A PepsiCo enfrenta dificuldades para recuperar o volume de vendas de bebidas na América do Norte. No terceiro trimestre de 2026, a quantidade comercializada pela companhia caiu 2% em relação ao mesmo período do ano anterior, apesar do crescimento de 5% na receita reportada da divisão. O resultado mostra que o aumento do faturamento não significa, necessariamente, uma recuperação da demanda.
Durante uma teleconferência com analistas, o CEO da companhia, Ramon Laguarta, reconheceu as dificuldades da empresa no mercado de refrigerantes. Para reagir, a PepsiCo pretende ampliar os investimentos em marcas tradicionais, apostar em novos produtos e reduzir custos para financiar parte de sua estratégia.
A empresa também precisa acompanhar mudanças nos hábitos alimentares, incluindo a procura por bebidas com menos açúcar e os possíveis efeitos da popularização de medicamentos para perda de peso. Essas transformações podem alterar o consumo de alimentos e bebidas nos Estados Unidos e criar novos desafios para fabricantes do setor.
Leia mais:
Moraes libera visitas de Flávio Bolsonaro ao pai, mas mantém restrições eleitorais
Receita cresce, mas volume de bebidas continua em queda

O desempenho da PepsiCo evidencia uma diferença entre faturamento e quantidade vendida. No terceiro trimestre de 2026, o volume de bebidas da companhia na América do Norte recuou 2% em relação ao mesmo período de 2025. No acumulado do ano, a queda chegou a 3%, segundo os dados apresentados no material de origem.
Apesar da retração, a receita reportada da divisão avançou 5%. Parte desse crescimento veio das aquisições realizadas em 2025. Quando esses efeitos são desconsiderados, a receita orgânica, que considera o desempenho das operações existentes, ficou praticamente estável.
A composição do resultado ajuda a explicar essa diferença. A contribuição do volume orgânico foi negativa em 3%, enquanto preços e mix de produtos acrescentaram 3%. O mix corresponde à composição das vendas, incluindo diferenças entre produtos, tamanhos de embalagens e faixas de preço.
Na prática, a PepsiCo conseguiu compensar a queda na quantidade comercializada por meio de preços e da composição das vendas. A estratégia pode preservar o faturamento, mas não resolve necessariamente a dificuldade de atrair consumidores.
Quando uma empresa vende menos unidades, reajustes de preços podem sustentar a receita por algum tempo. Entretanto, aumentos frequentes também podem estimular a procura por alternativas mais baratas, especialmente quando as famílias estão pressionadas pelo custo de vida.
Custos elevados aumentam o desafio da companhia
A PepsiCo precisa recuperar competitividade em um ambiente marcado por custos elevados, tarifas de importação mais altas nos Estados Unidos e consumidores mais atentos aos gastos cotidianos.
Essas condições limitam a possibilidade de elevar preços sem prejudicar a demanda. Ao mesmo tempo, a empresa precisa investir em marketing, distribuição e desenvolvimento de produtos para disputar espaço com concorrentes e acompanhar novas preferências de consumo.
Laguarta afirmou que a companhia pretende aumentar os investimentos em inovação e no fortalecimento das marcas na América do Norte. A empresa também prepara novas medidas de redução de custos para financiar parte dessa reação.
O objetivo é direcionar recursos para iniciativas capazes de melhorar o desempenho comercial sem comprometer a rentabilidade. O resultado dependerá, porém, da capacidade de transformar os investimentos em compras recorrentes, e não apenas em interesse inicial pelos lançamentos.
Poppi representa a aposta em bebidas com menos açúcar
A PepsiCo não pretende abandonar seus refrigerantes tradicionais. A estratégia inclui reforçar marcas consolidadas, como Pepsi e Mountain Dew, enquanto amplia a presença em categorias que atendem a novas preferências dos consumidores.
Um exemplo é a Poppi, marca de refrigerantes prebióticos adquirida pela companhia em 2025 por mais de US$ 1 bilhão. Seus produtos combinam ingredientes como prebióticos, suco de frutas e vinagre de maçã. Algumas versões contêm até cinco gramas de açúcar por porção.
A aquisição permite à PepsiCo disputar espaço em um segmento que procura atrair consumidores interessados em alternativas aos refrigerantes convencionais. Também representa uma tentativa de diversificar o portfólio e reduzir a dependência de produtos tradicionais.
Os prebióticos são componentes que podem servir de substrato para microrganismos benéficos presentes no intestino. Sua presença, entretanto, não significa que uma bebida seja automaticamente saudável. A avaliação depende da composição completa, da quantidade consumida e das evidências que sustentam os benefícios atribuídos ao produto.
A aposta na Poppi mostra como a companhia busca acompanhar as mudanças no mercado sem abrir mão de suas marcas mais conhecidas. Em vez de substituir completamente os refrigerantes tradicionais, a PepsiCo procura atender diferentes perfis de consumidores.
