O número de cirurgias plásticas mamárias realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) cresceu 54,3% entre 2016 e 2025, segundo levantamento citado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – Regional Rio de Janeiro (SBCP-RJ). O volume passou de cerca de 9 mil procedimentos no início da série para 14.213 em 2025, totalizando 90.648 internações no período.
O avanço chama atenção, mas os números precisam ser interpretados corretamente. Quando se fala em “cirurgia plástica de mama” no SUS, não se trata apenas de procedimentos estéticos. A maior parte das operações contabilizadas tem finalidade reparadora ou funcional, incluindo casos de hipertrofia mamária, deformidades, assimetrias importantes e reconstruções após o tratamento do câncer.
A reconstrução mamária, inclusive, faz parte das políticas de atenção oncológica do SUS. O Ministério da Saúde mantém uma estratégia específica para ampliar o acesso à reconstrução após mastectomia, com hospitais habilitados para realizar o procedimento.
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O crescimento observado ao longo da década está relacionado, em grande medida, à demanda por procedimentos que não têm finalidade exclusivamente estética.
Uma cirurgia mamária pode ser indicada quando o tamanho, o formato ou a ausência da mama provoca consequências físicas, funcionais ou decorrentes de uma doença. Nesses casos, o objetivo do procedimento é corrigir uma condição de saúde, e não simplesmente modificar a aparência.
De acordo com o levantamento, 82,3% das internações registradas entre 2016 e 2025 correspondiam a procedimentos de plástica mamária não estética. Foram 74.619 internações nessa categoria.
Esse grupo inclui situações como:
- hipertrofia mamária, quando o volume excessivo das mamas provoca dores e limitações;
- assimetrias mamárias importantes;
- deformidades congênitas;
- alterações provocadas por doenças;
- sequelas decorrentes de tratamentos médicos;
- procedimentos reparadores indicados por avaliação clínica.
Por isso, interpretar o crescimento como uma expansão da cirurgia estética pelo SUS seria incorreto.
A cirurgia plástica pode ter finalidade funcional
Uma pessoa com mamas muito grandes, por exemplo, pode apresentar dores persistentes nas costas, pescoço e ombros, além de dificuldades para realizar determinadas atividades.
Nesses casos, uma cirurgia de redução mamária pode ser considerada um procedimento reparador, desde que exista indicação médica e que o caso se enquadre nos critérios do sistema público.
O caminho, porém, não começa diretamente com o cirurgião plástico. A avaliação normalmente passa pela rede de atenção à saúde, que identifica a necessidade e encaminha o paciente para o atendimento especializado conforme os fluxos locais.
Reconstrução mamária após o câncer também pesa nos números
Outro componente importante da estatística são as cirurgias realizadas depois do tratamento do câncer de mama.
O levantamento contabilizou 12.600 internações para reconstrução pós-mastectomia com prótese e outras 3.429 para reconstrução pós-mastectomia total no período analisado.
A reconstrução tem uma importância que vai além da aparência. Ela pode fazer parte da recuperação da paciente após um tratamento que envolve a retirada parcial ou total da mama.
A legislação brasileira estabelece regras específicas para esse atendimento. A Lei nº 13.770/2018 determina que, quando houver condições técnicas, a reconstrução seja realizada no mesmo tempo cirúrgico da retirada da mama. A norma também contempla a possibilidade de reconstrução posterior quando isso não for possível inicialmente.
Como funciona a reconstrução pelo SUS
O Ministério da Saúde criou, em 2023, uma estratégia excepcional para ampliar o acesso à reconstrução mamária de mulheres com diagnóstico de câncer de mama.
A iniciativa permite a habilitação de hospitais de alta complexidade em oncologia para realizar reconstrução mamária pós-mastectomia total.
Isso é relevante porque a disponibilidade do procedimento depende da estrutura da rede pública. Não basta existir previsão legal: é necessário haver profissionais, equipamentos, hospitais habilitados e capacidade de atendimento.
A pandemia provocou uma forte queda nos procedimentos
O crescimento registrado na década não ocorreu de maneira linear.
Em 2020, durante o período mais crítico da pandemia de covid-19, foram realizadas apenas 4.547 cirurgias, aproximadamente metade do volume observado antes da crise sanitária.
