O governo federal anunciou na quinta-feira (20) um conjunto de medidas que prevê cerca de R$ 2,3 bilhões para ampliar a infraestrutura de inteligência artificial (IA) no Brasil. O pacote inclui a aquisição de um supercomputador, uma nova estrutura de computação avançada no Rio de Janeiro, desenvolvimento de chips, computação em nuvem e formação de profissionais.
O anúncio foi feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante evento em Macaíba, no Rio Grande do Norte. A estratégia está relacionada ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê R$ 23,03 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028.
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Supercomputador de R$ 1 bilhão será instalado no Rio Grande do Norte
Um dos principais projetos é a abertura de edital para aquisição de um supercomputador estimado em R$ 1 bilhão. O equipamento será instalado no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba, e ficará associado à estrutura de pesquisa do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC).
A expectativa do governo é que a máquina esteja entre os equipamentos de maior capacidade do mundo para processamento de inteligência artificial e entre em funcionamento até o fim de 2027. O projeto deverá ampliar a capacidade brasileira de treinar modelos de IA e realizar pesquisas que exigem grande volume de processamento.
A escolha do Rio Grande do Norte também está relacionada às condições de infraestrutura e ao potencial energético da região. O objetivo é descentralizar a infraestrutura tecnológica e ampliar a participação do Nordeste em projetos considerados estratégicos para a economia digital.
Atualmente, o Brasil já conta com supercomputadores utilizados em pesquisa científica. Segundo o LNCC, o país possui dez máquinas na lista Top500, mas o Santos Dumont continua sendo o único equipamento brasileiro da relação dedicado integralmente à comunidade científica.
Parceria com Huawei e iFlytek prevê nova estrutura no Rio
Outra frente envolve a criação de uma infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro em parceria com as empresas chinesas Huawei e iFlytek. O projeto terá investimento de aproximadamente R$ 1,3 bilhão e deverá entrar em operação a partir de 2027.
A estrutura será utilizada para desenvolvimento de modelos de inteligência artificial e aplicações específicas, com atenção especial a sistemas capazes de trabalhar com português e espanhol. A iniciativa também prevê transferência de tecnologia e capacitação de profissionais brasileiros.
A estratégia foi anunciada em um cenário de forte disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Em vez de concentrar a infraestrutura brasileira em um único fornecedor, o governo afirma que pretende diversificar tecnologias e parceiros.
Brasil quer desenvolver uma nuvem nacional
O pacote também inclui a estruturação de uma infraestrutura brasileira de computação em nuvem. A proposta é manter equipamentos e dados no território nacional, ampliando o controle sobre a infraestrutura utilizada por órgãos públicos, pesquisadores e empresas.
A iniciativa está alinhada ao próprio PBIA, que estabelece a construção de capacidades nacionais de computação e o desenvolvimento de uma chamada “nuvem soberana”. O plano federal considera a infraestrutura de processamento um dos pontos fundamentais para diminuir a dependência tecnológica externa.
Na prática, uma infraestrutura nacional pode ser importante para áreas que trabalham com grandes volumes de dados, como saúde, ciência, indústria, agricultura e serviços públicos.
Desenvolvimento de chips entra na estratégia
O governo também anunciou uma frente voltada ao desenvolvimento de chips baseados na arquitetura RISC-V, um padrão aberto que permite maior flexibilidade no desenvolvimento de processadores.
A iniciativa tem perspectiva de longo prazo e busca ampliar a capacidade brasileira de participar de etapas mais sofisticadas da cadeia tecnológica. A intenção é reduzir vulnerabilidades decorrentes da dependência de componentes produzidos no exterior.
O movimento acompanha uma tendência internacional de governos que passaram a tratar semicondutores, capacidade computacional e infraestrutura de dados como setores estratégicos.
Centro de transparência de IA será criado na UFMG
Outro projeto previsto é o Centro Nacional de Transparência Algorítmica e IA Confiável, associado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A proposta é desenvolver pesquisas relacionadas a segurança, riscos, transparência e confiabilidade dos sistemas de inteligência artificial. O centro deverá ajudar a estudar possíveis vieses e falhas em algoritmos e ampliar a capacidade de avaliação dessas tecnologias.
A iniciativa já aparece entre as ações previstas no planejamento federal para ciência, tecnologia e inovação. Documentos oficiais apontam que o centro deverá trabalhar justamente com riscos, segurança, transparência e confiabilidade em IA.
Formação profissional será parte do investimento
A expansão da infraestrutura também depende de profissionais capazes de operar equipamentos, desenvolver modelos e aplicar inteligência artificial em diferentes setores.
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A parceria anunciada para o Rio de Janeiro prevê capacitação de aproximadamente 3 mil profissionais brasileiros, além de transferência de tecnologia.
Essa formação é relevante porque a falta de mão de obra especializada pode limitar o aproveitamento dos investimentos em infraestrutura. O próprio PBIA reserva recursos específicos para formação e capacitação, com previsão de R$ 1,15 bilhão nessa frente entre 2024 e 2028.
O que o investimento pode mudar para o Brasil?
A ampliação da capacidade computacional pode beneficiar universidades, centros de pesquisa, startups, empresas e órgãos públicos que dependem de processamento avançado.
Um exemplo está na área de saúde. O LNCC já desenvolve pesquisas que combinam inteligência artificial, supercomputação e genômica para investigar relações entre variações genéticas e doenças raras, câncer e doenças negligenciadas.
Na indústria, a infraestrutura pode apoiar simulações, automação e desenvolvimento de novos produtos. No setor público, pode contribuir para sistemas de análise de dados e serviços digitais. Para universidades e startups, ter acesso a recursos computacionais nacionais pode reduzir a necessidade de contratar infraestrutura estrangeira.
O desafio, entretanto, será transformar os investimentos em capacidade permanente de pesquisa, inovação e formação profissional. O PBIA prevê justamente uma estratégia mais ampla, que combina infraestrutura, capacitação, inovação empresarial e governança da inteligência artificial.
PBIA prevê R$ 23 bilhões até 2028

O anúncio de agosto representa uma nova etapa de uma estratégia que começou com o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial.
O documento oficial prevê R$ 23,03 bilhões entre 2024 e 2028, distribuídos entre infraestrutura e desenvolvimento de IA, formação profissional, serviços públicos, inovação empresarial e governança. A maior parcela, de R$ 13,79 bilhões, está destinada à inovação empresarial.
Com os novos projetos, o Brasil busca ampliar sua capacidade de processamento, desenvolver conhecimento próprio e criar condições para que empresas e instituições brasileiras participem de uma cadeia tecnológica que atualmente é concentrada em poucos países e grandes empresas.
Mais do que adquirir computadores, a estratégia envolve construir uma infraestrutura nacional de IA que combine processamento, dados, chips, profissionais, pesquisa e mecanismos de segurança e transparência.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital



