Na última semana, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) deflagrou a Operação Ícaro, revelando um complexo esquema de corrupção fiscal que teria desviado mais de R$ 1 bilhão dos cofres públicos por meio de ressarcimentos fraudulentos de créditos tributários de ICMS. No centro da investigação estão auditores fiscais da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP) e as grandes varejistas Ultrafarma e Fast Shop.
Caso Ultrafarma: aumento patrimonial de R$ 46 mi para R$ 2 bi em 2 anos leva RFB a investigar
MP-SP desmantela esquema bilionário de fraude no ICMS envolvendo auditores da Sefaz-SP e grandes varejistas.
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O escândalo que abalou o fisco paulista
O caso ganhou notoriedade nacional após a prisão do auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, apontado como o chefe da organização criminosa. Ele foi preso na terça-feira (12), em uma ação coordenada com mandados de busca, apreensão e prisão preventiva contra outros auditores fiscais, executivos e empresários.
Segundo o MP, Artur utilizava sua posição para facilitar e fraudar processos de ressarcimento de créditos de ICMS, liberando valores indevidos ou acelerando trâmites internos, em troca de propina paga por empresas beneficiadas.
Como funcionava o esquema de fraude
O que é o ressarcimento de créditos tributários?
O ressarcimento de crédito tributário de ICMS é um direito legal de empresas que acumulam saldo credor por operações específicas, como exportações ou substituição tributária. Trata-se, porém, de um procedimento burocrático, técnico e sujeito a revisão rigorosa dentro da estrutura da Sefaz.
No entanto, segundo o MP-SP, esse processo foi deliberadamente manipulado por Artur Gomes para beneficiar determinadas empresas, mediante suborno.
Atuação do auditor: favorecimento e blindagem
Artur teria atuado em três frentes principais:
- Montagem e entrega da documentação necessária para o pedido de ressarcimento;
- Aprovação acelerada dos pedidos, sem as etapas usuais de conferência técnica;
- Blindagem contra revisões internas, garantindo que os valores fossem pagos sem contestação.
Em troca, recebia pagamentos milionários, disfarçados por meio de empresas de fachada e operações financeiras fictícias.
A peça-chave: Smart Tax, empresa fantasma da mãe do auditor
Um dos principais indícios que levaram à descoberta do esquema foi a movimentação patrimonial atípica da empresa Smart Tax, registrada em nome de Kimio Mizukami da Silva, uma professora aposentada de 73 anos e mãe do auditor Artur.
Crescimento explosivo em dois anos
- Em 2021, a Smart Tax não apresentava qualquer atividade econômica relevante.
- Em 2022, Kimio declarou um patrimônio de R$ 46 milhões.
- Em 2024, esse número saltou para R$ 2 bilhões.
Além disso, a professora declarou à Receita Federal que mantinha R$ 6 milhões em dinheiro vivo em casa e que parte da fortuna foi resultado de investimentos em criptomoedas adquiridas com os lucros da empresa — que não possui sede operacional, funcionários ou serviços prestados conhecidos.
Indícios de lavagem de dinheiro
Segundo os investigadores, a Smart Tax era usada para receber valores de empresas como a Fast Shop, funcionando como intermediária no pagamento de propinas. O rastro financeiro chamou atenção da Receita e do MP, que cruzaram as informações com trocas de e-mails, interceptações telefônicas e quebras de sigilo bancário autorizadas pela Justiça.
Envolvimento de grandes varejistas: Ultrafarma e Fast Shop

E-mails reveladores
O MP afirma ter obtido comunicações entre Artur e os empresários Sidney Oliveira (Ultrafarma) e Mário Otávio Gomes (Fast Shop). Nessas conversas, há indícios de:
- Negociações sobre pedidos de ressarcimento de ICMS;
- Orientações sobre como proceder para burlar a fiscalização;
- Possível planejamento de pagamentos ilícitos por meio de empresas terceiras.
As empresas negam qualquer envolvimento com a prática de corrupção, mas seus nomes foram diretamente citados nos autos da investigação.
Prisões e desdobramentos da Operação Ícaro
Quem foi preso até agora?
Além de Artur Gomes da Silva Neto, outras cinco pessoas foram presas na primeira fase da operação, incluindo:
- Auditores fiscais ativos e aposentados;
- Executivos de empresas varejistas;
- Contadores e intermediários do esquema.
As prisões preventivas têm como objetivo evitar destruição de provas e novas manipulações nos sistemas de controle da Sefaz.
Prejuízo bilionário aos cofres públicos
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O MP-SP ainda não calculou o valor exato do prejuízo, mas os promotores indicam que os pagamentos indevidos podem ultrapassar R$ 1 bilhão desde 2021. Considerando que o ICMS é um dos principais tributos estaduais e base do financiamento de áreas como saúde e educação, a fraude compromete significativamente a arrecadação e a qualidade dos serviços públicos.
Lavagem de dinheiro e criptomoedas

A defesa de Kimio Mizukami argumentou que parte do aumento patrimonial ocorreu por meio de investimentos em criptomoedas altamente lucrativos, mas não apresentou provas documentais que sustentem essa versão. A tese é tratada com ceticismo pelo MP, que vê na narrativa uma tentativa de camuflar a origem ilícita dos recursos.
As investigações também identificaram movimentações suspeitas em exchanges de criptomoedas e remessas para o exterior, o que pode configurar crimes de evasão de divisas e lavagem de dinheiro transnacional.
Reação das autoridades e medidas futuras
Receita Federal
A Receita já iniciou auditorias em cascata sobre as empresas mencionadas e sobre todos os ressarcimentos de ICMS aprovados por Artur Gomes nos últimos quatro anos.
Tribunal de Contas do Estado (TCE)
O TCE abriu procedimento interno para verificar se houve falha nos sistemas de controle da Sefaz, que permitiram pagamentos bilionários sem revisão cruzada.
Governo de São Paulo
A Secretaria da Fazenda divulgou nota afirmando que colabora integralmente com a investigação e que eventuais funcionários envolvidos serão exonerados e responsabilizados administrativa e criminalmente.
O que é a Operação Ícaro?
A operação foi batizada de Ícaro, em referência ao personagem mitológico que caiu por voar alto demais com asas de cera — uma analogia ao poder excessivo atribuído ao auditor e ao uso abusivo de sua autoridade para fins pessoais.
Objetivos principais da operação:
- Desarticular organização criminosa infiltrada no serviço público;
- Identificar o caminho do dinheiro ilícito;
- Responsabilizar os agentes públicos e privados envolvidos;
- Impedir novos esquemas semelhantes.
Imagem: Reprodução