A queda está relacionada à reorganização dos serviços de saúde para atender pacientes com covid-19 e à suspensão ou redução de procedimentos eletivos em diferentes períodos.
Com a retomada das atividades hospitalares, os números voltaram a crescer.
Esse comportamento ajuda a explicar por que uma comparação simples entre dois anos pode esconder o impacto da pandemia sobre a série histórica. O intervalo de dez anos oferece uma visão mais ampla da evolução do atendimento.
Onde as cirurgias de mama são mais realizadas
A distribuição dos procedimentos também revela diferenças importantes entre as regiões brasileiras.
Segundo o levantamento, o Sudeste concentrou 56,1% das internações registradas entre 2016 e 2025, com 50.848 procedimentos.
São Paulo aparece isoladamente na liderança, com 30.265 cirurgias no período. Na sequência estão:
- Minas Gerais: 9.836 procedimentos;
- Rio de Janeiro: 9.115;
- Rio Grande do Sul: 6.000;
- Bahia: 5.731.
A concentração não significa necessariamente que pacientes de outras regiões não tenham acesso à cirurgia. Parte dos atendimentos de alta complexidade é concentrada em centros de referência, que podem receber pacientes encaminhados de diferentes municípios.
Ainda assim, a diferença regional chama atenção para um desafio conhecido do SUS: ampliar e distribuir a capacidade de atendimento especializado pelo território nacional.
Como ficou a distribuição regional
Além do Sudeste, o levantamento aponta:
- Nordeste: 15.985 internações;
- Sul: 9.098;
- Centro-Oeste: 5.695;
- Norte: 3.022.
Os números mostram que o acesso aos procedimentos especializados não ocorre de maneira uniforme entre as regiões.
Quem pode fazer cirurgia plástica de mama pelo SUS?
Não existe uma regra segundo a qual qualquer pessoa que queira alterar o tamanho ou o formato das mamas terá direito automaticamente a uma cirurgia pelo SUS.
O sistema público prioriza procedimentos indicados por razões de saúde, reparação ou reconstrução.
A avaliação considera a situação individual do paciente e a indicação médica. Por isso, uma pessoa que acredita precisar de cirurgia deve procurar inicialmente uma unidade de saúde da rede pública.
Em termos práticos, o caminho pode envolver:
- atendimento inicial em uma unidade de saúde;
- avaliação clínica;
- encaminhamento para especialista, quando indicado;
- realização de exames;
- avaliação da necessidade do procedimento;
- inclusão no fluxo regulatório correspondente;
- atendimento hospitalar e cirurgia, quando houver indicação e disponibilidade.
Os detalhes podem variar conforme o município e o estado, já que a organização da rede é descentralizada.
Cirurgia pelo SUS é diferente de cirurgia estética particular
Uma das principais dúvidas sobre o tema é entender por que algumas cirurgias mamárias são realizadas gratuitamente pelo SUS enquanto outras não.
A diferença está principalmente na finalidade médica do procedimento.
Uma cirurgia realizada exclusivamente para atender a um desejo estético, sem indicação relacionada à saúde, não deve ser confundida com uma cirurgia reparadora ou funcional incorporada à rede pública.
Já uma intervenção necessária para corrigir uma condição que causa prejuízos físicos, reparar consequências de uma doença ou reconstruir uma mama retirada por câncer pode fazer parte da assistência oferecida pelo SUS.
Por isso, cada caso precisa ser avaliado individualmente.
Como solicitar avaliação para cirurgia mamária pelo SUS
Quem acredita ter indicação para uma cirurgia deve procurar a porta de entrada da rede pública de saúde de sua cidade.
Em geral, o primeiro passo é explicar ao profissional de saúde quais problemas estão sendo enfrentados. Em casos de hipertrofia mamária, por exemplo, é importante relatar dores, limitações funcionais e outros sintomas associados.
Quando existe histórico de câncer de mama e mastectomia, a reconstrução segue os fluxos da rede de atenção oncológica.
A própria estrutura do Ministério da Saúde lista hospitais habilitados para reconstrução mamária no SUS.
É preciso pagar alguma coisa?
