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Lulinha foi procurado por lobista para atuar em interesse do Careca do INSS, diz PF

Mensagens levaram a PF a apurar se lobista pediu ajuda de Lulinha em negócios do Careca do INSS. Contratos com a Saúde não foram fechados.

Bruna MachadoPor Bruna Machado··12 min de leitura
inss lulinha

Mensagens analisadas pela Polícia Federal levantaram uma nova suspeita envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e Antônio Camilo Antunes, empresário conhecido como Careca do INSS.

Segundo a interpretação apresentada pela PF, a lobista Roberta Luchsinger teria cobrado uma atuação de Lulinha para facilitar negócios de interesse de Antônio Camilo junto ao Ministério da Saúde. As tratativas envolviam produtos à base de canabidiol e kits para diagnóstico de dengue.

Nenhum desses contratos foi fechado com o ministério. Também não existe, até o momento, uma decisão judicial que declare Lulinha, Roberta ou outros citados culpados pelos fatos investigados.

A defesa do filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nega que ele tenha participado de reuniões, interferido no governo ou atuado em favor do Careca do INSS. O material integra uma investigação ainda em andamento e está sob sigilo.

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O que a Polícia Federal encontrou nas mensagens?

Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

As conversas foram extraídas de materiais reunidos pela Polícia Federal durante os desdobramentos da Operação Sem Desconto, investigação sobre descontos associativos não autorizados em benefícios do INSS.

Parte do conteúdo foi apresentada pela PF em uma representação encaminhada ao Supremo Tribunal Federal. O ministro André Mendonça autorizou a abertura de inquérito para investigar uma possível prática de tráfico de influência.

De acordo com reportagens que tiveram acesso ao material, mensagens enviadas por Roberta Luchsinger em janeiro de 2025 indicariam uma cobrança por rapidez na tentativa de viabilizar os negócios.

Em uma conversa com Gustavo Gaspar, empresário e ex-assessor do senador Weverton Rocha, Roberta teria relatado que Antônio Camilo a pressionava para acelerar as tratativas. Ela também teria dito que seria necessário “o Fábio se mexer”.

A PF interpretou esse diálogo como um indício de que as demandas do Careca do INSS dependeriam de uma possível intervenção de Lulinha.

Essa é, contudo, uma interpretação dos investigadores. A apuração ainda precisa esclarecer se Lulinha recebeu a solicitação, se tomou alguma providência e se houve tentativa concreta de interferência dentro do governo.

Quais negócios estavam sendo discutidos?

Os diálogos mencionam pelo menos dois grupos de produtos que poderiam ser oferecidos ao Ministério da Saúde: substâncias derivadas do canabidiol e kits destinados ao diagnóstico de dengue e outras arboviroses.

Canabidiol é uma substância encontrada na planta Cannabis e utilizada em determinados tratamentos médicos, sob regras sanitárias específicas. Já as arboviroses são doenças transmitidas principalmente por mosquitos, como dengue, zika e chikungunya.

A investigação também identificou discussões envolvendo possíveis parcerias com a Indústria Química do Estado de Goiás, a Iquego.

Segundo as informações divulgadas, as propostas não avançaram por obstáculos técnicos ou legais. O ponto mais importante para compreender o caso é que nenhum dos contratos investigados foi efetivamente celebrado pelo Ministério da Saúde.

Ausência de contrato encerra a suspeita?

Não necessariamente. A investigação sobre tráfico de influência não depende apenas da celebração de um contrato público.

Os investigadores podem apurar se alguém solicitou vantagem ou alegou possuir influência sobre servidores públicos, mesmo que o negócio pretendido não tenha sido concluído.

Por outro lado, o fracasso das tratativas é relevante para delimitar os fatos. Até agora, não foi demonstrado que esses contatos resultaram em compra pública, pagamento do governo ou benefício obtido por meio de contrato com o Ministério da Saúde.

Por que a PF cita a mudança de Lulinha para a Espanha?

Nas conversas atribuídas a Roberta, a mudança de Lulinha para a Espanha aparece como uma espécie de prazo para tentar concluir as articulações.

A lobista teria afirmado que era necessário acelerar as tratativas porque “Fábio vai embora”. Lulinha mudou-se definitivamente para a Espanha em 2025 e abriu uma empresa em Madri no início de 2026.

Para a PF, as referências ao prazo podem indicar que Roberta considerava a presença de Lulinha no Brasil importante para o avanço das propostas.

A defesa apresenta outra explicação. Segundo os advogados, a mudança já era preparada desde 2024 por motivos profissionais e não tinha ligação com os negócios investigados.

Qual seria a participação de integrantes do governo?

As mensagens também mencionam Swedenberger do Nascimento Barbosa, conhecido como Berger, que ocupou o cargo de secretário-executivo do Ministério da Saúde.

