A falta de reforma previdenciária adicional, incluindo o aumento da idade mínima, pode levar a um aumento de R$ 600 bilhões nas despesas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) até 2040. Esse alerta faz parte de um estudo inédito realizado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), que analisa o impacto do envelhecimento da população e da queda da fecundidade sobre as contas públicas brasileiras.
De acordo com a pesquisa, a Previdência Social pode atingir 8,3% do PIB em 2040, sem novas medidas. O estudo destaca que o envelhecimento demográfico é tão acelerado que, embora os brasileiros tenham envelhecido rapidamente nas duas últimas décadas, o desafio se intensificará nos próximos anos .
Neste artigo, destrinchamos o estudo do CLP, apresentamos os principais desafios e apontamos caminhos necessários para evitar a “bomba fiscal previdenciária”.
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A mudança demográfica e o envelhecimento acelerado
Idade mediana passou de 25 para 35 anos
Segundo o CLP, entre 2000 e 2025, a idade mediana da população brasileira cresceu 10 anos, passando de 25 para 35 anos. Essa tendência demográfica soma-se a uma taxa de fertilidade próxima da reposição, o que pressiona para que, em breve, mais da metade da população esteja acima dos 40 anos.
A pirâmide etária se invertendo
O estudo mostra que a cobertura de benefícios nos benefícios do INSS começa a subir a partir dos 50 anos:
- 45 a 54 anos: cerca de 5% já recebem algum benefício
- 55 a 59 anos: sobe para 30%
- Acima dos 65 anos: ultrapassa 80%
Essa curva reflete não apenas a aposentadoria por idade mínima (hoje 65 anos), mas também benefícios especiais, como o BPC (Benefício de Prestação Continuada) e aposentadorias rurais, que antecipam o acesso ao sistema previdenciário.
Projeção de gastos: 600 bilhões até 2040
Impacto no PIB e no Orçamento
Com base nas tendências demográficas e fiscais, o CLP projeta que os gastos com aposentadorias e o BPC podem chegar a 8,3% do PIB em 2040, representando um acréscimo de aproximadamente R$ 600 bilhões no custo previdenciário.
Riscos de saturação orçamentária
O crescimento expressivo dessas despesas pode sufocar outras áreas essenciais, como saúde, educação e infraestrutura, reduzindo a margem para investimento público e ameaçando o cumprimento dos piso constitucionais dessas áreas já na próxima década.
Por que a reforma de 2019 não basta?
Avanços, mas insuficientes
Embora a reforma de 2019 tenha introduzido idade mínima de 65 anos para homens (62 para mulheres), regras de transição e novas alíquotas, ela não foi suficiente para conter a explosão de gastos projetada pelo CLP. O envelhecimento demográfico seguiu mais rápido do que as mudanças implementadas .
Necessidade de ajustes contínuos
Para conter o crescimento dos gastos, será preciso revisar elementos como:
- Idade mínima
- Tempo mínimo de contribuição
- Fórmulas de cálculo
- Regras especiais (aposentadoria rural, BPC)
Além disso, a desvinculação do salário mínimo do reajuste dos benefícios é defendida por analistas para evitar incentivos que encareçam o orçamento.
Aumento da idade mínima: por que é necessário?

Dados do CLP indicam que, sem elevação na idade mínima – atualmente 65 anos – o sistema se tornará insustentável. Especialistas como Daniel Duque (CLP) e Pablo Lira (IJSN) defendem medidas graduais a partir de 2030, com revisões periódicas conforme a expectativa de vida .
Essas reformas evitariam choques abruptos, mas precisariam ser bem comunicadas à sociedade.
Repercussões nos benefícios assistenciais e rurais
BPC: assistencial, mas oneroso
O Benefício de Prestação Continuada, pago a idosos de baixa renda e pessoas com deficiência, já é o segundo maior gasto previdenciário – ficando atrás apenas das aposentadorias. O CLP alerta que o BPC deve ser melhor focalizado para evitar crescimento descontrolado .
Aposentadoria rural como apoio social
Aposentadorias rurais, por permitirem acesso antecipado, são vistas como bençãos de cunho assistencial, ainda que atualmente enquadradas no sistema previdenciário. O CLP propõe que elas sejam classificadas como benefícios assistenciais, com requisitos diferentes e mais restritivos.
Previdência privada e inclusão do idoso no mercado
Previdência complementar é urgente
Especialistas indicam que o governo federal deve estimular os planos de previdência complementar, tal como o Espírito Santo faz com o Previs para servidores. Isso ajudaria a reduzir a pressão sobre o regime público.
Trabalho na terceira idade
A proposta de permitir ou incentivar o trabalho entre 60 e 65 anos pode diluir parte da pressão previdenciária, permitindo que beneficiários, mesmo aposentados, complementem renda e adiem o uso pleno dos recursos públicos.
Cena macrofiscal: sofisticação orçamentária
Outras despesas em risco
Com os gastos previdenciários em elevação, as finanças públicas deverão priorizar manutenção de infraestrutura, educação (FUNDEB) e saúde, cuja previsão de gastos deve aumentar nos próximos anos – de 4,2% para cerca de 7,5% do PIB até 2040 .
Espiral orçamentária
Como os gastos previdenciários são obrigatórios, o crescimento dessas despesas reduz a margem para outras agendas. Isso ameaça até mesmo o cumprimento do piso da educação, projetado para ser comprometido já em 2027.
Medidas adicionais sugeridas pelo CLP

Desvinculação do salário mínimo
A proposta de desvincular o reajuste dos benefícios do salário mínimo evita indexação automática e ajuda a desacoplar os gastos previdenciários da política salarial geral .
Revisão periódica das regras
Alterações regulares, com regras automáticas ligadas à expectativa de vida, seriam mais sustentáveis do que reformas pontuais, que geram instabilidade e desgaste político.
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