O atendimento realizado pelo SUS não exige pagamento direto do paciente pelo procedimento que esteja contemplado na rede pública.
Entretanto, isso não significa que toda cirurgia solicitada será realizada imediatamente. A indicação médica, os critérios do procedimento, a regulação e a disponibilidade de atendimento influenciam o processo.
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Também é importante não confundir o direito ao atendimento com a garantia de realização em determinada data ou hospital.
Por que os números são importantes?
O crescimento de 54,3% em uma década mostra que a cirurgia mamária representa uma demanda relevante dentro da assistência hospitalar pública.
Mais do que uma questão estética, os dados ajudam a visualizar necessidades relacionadas à qualidade de vida, tratamento do câncer e recuperação de pacientes que passaram por alterações importantes nas mamas.
A expansão também coloca em evidência a necessidade de manter equipes especializadas e ampliar a capacidade dos hospitais que realizam esses procedimentos.
No caso da reconstrução pós-mastectomia, o próprio Ministério da Saúde adotou medidas específicas para aumentar a oferta, incluindo a habilitação de unidades para esse tipo de atendimento.
O que mudou para quem precisa de reconstrução após o câncer?
A legislação brasileira já assegura a reconstrução mamária em situações decorrentes do tratamento do câncer, observadas as condições clínicas e técnicas.
A Lei nº 13.770/2018 foi criada justamente para reforçar esse direito. Quando a reconstrução imediata não puder ser realizada, ela pode ser feita posteriormente, conforme avaliação médica.
A estratégia criada pelo Ministério da Saúde em 2023 representa outro movimento: ampliar a capacidade da rede pública para que mais pacientes consigam efetivamente acessar o procedimento.
Isso ajuda a explicar por que as estatísticas de cirurgias mamárias não devem ser lidas apenas como um indicador de procedimentos realizados. Elas também refletem a capacidade do sistema de responder a diferentes necessidades de saúde.
O que esperar daqui para frente
O aumento registrado até 2025 indica uma demanda consistente por cirurgias mamárias no SUS. A tendência, porém, não depende apenas do número de pacientes que precisam dos procedimentos.
Também entram nessa equação a capacidade hospitalar, a quantidade de profissionais especializados, a distribuição regional dos serviços e os investimentos na rede de alta complexidade.
A experiência da pandemia mostrou como rapidamente a oferta pode ser afetada quando o sistema precisa redirecionar recursos para uma emergência sanitária.
Para o paciente, portanto, o ponto mais importante é entender que a existência da cirurgia na rede pública não significa atendimento imediato. O acesso depende de avaliação médica e do fluxo de regulação da rede local.
Perguntas frequentes

O SUS faz cirurgia de redução de mama?
Sim. Procedimentos mamários podem ser realizados pelo SUS quando existe indicação médica e finalidade reparadora ou funcional, de acordo com os critérios e fluxos da rede pública.
O SUS faz reconstrução mamária depois do câncer?
Sim. A reconstrução mamária após mastectomia faz parte da assistência do SUS. O Ministério da Saúde mantém uma estratégia para ampliar o acesso ao procedimento em hospitais habilitados.
A reconstrução mamária pode ser feita junto com a mastectomia?
Quando existem condições técnicas, a legislação prevê que a reconstrução seja realizada no mesmo tempo cirúrgico da mastectomia. Se isso não for possível, o procedimento pode ocorrer posteriormente.
Quem quer reduzir os seios por causa de dores pode procurar o SUS?
Sim. A pessoa deve procurar uma unidade de saúde e relatar os sintomas. A equipe poderá avaliar a situação e, se houver indicação, encaminhar para atendimento especializado.
Cirurgia plástica pelo SUS é sempre estética?
Não. O levantamento mostra justamente o contrário: a maior parte das cirurgias mamárias contabilizadas no período tinha finalidade não estética, reparadora ou funcional.
A cirurgia pelo SUS é imediata?
Não necessariamente. Depois da avaliação médica, o paciente pode precisar passar por encaminhamento, exames, regulação e espera conforme a disponibilidade da rede.
Por que São Paulo concentra tantas cirurgias?
O estado possui uma grande rede de serviços de saúde e centros especializados. A concentração também pode refletir a organização regional da assistência de alta complexidade.



