Medidas práticas incluem:

  • cadastrar o CEP para receber alertas da Defesa Civil;
  • acompanhar previsões do INMET e dos órgãos estaduais;
  • nunca atravessar ruas ou pontes alagadas;
  • sair de áreas de risco quando houver orientação oficial;
  • manter água potável e medicamentos essenciais acessíveis;
  • evitar queimadas e denunciar focos de incêndio;
  • proteger crianças e idosos durante ondas de calor;
  • revisar telhados, calhas e sistemas de drenagem;
  • acompanhar níveis de rios e reservatórios;
  • seguir orientações agrícolas específicas para cada cultura.

Os alertas da Defesa Civil podem ser recebidos gratuitamente por SMS. Para se cadastrar, basta enviar o CEP da área de interesse para o número 40199.

O que acompanhar daqui para frente?

O El Niño continuará sendo monitorado ao longo da primavera e do verão. Os boletins mensais mostrarão se o aquecimento está seguindo as projeções ou se houve alguma mudança na trajetória.

Três informações serão especialmente importantes:

  • temperatura da região Niño 3.4;
  • resposta da atmosfera ao aquecimento;
  • previsão de duração até 2027.

Para o leitor, o boletim global não substitui a previsão local. O El Niño mostra a tendência geral, enquanto os avisos meteorológicos indicam o risco imediato de chuva, seca, calor ou tempestade.

O cenário atual merece atenção: o fenômeno já está configurado, continua ganhando força e tem probabilidade elevada de atingir intensidade muito forte. O recorde, entretanto, somente poderá ser confirmado depois do pico e da análise dos dados observados.

Perguntas frequentes

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Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital

O El Niño de 2026 já foi confirmado?

Sim. Órgãos internacionais e brasileiros confirmaram as condições de El Niño em junho de 2026. O fenômeno segue em intensificação.

Este será o El Niño mais forte da história?

Ainda não é possível afirmar. A NOAA estima 69% de chance de um evento histórico entre outubro e dezembro, considerando registros modernos desde 1950.

Quando o El Niño deve atingir o pico?

As projeções indicam que a maior intensidade deve ocorrer entre a primavera de 2026 e o início do verão de 2027.

Até quando o fenômeno pode durar?

A NOAA espera que o El Niño persista pelo menos até a primavera de 2027 no Hemisfério Norte, período que corresponde ao outono no Brasil.

Quais regiões brasileiras podem ter mais chuva?

A Região Sul apresenta maior probabilidade de chuva acima da média, com risco de temporais, enchentes e deslizamentos.

Onde pode chover menos?

As projeções indicam chuva abaixo da média no centro-norte do Brasil, principalmente em partes do Norte e do Nordeste.

El Niño significa que fará calor em todo o Brasil?

Não em todos os dias e locais, mas aumenta a probabilidade de temperaturas acima da média em grande parte do país, especialmente no Centro-Oeste e no Sudeste.

O El Niño causa aumento nos preços dos alimentos?

O fenômeno pode afetar safras e pressionar determinados preços, mas o resultado depende da produção, dos estoques, das importações e de outros fatores econômicos.

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