A terapia celular CAR-T representa um dos avanços mais promissores da medicina moderna no combate ao câncer. Trata-se de uma imunoterapia personalizada que utiliza as próprias células de defesa do paciente para atacar tumores.
A sigla CAR-T vem de “Chimeric Antigen Receptor T-cell” (receptor quimérico de antígeno em células T), que são linfócitos T geneticamente modificados em laboratório para reconhecer e destruir células cancerosas.
O processo inicia com a coleta dos linfócitos T do paciente, que são enviados para um laboratório onde passam por manipulação genética.
Essa alteração torna-os capazes de identificar antígenos específicos na superfície das células tumorais. Depois, as células modificadas são reinfundidas no paciente, ativando um ataque direto e potente contra o câncer.
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Como funciona a terapia CAR-T?

Segundo o hematologista Renato Cunha, especialista que atuou no National Cancer Institute dos Estados Unidos, a lógica do tratamento é simples, mas extremamente eficaz:
- Coleta: Células T são retiradas do sangue do paciente;
- Modificação: As células recebem um gene que as torna capazes de reconhecer o câncer;
- Multiplicação: As células modificadas são cultivadas em laboratório para aumentar sua quantidade;
- Infusão: As células geneticamente alteradas são reintroduzidas no paciente para combater o tumor.
Esse método diferencia-se dos tratamentos convencionais porque “programa” o sistema imunológico para atacar especificamente o câncer, evitando danos maiores às células saudáveis.
Avanços da terapia CAR-T no tratamento do câncer
Resultados promissores em cânceres hematológicos
A terapia CAR-T já demonstrou resultados excepcionais principalmente em cânceres hematológicos, como leucemias, linfomas e mieloma múltiplo. Pacientes que não respondiam a outros tratamentos passaram a apresentar altas taxas de remissão, o que trouxe esperança para casos considerados até então incuráveis.
Desafios em tumores sólidos
Apesar do sucesso em cânceres do sangue, a terapia ainda enfrenta dificuldades em tumores sólidos — como câncer de pulmão, mama e pâncreas. Isso ocorre devido ao microambiente desses tumores, que cria uma barreira para as células CAR-T, dificultando o acesso e o ataque efetivo. Pesquisas continuam em andamento para superar esses obstáculos.
Barreiras para o acesso à terapia CAR-T no Brasil
Alto custo do tratamento
Atualmente, o maior desafio para a expansão do uso da terapia CAR-T no Brasil é o custo elevado. Uma única aplicação pode ultrapassar R$ 3 milhões por paciente, valor inacessível para a maioria da população. Esse preço alto se deve à tecnologia sofisticada e ao fato de o processo depender de laboratórios estrangeiros para a modificação das células.
Dependência de laboratórios estrangeiros
O Brasil ainda não possui infraestrutura própria para a produção dessas células modificadas, o que exige o envio das amostras para o exterior. Esse fator aumenta o custo e o tempo de espera pelo tratamento, dificultando sua incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Disponibilidade limitada a planos privados
Apesar da aprovação pela Anvisa de alguns tratamentos CAR-T — como Tisa-cel, Axi-cel e Cilta-cel —, estes estão disponíveis somente em planos de saúde privados, deixando o SUS sem acesso a essa tecnologia. Isso amplia a desigualdade no atendimento oncológico no país.
Acordo entre países do BRICS para nacionalizar a produção
Estratégia do governo brasileiro
O Ministério da Saúde anunciou uma articulação entre os países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) para criar uma infraestrutura nacional que permita a produção local da terapia CAR-T. Essa medida visa baratear o tratamento e facilitar sua incorporação no SUS, democratizando o acesso.
Benefícios da nacionalização
- Redução de custos: Com a produção local, o preço do tratamento pode cair drasticamente;
- Agilidade: A eliminação do envio internacional diminui o tempo de espera;
- Desenvolvimento científico: Estimula a pesquisa nacional e a autonomia tecnológica;
- Modelos de pagamento inovadores: A proposta inclui pagamento por desempenho, onde o valor pago varia conforme o sucesso do tratamento.
Futuro do tratamento oncológico no SUS
Controle do câncer como doença crônica
A meta do Ministério da Saúde não é apenas buscar uma cura universal para todos os tipos de câncer, mas tornar a doença controlável a longo prazo. A terapia CAR-T representa uma nova era na oncologia, na qual o foco está na qualidade de vida dos pacientes e no prolongamento da sobrevida.
Inclusão no SUS e impacto social
Caso o acordo seja concretizado, o Brasil poderá se tornar referência mundial no tratamento oncológico público, oferecendo uma tecnologia de ponta a milhares de pessoas que atualmente não têm acesso a ela. Isso representa um avanço histórico na política pública de saúde.
Pesquisa e desenvolvimento nacional

Estudos clínicos em andamento
Pesquisadores brasileiros já estão envolvidos em estudos clínicos que visam desenvolver a produção nacional da terapia CAR-T. Esses estudos comprovam a viabilidade técnica da implantação local e ajudam a preparar o país para receber a tecnologia de forma segura e eficaz.
Formação de especialistas
Além da produção, a iniciativa envolve treinamento de profissionais de saúde para manejar a terapia com segurança, garantindo o acompanhamento adequado dos pacientes.
Desafios a serem superados
Infraestrutura e investimento
Para viabilizar a produção nacional, será necessário investimento em infraestrutura laboratorial, equipamentos e recursos humanos qualificados.
Regulamentação e segurança
O uso da terapia CAR-T exige rigoroso controle regulatório para garantir a segurança dos pacientes, especialmente por ser uma técnica genética inovadora.
Educação e conscientização
É fundamental que a população e os profissionais de saúde estejam bem informados sobre os benefícios e limitações da terapia para que as expectativas sejam realistas e o tratamento seja usado de forma adequada.
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