O Pix entrou em uma nova etapa de expansão que pode mudar a forma como brasileiros fazem pagamentos e transferências para a Europa. O Banco Central (BC) e o Banco Central Europeu (BCE) iniciaram nesta quinta-feira (24) uma avaliação conjunta sobre a possibilidade de conectar o sistema brasileiro ao Target Instant Payment Settlement (TIPS), infraestrutura de pagamentos instantâneos do Eurosistema.
A iniciativa ainda está em fase de estudos. Isso significa que não existe, neste momento, um “Pix internacional” oficial funcionando diretamente entre Brasil e Europa. Antes de uma eventual implementação, serão analisados aspectos tecnológicos, operacionais, jurídicos e comerciais da conexão.
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O objetivo é permitir que infraestruturas de pagamentos instantâneos de diferentes jurisdições possam conversar entre si. No caso brasileiro, a conexão envolveria o Pix e a infraestrutura de pagamentos instantâneos operada pelo Eurosistema.
O TIPS permite a liquidação de pagamentos instantâneos e atualmente trabalha com o euro, além de contar com operações em coroas dinamarquesas e suecas. A proposta em avaliação é criar uma ponte entre sistemas que hoje funcionam de maneira independente.
Na prática, isso poderia permitir que uma transferência internacional fosse processada com maior velocidade e que o recebedor tivesse acesso aos recursos em sua moeda local, dependendo das regras e do modelo que eventualmente venha a ser adotado.
O Banco Central já incluiu a interoperabilidade internacional na agenda de evolução do Pix. O Relatório de Gestão do Pix 2023-2025, divulgado em agosto de 2026, aponta a ampliação da integração com outros serviços financeiros e sistemas internacionais como uma das frentes para os próximos ciclos.
O que muda para quem usa Pix no exterior
Ainda não é possível fazer um Pix internacional diretamente
Um ponto importante para o consumidor é que a iniciativa anunciada pelo BC não significa que o Pix brasileiro passou a funcionar automaticamente na Europa.
Atualmente, existem soluções privadas que permitem que brasileiros utilizem o Pix em determinados estabelecimentos estrangeiros. Porém, essas operações dependem de empresas, instituições financeiras ou prestadores de serviços de pagamento que estruturam a operação internacional.
Nessas modalidades, o pagamento feito pelo consumidor pode ser recebido inicialmente por uma instituição no Brasil, enquanto a liquidação com o estabelecimento estrangeiro ocorre por mecanismos próprios de câmbio e transferência internacional.
Uma eventual conexão entre infraestruturas públicas seria diferente. A ideia seria estabelecer uma comunicação direta entre sistemas instantâneos de diferentes países ou regiões, criando condições para que pagamentos transfronteiriços sejam processados de maneira mais integrada.
Compras e remessas podem ser beneficiadas
Para um brasileiro viajando pela Europa, por exemplo, uma integração futura poderia facilitar pagamentos em estabelecimentos que participassem do sistema compatível. Em vez de depender de uma cadeia tradicional de operações internacionais, a infraestrutura poderia permitir uma liquidação mais rápida.
O mesmo conceito poderia ser aplicado a remessas de dinheiro, pagamentos por serviços e outras operações internacionais, sempre dependendo das regras cambiais, limites, tarifas e instituições participantes.
Isso não significa, porém, que o usuário deixaria de lidar com conversão de moedas. Uma transação entre reais e euros continua envolvendo câmbio. O possível ganho estaria principalmente na forma como as infraestruturas processariam e liquidariam a operação.
Pix já movimenta bilhões e ganha espaço internacional
A escala do Pix ajuda a explicar por que o sistema brasileiro passou a ser considerado para iniciativas de interoperabilidade internacional.
Segundo o Banco Central, o Pix registrou quase 80 bilhões de transações em 2025 e movimentou mais de R$ 35 trilhões ao longo do ano. Ao final daquele período, 148 milhões de pessoas físicas e 12,8 milhões de empresas haviam utilizado o sistema.
No primeiro semestre de 2025, o Pix respondeu por 50,9% da quantidade de transações de pagamento realizadas no país, com 36,9 bilhões de operações.
Esse nível de utilização transforma o Pix em uma infraestrutura relevante não apenas para pagamentos domésticos, mas também para projetos de conexão entre sistemas nacionais.
Por que conectar sistemas de pagamentos é importante
O interesse pela interoperabilidade internacional está relacionado a um problema antigo: transferências entre países podem envolver diferentes sistemas, intermediários, moedas, horários de funcionamento e custos.
Estudo divulgado pelo Banco Central Europeu em 24 de setembro de 2026 analisou justamente a conexão entre sistemas domésticos de pagamentos rápidos. Segundo a pesquisa, países com sistemas interligados apresentaram, na análise econométrica, cerca de 4% mais comércio entre si do que países sem esse tipo de conexão. O estudo também aponta potenciais ganhos de velocidade, transparência e redução de custos.
Para o consumidor, isso pode representar operações internacionais mais simples. Para empresas, uma infraestrutura mais eficiente pode facilitar pagamentos a fornecedores, recebimentos de clientes e outras transações transfronteiriças.
O que ainda precisa acontecer antes do Pix chegar à Europa

A avaliação anunciada pelo BC é apenas uma etapa inicial. Ainda será necessário definir como ocorreriam a comunicação entre os sistemas, a conversão das moedas, a liquidação financeira, a identificação dos participantes, o tratamento de fraudes e as responsabilidades de cada instituição.
Também entram na análise questões regulatórias e jurídicas de dois ambientes financeiros diferentes.
Além disso, a experiência brasileira com pagamentos internacionais já vem sendo acompanhada por mudanças nas próprias regras do mercado. O BC aprovou, por exemplo, nova regulamentação para serviços de pagamento e transferência internacional, com regras voltadas a segurança, transparência e supervisão. A Resolução BCB nº 561 entra em vigor em 1º de outubro de 2026.
Portanto, o anúncio desta quinta-feira representa o início de uma avaliação, e não o lançamento de um Pix europeu. Se a conexão avançar, poderá abrir caminho para uma nova geração de pagamentos internacionais, com operações potencialmente mais rápidas e integradas entre Brasil e Europa.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