Medicamentos GLP-1 podem mudar os hábitos de consumo
A expansão dos medicamentos da classe GLP-1 acrescenta uma variável às perspectivas da indústria de alimentos e bebidas. Utilizados em tratamentos médicos, esses medicamentos podem reduzir o apetite e aumentar a sensação de saciedade, levando parte dos pacientes a consumir menos alimentos.
Segundo o Gallup, conforme o dado citado no material de origem, 11% dos adultos americanos afirmavam utilizar medicamentos GLP-1 para perder peso, ante 3% em 2024. O avanço indica uma mudança relevante no comportamento de parte da população, embora não permita determinar sozinho o impacto sobre as vendas de cada categoria.
Para fabricantes de alimentos e bebidas, a preocupação está tanto na quantidade consumida quanto nas escolhas feitas pelos consumidores. Se uma pessoa passa a comer porções menores, pode reduzir a compra de determinados produtos, inclusive bebidas e lanches.
Por outro lado, a mudança na composição da alimentação pode favorecer categorias específicas. Produtos com mais proteína, fibras ou menos açúcar podem conquistar maior participação nas compras, dependendo das preferências e das condições financeiras dos consumidores.
Leonardo Alencar, head de research de Agro, Alimentos e Bebidas da XP, chama a atenção para uma distinção importante: um alimento pode ganhar participação na dieta sem que sua quantidade total consumida aumente.
Uma pessoa que reduz o consumo geral de alimentos, por exemplo, pode passar a priorizar proteínas. Mesmo assim, a quantidade total comprada dessa categoria pode permanecer estável ou até diminuir. Por isso, a procura por produtos com determinados atributos nutricionais não garante crescimento automático das vendas em volume.
Salgadinhos também entram na estratégia de inovação
A adaptação da PepsiCo não se limita aos refrigerantes. A companhia também busca incorporar novos atributos nutricionais a marcas tradicionais de alimentos.
Entre as iniciativas citadas estão Doritos Protein e SunChips Fiber, produtos que associam marcas conhecidas a propostas relacionadas à proteína e às fibras. A estratégia procura alcançar consumidores que prestam mais atenção à composição dos alimentos sem depender exclusivamente da criação de marcas completamente novas.
Esse movimento acompanha uma transformação mais ampla na indústria alimentícia. Fabricantes procuram desenvolver opções que combinem conveniência, sabor e atributos nutricionais específicos, além de embalagens e porções adequadas a diferentes ocasiões de consumo.
Entretanto, a presença de proteína ou fibras não determina, isoladamente, a qualidade nutricional de um alimento. O teor de sódio, açúcares, gorduras e o tamanho da porção também precisam ser considerados.
Para a PepsiCo, o desafio é conquistar consumidores interessados nessas características sem afastar o público que continua comprando as versões tradicionais. A aceitação dos lançamentos e a capacidade de manter preços competitivos serão determinantes para o desempenho da estratégia.
O que as mudanças significam para o mercado brasileiro?

As tendências observadas nos Estados Unidos oferecem sinais para o setor brasileiro de alimentos e bebidas, mas seus efeitos não devem ser reproduzidos automaticamente no Brasil.
Diferenças de renda, poder de compra, preços, hábitos alimentares e acesso a medicamentos podem alterar a velocidade dessas transformações. No mercado brasileiro, a sensibilidade ao preço continua sendo um fator relevante para as decisões de compra de muitas famílias.
A procura por produtos com mais proteína, fibras ou menos açúcar pode abrir oportunidades para fabricantes, mas o crescimento dependerá da capacidade de oferecer alternativas compatíveis com o orçamento dos consumidores.
As mudanças também podem ultrapassar quem utiliza medicamentos para perda de peso. Quando uma pessoa modifica seus hábitos alimentares, as compras e refeições compartilhadas pela família podem mudar, afetando a procura por diferentes categorias de produtos.
Ainda assim, seria prematuro atribuir eventuais mudanças no consumo brasileiro exclusivamente aos medicamentos GLP-1. Inflação, renda, preços relativos e preferências individuais também influenciam a demanda.
Conclusão: recuperação das vendas será decisiva para a PepsiCo
O principal desafio da PepsiCo é transformar a inovação em crescimento efetivo das vendas. O avanço da receita reportada, sustentado em parte por aquisições e pela composição comercial, não elimina a preocupação com a queda persistente do volume de bebidas na América do Norte.
A aposta em marcas tradicionais, alternativas como a Poppi e produtos com novos atributos nutricionais pode ajudar a companhia a acompanhar as mudanças no consumo. No entanto, a estratégia dependerá da aceitação dos consumidores, dos preços e da capacidade de preservar as margens.
A PepsiCo não precisa apenas aumentar o faturamento: precisa voltar a vender mais e conquistar espaço em um mercado cada vez mais competitivo. Se conseguir transformar as mudanças nos hábitos alimentares em oportunidades comerciais, a companhia poderá fortalecer seu portfólio. Caso contrário, os ganhos de receita poderão continuar escondendo uma demanda enfraquecida.
