Um estudo da Universidade de Sydney, na Austrália, colocou os óculos inteligentes da Meta no centro de uma nova discussão sobre privacidade e assédio contra mulheres. A pesquisa analisou 350 vídeos publicados entre 2023 e 2026 e identificou comportamentos considerados potencialmente abusivos em cerca de 60% dos casos analisados.
O levantamento sobre os óculos inteligentes da Meta chama atenção para uma característica dos dispositivos: a possibilidade de registrar imagens e sons em primeira pessoa de maneira muito mais discreta do que uma câmera convencional. Para os pesquisadores, isso pode dificultar que pessoas filmadas percebam a gravação e tenham a oportunidade de impedir ou questionar o registro.
Os resultados também mostram que o problema pode continuar depois da gravação, especialmente quando vídeos feitos com os dispositivos da Meta são publicados nas redes sociais. Informações pessoais, imagens de partes do corpo e comentários racistas aparecem entre os tipos de exposição identificados.
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O que o estudo da Universidade de Sydney descobriu?

A pesquisa avaliou 350 vídeos publicados no Instagram e relacionados a abordagens de mulheres feitas por integrantes de comunidades conhecidas como “pick-up artists”.
Segundo os pesquisadores, aproximadamente 60% das interações analisadas foram classificadas como potencial assédio. Em vários dos registros, as mulheres demonstravam desconforto, tentavam se afastar ou apresentavam sinais de que não desejavam continuar a interação.
O estudo também identificou situações em que a gravação ultrapassava a abordagem presencial e resultava em exposição na internet.
Dados pessoais aparecem em parte dos vídeos
Um dos pontos que mais chamou atenção foi a exposição de informações que poderiam facilitar a identificação das mulheres.
Segundo os dados apresentados pelos pesquisadores, 43% dos vídeos continham revelação de informações pessoais, como nome, localização ou perfil em redes sociais.
Isso cria um segundo nível de risco. A pessoa pode não apenas ser filmada sem perceber, mas também ter informações sobre sua identidade utilizadas para facilitar sua localização ou exposição online.
Mulheres também foram sexualizadas e alvo de racismo
A pesquisa encontrou ainda diferentes padrões de comportamento nas gravações.
Cerca de 13% dos vídeos tinham como foco partes do corpo das mulheres, enquanto aproximadamente 14% mostravam mulheres racializadas que posteriormente recebiam comentários racistas.
Os números mostram que a preocupação não está limitada ao ato de gravar. A forma como o material é editado, publicado e recebido pelo público também pode aumentar o impacto sobre quem aparece nas imagens.
Por que os óculos inteligentes tornam a gravação mais difícil de perceber?
A diferença está principalmente na forma como a câmera é utilizada.
Com um celular, por exemplo, normalmente é necessário apontar o aparelho para a pessoa. Esse movimento pode denunciar que existe uma gravação acontecendo.
Nos óculos inteligentes, a câmera fica integrada à própria armação. O usuário pode continuar conversando enquanto registra a cena à sua frente.
Os dispositivos possuem indicadores que sinalizam quando a câmera está sendo utilizada. O problema apontado pelos pesquisadores é que esses sinais podem ser pouco perceptíveis para alguém que está conversando ou circulando pelo ambiente.
O que é a chamada “captura ambiente”?
Os pesquisadores utilizam o conceito de “ambient capture”, ou captura ambiente, para descrever situações em que pessoas e acontecimentos são registrados como parte do ambiente sem necessariamente perceberem que estão sendo gravados.
É uma característica que pode ganhar importância conforme câmeras e inteligência artificial passam a fazer parte de objetos utilizados diariamente.
Uma conversa que antes permaneceria restrita ao local onde aconteceu pode se transformar em um vídeo compartilhado para milhares de pessoas.
O que a Meta diz sobre os óculos?
A Meta afirma que considera a confiança dos usuários e das pessoas ao redor desde o desenvolvimento dos dispositivos.
A empresa também destaca que os óculos possuem diversas funções além da câmera, incluindo reprodução de música, tradução simultânea e chamadas sem o uso das mãos.
A existência de usos abusivos, portanto, não significa que os óculos tenham sido desenvolvidos para essa finalidade. A preocupação levantada pelo estudo está relacionada à possibilidade de uma tecnologia legítima ser utilizada para registrar terceiros de maneira invasiva.
O Instagram também anunciou medidas para remover vídeos que explorem ou assediem pessoas desconhecidas, incluindo conteúdos de abordagens de mulheres gravados com óculos inteligentes.