Roberta teria escrito que era preciso pressioná-lo para acelerar a compra dos kits. As conversas, no entanto, não comprovam por si mesmas que o ex-secretário tenha aceitado a proposta ou tomado alguma medida irregular.

Outro nome citado é Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente Lula. Em mensagens de 2024, Roberta teria pedido que ele procurasse Berger e pressionasse pelo andamento das demandas.

Uma das conversas atribuídas à lobista afirma que Lulinha, durante uma viagem a Portugal, teria pedido que Marcola tratasse dos assuntos com o então secretário.

A defesa de Marcola nega que ele tenha intermediado negócios ou enviado documentos relacionados a compras e licitações no Ministério da Saúde, na Agência Nacional de Vigilância Sanitária ou em qualquer outro órgão federal.

O que é tráfico de influência?

O crime de tráfico de influência está previsto no artigo 332 do Código Penal. Ele ocorre quando alguém solicita, exige, cobra ou obtém vantagem, para si ou para outra pessoa, alegando que pode influenciar um ato praticado por um servidor público.

Em linguagem simples, é a situação em que uma pessoa procura receber dinheiro ou outro benefício dizendo que consegue interferir em uma decisão do poder público.

A pena prevista é de dois a cinco anos de reclusão, além de multa. A punição pode ser aumentada quando o agente insinua que parte da vantagem também será destinada ao funcionário público.

Nem toda conversa com uma autoridade ou defesa de interesse empresarial configura crime. Empresas podem apresentar produtos ao governo, participar de audiências e acompanhar processos administrativos de maneira legal.

A investigação precisa demonstrar elementos adicionais, como a existência de vantagem indevida e a alegação de influência sobre um ato de funcionário público.

No caso envolvendo Lulinha, o inquérito procura justamente determinar se houve uma tentativa criminosa de interferência ou apenas conversas que não produziram qualquer atuação concreta.

Quem é o Careca do INSS?

Antônio Camilo Antunes ficou conhecido como Careca do INSS ao ser apontado como um dos principais investigados na Operação Sem Desconto.

A operação foi iniciada para apurar um esquema nacional de descontos associativos realizados sobre aposentadorias e pensões. Segundo a investigação, beneficiários teriam sofrido cobranças sem autorização válida.

Antônio Camilo foi preso durante os desdobramentos do caso. A prisão e as suspeitas relacionadas aos descontos do INSS não representam uma condenação definitiva.

O empresário também mantinha interesses em outros setores, incluindo negócios ligados à cannabis medicinal e a produtos para diagnóstico de doenças.

A apuração agora tenta descobrir se recursos e relações construídas em torno dele foram usados para buscar contratos em outras áreas do governo.

Qual era a relação entre Roberta e o Careca do INSS?

Roberta Luchsinger prestou serviços a Antônio Camilo e aparece nas investigações como uma pessoa que buscava contatos e oportunidades comerciais para o empresário.

Em manifestação anterior, ela reconheceu ter apresentado Lulinha ao Careca do INSS, mas negou que o encontro tivesse finalidade comercial. Segundo sua versão, a apresentação ocorreu por educação e não resultou em negócios entre os dois.

A lobista também realizou transferências para Marcola. Informações divulgadas inicialmente apontavam valores estimados, mas o ex-chefe de gabinete declarou posteriormente ter recebido R$ 249 mil.

Marcola sustenta que o dinheiro correspondeu a um empréstimo pessoal e que não existiu ilegalidade. A origem, a finalidade e a eventual relação desses pagamentos com as tratativas comerciais estão entre os pontos que precisam ser esclarecidos.

O que a defesa de Lulinha diz?

A defesa afirma que Lulinha nunca realizou reunião nem fez intervenção em benefício do Careca do INSS.

O advogado Marco Aurélio de Carvalho classifica a análise da PF como um conjunto de inferências não conclusivas. Segundo ele, não existiria nos autos prova de uma ação praticada por seu cliente para favorecer os negócios mencionados.

Os advogados também afirmam que Lulinha vive na Espanha com a renda de seu trabalho e possui vínculo profissional com uma empresa sem relação direta ou indireta com o governo brasileiro.

A posição da defesa deve ser considerada porque as mensagens divulgadas mostram principalmente falas atribuídas a Roberta e seus interlocutores. A investigação ainda precisa determinar o que Lulinha efetivamente sabia e fez.

As defesas de Roberta Luchsinger e Antônio Camilo não apresentaram manifestação específica sobre as novas informações divulgadas. A defesa de Roberta afirmou anteriormente que responderia dentro dos autos.

Inquérito significa que a PF já encontrou provas do crime?

Não. O inquérito é uma etapa de investigação utilizada para reunir documentos, depoimentos, dados financeiros, perícias e outros elementos.

A abertura de um inquérito indica que existem fatos que justificam uma apuração formal. Ela não equivale a denúncia, condenação ou comprovação de culpa.

