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Ex-presidente do INSS é alvo de investigação que indica R$ 250 mil mensais em desvios

PF expõe fraude bilionária no INSS envolvendo Stefanutto e Ahmed; esquema desviou R$ 6,3 bilhões em descontos irregulares.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes5 min de leitura
INSS Freepik e Canva 5

A Polícia Federal (PF) revelou na quinta-feira (13) novos detalhes sobre o maior escândalo de corrupção da história recente do INSS, envolvendo ex-presidentes, ex-diretores, operadores financeiros e entidades conveniadas. A nova fase da Operação Sem Desconto, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), aponta que mais de R$ 6,3 bilhões foram desviados em descontos fraudulentos aplicados a aposentados e pensionistas entre 2019 e 2024.

O epicentro da investigação envolve a Conafer (Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais do Brasil), entidade conveniada ao INSS para oferecer serviços aos segurados, mas que, segundo a PF, funcionava como plataforma para o maior esquema de apropriação ilegal de benefícios previdenciários já identificado no país.

A autarquia, que deveria proteger aposentados e pensionistas, tornou-se, nas palavras dos investigadores, “um celeiro para fraudadores com acesso privilegiado” — e isso incluiu altas posições de comando, como o ex-presidente Alessandro Stefanutto e o ex-ministro da Previdência Ahmed Mohamad Oliveira.

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A engenharia da fraude: como funcionava o esquema bilionário

Convênios legítimos se transformaram em porta de entrada para golpes

A Conafer firmou com o INSS, em 2017, um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) que permitia que aposentados autorizassem — voluntariamente — o desconto de taxas associativas diretamente do benefício.

O fraudadores transformaram esse mecanismo em uma máquina de desvio sistêmico de recursos públicos, utilizando:

  • Falsificação de fichas de filiação
  • Criação de cadastros com dados adulterados
  • Inserção de informações falsas nos sistemas do INSS
  • Processamento de descontos sem autorização dos beneficiários
  • Lavagem de dinheiro por empresas de fachada e até por uma pizzaria

Segundo a PF, mais de 650 mil benefícios previdenciários foram incluídos no sistema com filiações fraudulentas — somente via Conafer. Outras entidades também estão sob investigação.


O papel estratégico de Stefanutto, “O Italiano”

Ex-presidente do INSS recebia propinas mensais de R$ 250 mil

Preso na manhã desta quinta-feira (13), Alessandro Stefanutto foi apontado como peça-chave na sustentação do esquema dentro da autarquia. Documentos encaminhados ao STF mostram que ele recebia propinas mensais de R$ 250 mil, pagas por meio de:

  • Empresas de fachada
  • Operadores financeiros
  • Transferências disfarçadas como consultoria
  • Até uma pizzaria usada como “laranja”

As investigações revelam que:

  • Stefanutto ignorava alertas técnicos sobre irregularidades nas filiações
  • Autorizava repasses mesmo sem comprovação de adesão dos segurados
  • Liberava cadastros enviados pela Conafer sem checar a vontade dos beneficiários
  • Dava “aval institucional” para manter o esquema ativo

Para a PF, Stefanutto “exerceu papel de facilitador institucional do grupo criminoso”, atuando como blindagem interna da Conafer.


Ex-ministro da Previdência é alvo: pagamentos, apelidos e liberação irregular de milhões

Ahmed Mohamad Oliveira, ex-ministro de Bolsonaro, recebeu vantagens indevidas

O ex-ministro da Previdência e ex-diretor de Benefícios do INSS, Ahmed Mohamad Oliveira — anteriormente conhecido como José Carlos Oliveira — também integra o núcleo institucional da fraude, segundo a investigação.

Evidências encontradas pela PF incluem:

  • Planilha de fevereiro de 2023 com registro de pagamento de R$ 100 mil ao codinome “São Paulo Yasser”
    • Ahmed era chamado internamente de “Yasser” e “São Paulo”
  • Mensagens de WhatsApp enviadas por Ahmed ao operador Cícero Marcelino, agradecendo pagamentos
  • Decisões tomadas por ele sem respaldo técnico, liberando repasses ilegais

Entre essas decisões está o desbloqueio e liberação de R$ 15,3 milhões para a Conafer, sem exigir:

  • Comprovação das filiações
  • Assinaturas dos beneficiários
  • Documentos obrigatórios pelo ACT

Essa autorização, segundo os investigadores, permitiu a retomada do esquema em larga escala.


Esquema desviou mais de R$ 640 milhões apenas pela Conafer

A PF estima que entre 2017 e 2023 foram desviados mais de R$ 640 milhões somente via Conafer.

No total, considerando outras entidades conveniadas, o desfalque chega a R$ 6,3 bilhões, colocando o caso entre os maiores escândalos de corrupção do país desde o mensalão e a Lava Jato.

As fraudes atingiram diretamente aposentados e pensionistas, que tiveram descontos indevidos mensais de:

  • R$ 10
  • R$ 20
  • R$ 40
  • Em alguns casos, mais de R$ 70 por mês

Mesmo valores aparentemente pequenos se tornaram bilhões desviados quando somados ao longo de anos e aplicados em centenas de milhares de benefícios.


Como os criminosos ocultavam o dinheiro

A lavagem de dinheiro operava em múltiplas camadas, envolvendo:

Empresas de fachada

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Registradas em nome de laranjas, sem estrutura operacional.

Contratos fictícios

Simulavam consultorias e assessorias inexistentes.

Intermediários financeiros

Como Cícero Marcelino, responsável pela redistribuição das propinas.

Comércios “laranjas”

Incluindo uma pizzaria, usada para injetar e retirar dinheiro em espécie.


Prisões realizadas nesta fase da operação

A PF e a Controladoria-Geral da União (CGU) prenderam figuras centrais do esquema:

  • Alessandro Stefanutto, ex-presidente do INSS
  • Antônio Carlos Antunes Camilo (“Careca do INSS”) – já havia sido preso
  • André Paulo Felix Fidelis, ex-diretor de Benefícios
  • Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, ex-procurador-geral do INSS
  • Thaisa Hoffmann, empresária e esposa de Virgílio
  • Vinícius Ramos da Cruz, presidente do Instituto Terra e Trabalho (ITT)
  • Tiago Abraão Ferreira Lopes, diretor da Conafer
  • Cícero Marcelino de Souza Santos, operador financeiro
  • Samuel Chrisostomo do Bonfim Júnior, ligado à Conafer

Segundo a PF, novas prisões podem ocorrer nas próximas semanas.


O impacto para milhões de aposentados

O esquema atingiu uma população extremamente vulnerável. Os principais efeitos foram:

  • Descontos mensais sem autorização
  • Redução de renda de beneficiários de baixa renda
  • Dificuldade para cancelar cobranças
  • Prejuízo acumulado por anos
  • Falta de mecanismo rápido de ressarcimento

O Ministério da Previdência estuda criar um programa de devolução, mas ainda não há prazo para implementação.

Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

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Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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