A Americanas (BVMF:AMER3), uma das maiores varejistas do país, divulgou na noite de quarta-feira (14) um prejuízo líquido de R$496 milhões no primeiro trimestre de 2025. O número representa uma reversão drástica em relação ao lucro de R$453 milhões registrado no mesmo período do ano passado, segundo relatório financeiro encaminhado ao mercado.
Americanas registra prejuízo de R$ 496 milhões no 1T25, revertendo lucro de R$ 453 milhões do ano anterior
A Americanas registrou prejuízo de R$496 milhões no primeiro trimestre de 2025, revertendo lucro de R$453 milhões em 2024.
Ainda em processo de recuperação judicial, a companhia enfrenta os impactos de uma crise sem precedentes, agravada pela fraude contábil bilionária descoberta em 2023 e que segue afetando sua estrutura e operação.
Leia mais:
Fraude na Americanas: PF mira funcionários do Itaú e Santander

Comparação com 2024: base distorcida por receitas extraordinárias
A própria Americanas reconhece que a comparação ano a ano foi comprometida, especialmente devido à inclusão de R$1,3 bilhão em receitas extraordinárias no balanço de 2024, referentes à execução do plano de recuperação judicial.
Sem esse efeito atípico, os resultados operacionais do 1T25 expõem fragilidade estrutural, mas também apontam para uma tentativa de estabilização, como explicou o presidente da empresa, Leonardo Coelho.
Ebitda negativo e queda expressiva na receita
O prejuízo líquido não veio sozinho. A Americanas também reportou um Ebitda ajustado negativo de R$20 milhões, resultado bem inferior ao Ebitda positivo de R$243 milhões apurado no primeiro trimestre de 2024.
Receita líquida em queda
A receita líquida da companhia caiu 17,4% na base anual, totalizando R$3,06 bilhões entre janeiro e março. Parte dessa retração se deve ao deslocamento da Páscoa, que em 2025 caiu em abril, ao passo que em 2024 ocorreu em março.
Segundo o presidente Leonardo Coelho, a Páscoa é uma das datas mais relevantes para o varejo, com impacto quase tão significativo quanto o Natal. A mudança de mês, portanto, interferiu diretamente no desempenho trimestral.
Crescimento acumulado no quadrimestre traz sinal de alento
Apesar do trimestre negativo, o executivo buscou apresentar um panorama mais otimista. Em entrevista à Reuters, Coelho afirmou que, considerando os quatro primeiros meses de 2025, a receita líquida da empresa cresceu cerca de 10% em relação ao mesmo intervalo de 2024.
Essa performance reflete um movimento de retomada gradual, impulsionado pela reorganização operacional e esforços para tornar a companhia mais eficiente e menos vulnerável.
Fechamento de lojas continua: 26 unidades encerradas no 1T25

Como parte de sua estratégia de saneamento e racionalização de operações, a Americanas encerrou 26 lojas no primeiro trimestre de 2025. Essas unidades não atendiam aos critérios de viabilidade definidos no plano de recuperação judicial.
Corte segue tendência iniciada em 2024
No ano passado, a companhia já havia fechado cerca de 80 pontos de venda. A meta agora é reorganizar o portfólio de lojas, mantendo as unidades mais rentáveis e avaliando novas aberturas estratégicas em regiões com maior potencial de crescimento.
“Estamos em busca de uma performance mais sustentável. As lojas que não se pagam, não têm por que continuar. Mas queremos voltar a crescer com responsabilidade”, afirmou Leonardo Coelho.
Aberturas previstas para o segundo semestre, com foco no Nordeste
Apesar dos fechamentos, a empresa não descarta expansão. O presidente da Americanas revelou que há planos de abertura de novas unidades ainda em 2025, com foco principal na região Nordeste.
O movimento é parte da estratégia de reposicionar a marca em mercados onde ainda há espaço para crescimento, mesmo diante da crise.
Dívida e estrutura financeira: desafios persistem
A Americanas encerrou o mês de março com uma dívida bruta de R$1,8 bilhão. Esse montante é composto por:
- R$1,8 bilhão em debêntures públicas
- R$61 milhões em empréstimos e financiamentos relacionados a empresas do grupo que não estão em recuperação judicial
Ainda que inferior às cifras bilionárias que figuravam nos balanços antes da crise, o endividamento continua sendo um obstáculo relevante para a empresa retomar uma posição de destaque no varejo brasileiro.
Crise contábil ainda assombra os resultados
A varejista ainda sofre os efeitos da fraude contábil revelada em janeiro de 2023, quando foi identificada uma inconsistência superior a R$20 bilhões nos balanços anteriores, fruto de práticas irregulares por parte da antiga diretoria.
A crise abalou profundamente a credibilidade da Americanas no mercado, derrubou suas ações na bolsa e resultou na abertura de processos judiciais e investigações criminais contra ex-executivos.
A lenta recuperação da confiança
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
Desde então, a empresa vem buscando reconstruir sua imagem junto a investidores, fornecedores e consumidores. O presidente Leonardo Coelho reconheceu que o processo é complexo:
“Essa não é uma crise da qual você sai rapidamente. É como uma operação de coração: você não sai da sala de cirurgia e no dia seguinte vai correr uma maratona.”
Ações da AMER3 seguem voláteis
O desempenho das ações da Americanas (AMER3) segue altamente volátil, refletindo a instabilidade do cenário interno da companhia e a desconfiança ainda presente no mercado.
Principais fatores que afetam o papel:
- Resultado financeiro instável
- Recuperação judicial em andamento
- Falta de previsibilidade de lucro
- Sentimento negativo do investidor institucional
Ainda assim, parte dos analistas acredita que, se a empresa conseguir manter o ritmo de reorganização e ampliar suas receitas nos próximos trimestres, poderá recuperar gradualmente parte do valor de mercado perdido.
Recuperação judicial: em que pé está?
A Americanas protocolou seu pedido de recuperação judicial em janeiro de 2023, depois da revelação da fraude contábil. O plano foi aprovado em assembleia no fim do mesmo ano e prevê:
- Corte de despesas fixas
- Redução de lojas deficitárias
- Renegociação de dívidas com credores
- Foco na digitalização e melhoria da experiência do cliente
O plano tem vigência até 2026, e qualquer descumprimento pode levar à falência da companhia. Por isso, cada trimestre é crucial para que a Americanas prove sua capacidade de execução.
Perspectivas para o segundo semestre

Apesar dos desafios, a Americanas pretende manter o foco em performance operacional, melhoria de margens, e reconstrução da confiança do consumidor e do investidor.
Entre as apostas para o segundo semestre estão:
- Abertura de novas lojas em regiões com potencial
- Ampliação de canais digitais de venda
- Lançamento de campanhas promocionais mais agressivas
- Reforço nas categorias de maior giro, como alimentos e cuidados pessoais
Imagem: caioacquesta/shutterstock.com