Os óculos inteligentes da Meta podem ser vendidos no Brasil?
Sim.
A segunda geração dos óculos inteligentes da Meta recebeu autorização da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para comercialização no Brasil em setembro de 2025.
Na época, os dispositivos chegaram ao mercado brasileiro por aproximadamente R$ 3 mil, dependendo da versão.
Isso significa que a discussão sobre privacidade envolvendo esse tipo de equipamento também já faz parte da realidade brasileira.
O que diz a legislação brasileira sobre filmagens?
A legislação brasileira possui mecanismos de proteção à imagem, à privacidade e aos dados pessoais.
O Código Civil, por exemplo, estabelece proteção à imagem e à vida privada. O artigo 20 prevê situações em que a utilização ou divulgação da imagem de uma pessoa pode ser impedida, enquanto o artigo 21 estabelece que a vida privada é inviolável.
A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) também estabelece regras relacionadas ao tratamento de dados pessoais e protege direitos fundamentais de liberdade, privacidade e livre desenvolvimento da personalidade.
Isso não significa que qualquer gravação feita em local público seja automaticamente ilegal. A análise depende das circunstâncias, da finalidade do registro, da forma como a imagem é utilizada e da eventual identificação ou exposição da pessoa.
O que muda para quem é filmado sem saber?
O principal problema é a perda de controle sobre a própria imagem.
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Quando alguém percebe que está sendo filmado, pode pedir para interromper a gravação, deixar o local ou decidir se deseja continuar participando daquela interação.
Quando a câmera praticamente não é percebida, essa escolha pode desaparecer.
Se o vídeo for publicado posteriormente, a situação pode se tornar ainda mais complicada. A imagem pode ser compartilhada, receber comentários ofensivos e revelar informações capazes de identificar ou localizar a pessoa.
Os óculos inteligentes deveriam ser proibidos?
O estudo não afirma que os óculos inteligentes sejam utilizados de maneira abusiva pela maioria de seus usuários.
Esse ponto é importante porque a pesquisa analisou um recorte específico de vídeos associados a comunidades de “pick-up artists”. Os resultados, portanto, não podem ser usados para afirmar que todos os proprietários dos dispositivos praticam assédio.
A preocupação apresentada pelos pesquisadores é mais específica: uma tecnologia que torna a gravação mais discreta pode facilitar comportamentos invasivos que já existiam anteriormente.
Por isso, o debate envolve principalmente mecanismos de proteção, fiscalização e responsabilização.
O que pode mudar daqui para frente?
O avanço dos dispositivos vestíveis deve aumentar a discussão sobre privacidade.
Óculos, relógios e outros equipamentos podem incorporar câmeras, microfones e sistemas de inteligência artificial cada vez mais sofisticados. Ao mesmo tempo, as pessoas ao redor nem sempre terão clareza sobre quais dados estão sendo capturados.
A tendência é que empresas de tecnologia sejam pressionadas a desenvolver indicadores de gravação mais claros, mecanismos de segurança e ferramentas capazes de impedir usos abusivos.
Também deve crescer a responsabilidade das redes sociais na identificação e retirada de conteúdos que exponham pessoas sem justificativa.
O que fazer se alguém publicar uma gravação sua sem autorização?

Quem descobrir que foi filmado e exposto pode preservar provas antes de solicitar a remoção do conteúdo.
É recomendável guardar capturas de tela, endereço da publicação, nome do perfil responsável e outras informações que ajudem a documentar o caso.
Dependendo da situação, a pessoa pode denunciar o conteúdo à própria plataforma e buscar orientação jurídica para avaliar medidas adicionais.
Conclusão
O estudo da Universidade de Sydney não mostra que os óculos inteligentes da Meta sejam, por natureza, ferramentas de assédio. O que a pesquisa evidencia é um novo desafio criado pela capacidade de gravar pessoas de maneira discreta e transformar uma interação cotidiana em conteúdo digital.
No Brasil, a proteção da imagem, da privacidade e dos dados pessoais já possui respaldo jurídico. O desafio agora é aplicar essas garantias a tecnologias que tornam a captura de imagens e sons cada vez menos perceptível.
Para quem utiliza esses dispositivos, a possibilidade técnica de registrar uma cena não significa autorização para expor terceiros. E, para empresas e plataformas, o avanço da tecnologia aumenta a necessidade de criar mecanismos capazes de proteger quem está diante da câmera.



