O Nubank, uma das principais fintechs da América Latina, enfrenta uma crise interna de imagem e confiança após a divulgação de uma carta aberta assinada por trabalhadores da empresa, criticando duramente a decisão de encerrar o regime de trabalho 100% remoto e a demissão de 14 funcionários. A insatisfação foi amplificada durante uma plenária virtual organizada pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, realizada na noite de quarta-feira (12), com participação de cerca de 300 colaboradores.
Tensão no Nubank: colaboradores lançam manifesto contra novas regras de home office
Funcionários do Nubank protestam contra o fim do home office e demissões. Carta aberta foi lida em plenária com apoio do sindicato.
A mobilização expõe não apenas o descontentamento com a imposição do retorno ao escritório (RTO), mas também levanta discussões sobre retaliação, falta de diálogo e impactos socioeconômicos, especialmente para trabalhadores que vivem fora dos grandes centros urbanos ou que possuem responsabilidades familiares.
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O que motivou o manifesto?
A decisão da empresa, anunciada em 6 de novembro de 2025, determinou que a partir de julho de 2026, funcionários deverão comparecer presencialmente ao menos dois dias por semana, e a partir de janeiro de 2027, esse número sobe para três dias. A mudança afeta cerca de 70% do quadro de funcionários, substituindo o atual modelo que prevê uma semana presencial por trimestre.
Para muitos trabalhadores, a flexibilidade do trabalho remoto era uma das principais razões para se unir à fintech. Com a imposição do novo modelo, surgiram queixas sobre impacto na qualidade de vida, aumento de custos com deslocamento e perdas profissionais e familiares.
Demissões e acusações de retaliação
O estopim do protesto foi a demissão de 14 profissionais por justa causa, sendo 12 deles dispensados após se manifestarem contrariamente ao fim do home office em uma reunião com o CEO, David Vélez, e 2 acusados de planejar sabotagem interna, segundo informações divulgadas por veículos da grande imprensa.
A presidente do sindicato, Neiva Ribeiro, classificou as demissões como retaliações diretas à liberdade de expressão dos trabalhadores:
“O sindicato não aceitará punições por manifestações de descontentamento com o fim do modelo 100% remoto. É uma mudança grave, que precisa de diálogo”, afirmou.
A entidade informou que uma reunião com a diretoria do Nubank está marcada para o próximo dia 19, com o objetivo de buscar reversão das demissões e negociação sobre o modelo de trabalho.
Carta-manifesto lida e publicada
Durante a plenária, foi lida a carta aberta escrita por um grupo de funcionários do Nubank, articulado por meio de um canal no Telegram criado após a mudança da política de trabalho remoto. O documento expressa repúdio:
- Ao fim unilateral do regime remoto sem consulta prévia;
- Às advertências e demissões aplicadas a quem se posicionou contra a medida.
A carta ressalta que a cultura do Nubank sempre se baseou em diversidade, autonomia e escuta ativa, mas que as recentes decisões da liderança foram arbitrárias, insensíveis e carentes de base empírica.
Os signatários também citam dados que reforçam o impacto da medida sobre:
- Cuidadores familiares, sobretudo mulheres;
- Pessoas com deficiência ou neurodivergentes;
- Funcionários que vivem longe dos escritórios, especialmente fora do eixo São Paulo-Rio.
Nubank defende diálogo e programa de transição
Em resposta à mobilização, o Nubank declarou por meio de nota que mantém diálogo aberto com entidades representativas e que as mudanças foram planejadas de forma gradual, com exceções previstas para determinadas funções e casos pessoais.
Entre as medidas anunciadas pela empresa para suavizar a transição estão:
- Programa de auxílio-realocação para funcionários elegíveis;
- Análise individual de exceções, considerando fatores como desempenho, senioridade e distância geográfica;
- Manutenção do trabalho remoto para cargos específicos.
Mesmo assim, funcionários relatam que a empresa não apresentou estudos ou dados concretos que justifiquem a mudança. Segundo a própria Chief People Officer do Nubank, mais de 90% dos trabalhadores seriam contrários ao fim do modelo remoto.
Impactos sociais e econômicos da mudança
A carta aberta alerta para o risco de evasão de talentos, sobrecarga dos funcionários que permanecem e prejuízos à saúde mental da equipe. Especialistas apontam que políticas rígidas de retorno ao escritório (RTO) têm sido questionadas em todo o mundo, com empresas voltando atrás após perdas de produtividade, aumento de demissões voluntárias e queda no engajamento.
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No caso do Nubank, que não possui agências físicas e atua 100% de forma digital, o argumento de que o retorno físico impulsiona inovação ou colaboração direta é visto como frágil pelos trabalhadores.
Além disso, há o fator do custo de vida em grandes centros urbanos, como São Paulo. Para trabalhadores de estados periféricos ou que migraram para o interior durante a pandemia, a imposição presencial representa perda de renda real e redução na qualidade de vida.
Apoio do sindicato e canais de denúncia
Durante a plenária, lideranças sindicais reforçaram o apoio aos trabalhadores e incentivaram o uso dos canais oficiais do sindicato para denúncias. A secretária-geral, Lucimara Malaquias, destacou:
“Muito cuidado com grupos no Telegram ou WhatsApp. O canal oficial garante anonimato e sigilo para os trabalhadores.”
O sindicato informou que novas plenárias estão previstas e que o momento exige unidade, mobilização e pressão institucional para garantir que os direitos dos trabalhadores sejam respeitados.
O crescimento do Nubank e o papel dos trabalhadores remotos
A carta dos funcionários faz questão de ressaltar que o crescimento explosivo do Nubank — de 25 milhões para mais de 100 milhões de clientes — aconteceu com base em um modelo de trabalho remoto eficiente. A fintech alcançou lucro líquido de US$ 2 bilhões em 2024, tornando-se o maior banco digital da América Latina e figurando entre os bancos mais admirados do mundo pela revista Forbes.
“Essas equipes têm orgulho da empresa que construíram, dos resultados que entregaram, e é por isso que essa mudança sem diálogo é tão dolorosa”, diz o manifesto.
Para os trabalhadores, a imposição vertical de uma política controversa, sem escuta ou negociação, contraria os princípios de cultura organizacional que o Nubank historicamente promoveu.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
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