Ao final das diligências, a PF poderá apresentar suas conclusões. O material será analisado pelo Ministério Público, que poderá pedir novas investigações, oferecer denúncia ou entender que não existem elementos suficientes para uma acusação.

Caso uma denúncia seja apresentada, o Judiciário ainda precisará decidir se a recebe. Somente depois ocorre uma ação penal na qual acusação e defesa podem apresentar provas e argumentos.

Por que o caso está no STF?

O material foi encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, em razão de possíveis conexões com pessoas que possuem foro por prerrogativa de função.

Foro por prerrogativa é a regra que determina que determinadas autoridades sejam investigadas e julgadas diretamente por tribunais superiores em situações relacionadas ao cargo.

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Lulinha não ocupa função pública e não possui foro próprio. A Procuradoria-Geral da República já defendeu que uma das investigações fosse enviada à primeira instância por não identificar autoridade com foro entre os investigados.

A definição do tribunal competente ainda faz parte das discussões processuais. Essa decisão trata de onde o caso deve tramitar, e não da culpa ou inocência dos envolvidos.

Qual é a relação com a Operação Sem Desconto?

A Operação Sem Desconto investiga o esquema de cobranças associativas sobre benefícios previdenciários. As possíveis tentativas de negócios com o Ministério da Saúde constituem uma frente diferente, embora tenham surgido a partir de materiais apreendidos na operação.

Isso significa que os contratos de canabidiol e kits de dengue não são os mesmos descontos investigados no INSS.

A ligação entre os casos está nas pessoas citadas e nas provas obtidas durante as diligências. Ao analisar celulares, documentos e movimentações, a PF encontrou informações que justificaram novas linhas de investigação.

Essa separação é importante para evitar a conclusão de que todo fato citado na apuração possui relação direta com o dinheiro descontado dos aposentados.

O que ainda precisa ser esclarecido?

A investigação possui perguntas centrais que ainda não foram respondidas de maneira definitiva:

  • Lulinha recebeu os pedidos mencionados por Roberta?
  • Ele procurou integrantes do Ministério da Saúde?
  • Houve solicitação ou promessa de vantagem financeira?
  • Roberta falava em nome de Lulinha ou usava o nome dele sem autorização?
  • Os pagamentos realizados a outros envolvidos tinham relação com os negócios?
  • Algum servidor público tomou providência irregular?
  • Por que as propostas foram rejeitadas ou não avançaram?
  • Quem receberia comissões se os contratos fossem fechados?

As respostas dependerão da análise integral das conversas, dos depoimentos, das movimentações financeiras e dos documentos administrativos. Trechos isolados ajudam a compreender a suspeita, mas não substituem a apuração completa.

Caso exige cautela até a conclusão da investigação

As mensagens colocaram sob investigação uma possível tentativa de usar relações políticas para favorecer negócios privados no Ministério da Saúde.

A principal suspeita da PF é que Roberta Luchsinger tenha buscado a atuação de Lulinha para impulsionar interesses do Careca do INSS. Ao mesmo tempo, os contratos não foram assinados e a defesa nega qualquer interferência do filho do presidente.

O próximo passo será o aprofundamento das diligências e a definição de onde o inquérito continuará tramitando. Até que as autoridades concluam o trabalho, os envolvidos devem ser tratados como investigados, e não como culpados.

Perguntas frequentes

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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

Do que Lulinha é suspeito?

A PF apura se Lulinha foi procurado para influenciar integrantes do Ministério da Saúde em negócios de interesse do Careca do INSS. A defesa nega que ele tenha feito qualquer intervenção.

Lulinha foi condenado no caso?

Não. O caso está em fase de investigação e não há condenação pelos fatos relatados.

Os contratos com o Ministério da Saúde foram assinados?

Não. As tratativas envolvendo canabidiol e kits de dengue não resultaram em contratos com o ministério.

O que as mensagens dizem?

Segundo a investigação, Roberta Luchsinger teria cobrado rapidez e afirmado que seria necessário Lulinha “se mexer”. A PF interpreta as falas como indícios, enquanto a defesa contesta essa conclusão.

O que é a Operação Sem Desconto?

É uma investigação da Polícia Federal sobre descontos associativos suspeitos realizados em aposentadorias e pensões do INSS.

Quem é Roberta Luchsinger?

É uma lobista e empresária que prestou serviços ao Careca do INSS e mantém relação de amizade com Lulinha. Ela é citada nas mensagens analisadas pela PF.

O que é tráfico de influência?

É o crime de solicitar ou obter vantagem alegando ter poder para influenciar uma decisão de servidor público. A conduta está prevista no artigo 332 do Código Penal.

Por que o caso está no Supremo?

O processo chegou ao STF devido a possíveis conexões com autoridades que possuem foro. A competência ainda é discutida, pois Lulinha não ocupa cargo público.

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