Após quatro dias de paralisação total e uma escalada de tensão que paralisou a rotina de Campo Grande, o transporte coletivo começa a dar sinais de retomada. Um acordo firmado entre a prefeita Adriane Lopes e o governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel, garantiu a antecipação de recursos estaduais destinados ao Consórcio Guaicurus, permitindo a quitação de folhas salariais atrasadas e abrindo caminho para o encerramento da maior greve do setor em 31 anos.
Ônibus voltam a rodar em Campo Grande após acordo entre sindicato e empresas
Acordo entre Prefeitura e Governo de MS antecipa repasse ao Consórcio Guaicurus e garante retorno gradual dos ônibus em Campo Grande.
A decisão foi tomada diante da pressão crescente de trabalhadores, comerciantes e usuários do sistema, que ficaram sem ônibus por dias consecutivos. Com o anúncio do depósito de R$ 3,3 milhões, os motoristas confirmaram o retorno gradual das atividades a partir desta quinta-feira (18), embora o clima entre a categoria ainda seja de cautela.
Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo Urbano de Campo Grande (STTCU-CG), Demétrio Freitas, a logística para recolocar os veículos nas ruas exige tempo, mas a expectativa é de normalização progressiva. “Com o anúncio do pagamento, volta de forma gradual, mas amanhã é certeza que todos estarão rodando”, afirmou.
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Greve expôs fragilidade financeira do sistema
A paralisação de ônibus escancarou uma crise que se arrasta há anos no transporte coletivo da Capital. Desde 2022, o Consórcio Guaicurus recebe subsídios do município para manter a operação, alegando dificuldades financeiras para cumprir obrigações básicas, como o pagamento de salários. Ainda assim, os atrasos persistiram, levando os trabalhadores a cruzarem os braços.
Em 2025, o impasse atingiu um ponto crítico. Sem qualquer sinal concreto de pagamento, os motoristas decidiram manter a greve mesmo diante de multas judiciais, acumulando um valor que já chega a R$ 520 mil. A decisão, considerada inédita, reforçou o caráter histórico do movimento.
A última paralisação total semelhante havia ocorrido em outubro de 1994, quando a cidade ficou três dias sem ônibus. Desta vez, porém, a greve ultrapassou esse período e ganhou apoio popular, reflexo do desgaste acumulado com a precariedade do serviço e a percepção de que os trabalhadores também são vítimas do sistema.
Repasse antecipado garante fôlego ao Consórcio Guaicurus
O acordo firmado entre Estado e Município prevê a antecipação de uma parcela do convênio que financia o passe dos estudantes da Rede Estadual de Ensino (REE). Em junho de 2025, foi assinado um termo no valor total de R$ 13.470.573,90 para custear o transporte de alunos das escolas estaduais até junho de 2026.
Esse montante seria repassado em quatro parcelas. Conforme demonstrado pela Prefeitura nesta semana, o Município está em dia com suas obrigações junto ao Consórcio, restando apenas uma parcela de responsabilidade estadual. Para destravar a situação e encerrar a greve, o Governo do Estado decidiu adiantar R$ 3,3 milhões, que serão transferidos ao Município e, em seguida, ao Consórcio Guaicurus.
A prefeita Adriane Lopes foi enfática ao afirmar que, com o dinheiro em caixa, não há justificativa para a continuidade da paralisação. “Depende só do Consórcio. Estarão com todo o dinheiro em mãos. Não há nenhuma desculpa para a greve não acabar hoje”, declarou.
Retomada gradual dos ônibus exige organização
Embora o acordo tenha sido celebrado como uma vitória imediata, a retomada dos ônibus coletivo não ocorre de forma instantânea. Motoristas precisam ser convocados, escalas reorganizadas e veículos preparados para voltar à operação. Esse processo logístico explica por que o retorno será gradual ao longo desta quinta-feira.
Demétrio Freitas destacou que o sindicato seguirá acompanhando de perto o cumprimento do acordo. O principal receio da categoria é que novos atrasos ocorram nos próximos meses, especialmente em relação ao pagamento de janeiro. “A incerteza continua. Vamos reforçar o clamor para que os empresários paguem os salários em dia”, lamentou.
Esse temor não é infundado. O histórico recente do Consórcio indica que a dependência de subsídios e repasses extraordinários cria um ciclo de instabilidade, no qual qualquer atraso financeiro pode resultar em novos conflitos trabalhistas.
Comércio e população sentem impacto da paralisação
Durante os dias sem ônibus, Campo Grande experimentou um cenário de ruas vazias, especialmente na região central. Comerciantes relataram queda significativa no movimento e prejuízos acumulados, enquanto trabalhadores buscaram alternativas para chegar ao emprego, como caronas, aplicativos de transporte e deslocamentos a pé.
Apesar dos transtornos, uma parcela significativa da população manifestou apoio aos motoristas. Para muitos usuários, a greve evidenciou problemas estruturais do transporte coletivo, como frota envelhecida, atrasos frequentes e tarifas elevadas em relação à qualidade do serviço oferecido.
Esse apoio popular foi um dos fatores que deram força ao movimento e pressionaram o poder público a encontrar uma solução rápida. Ignorar a insatisfação generalizada poderia agravar ainda mais a crise de mobilidade urbana na Capital.
Multas e decisões judiciais não contiveram o movimento
Um dos aspectos mais marcantes da greve de 2025 foi a decisão dos trabalhadores de ignorar a ordem judicial de retorno imediato ao trabalho. Mesmo com a aplicação de multas diárias ao sindicato, a categoria manteve a paralisação até obter garantias concretas de pagamento.
Essa postura diferenciou o movimento atual de paralisações anteriores e sinalizou uma mudança de estratégia. Para os motoristas, voltar a trabalhar sem receber salários atrasados significaria legitimar uma prática que se repete ano após ano.
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A postura firme também colocou o Consórcio Guaicurus sob maior escrutínio público, reacendendo o debate sobre a sustentabilidade do modelo de concessão de ônibus coletivos em Campo Grande.
Debate sobre o futuro do transporte coletivo
Com o fim da greve, o desafio agora é pensar no médio e longo prazo. Especialistas em mobilidade urbana apontam que acordos emergenciais resolvem crises pontuais, mas não atacam as causas estruturais do problema.
Entre os pontos frequentemente levantados estão a necessidade de revisão do contrato de concessão, maior transparência nas contas do Consórcio, investimentos em frota e tecnologia e a definição de um modelo de subsídio mais previsível.
A greve histórica de 2025 pode, portanto, representar um ponto de inflexão. Ao expor fragilidades e mobilizar a sociedade, o movimento abre espaço para uma discussão mais ampla sobre como garantir um transporte público eficiente, financeiramente equilibrado e socialmente justo.
Clima de cautela após o acordo
Embora a circulação dos ônibus seja retomada, o clima entre os trabalhadores permanece de cautela. A categoria aguarda a confirmação do depósito e a efetiva quitação dos salários atrasados para considerar o episódio encerrado.
O sindicato também cobra garantias de que o pagamento dos próximos meses ocorrerá sem atrasos, evitando que a cidade volte a enfrentar um colapso no transporte coletivo. Para os usuários, a expectativa é de que o serviço seja normalizado rapidamente, minimizando os prejuízos acumulados.
A experiência recente mostrou que o transporte coletivo é um serviço essencial e que sua paralisação tem efeitos em cadeia sobre toda a economia urbana. Por isso, a solução encontrada agora é vista como necessária, mas ainda insuficiente para garantir estabilidade duradoura.
Imagem: Joa Souza/shutterstock
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