A discussão sobre um novo marco legal para combater Devedores Contumazes, empresas que acumulam dívidas tributárias de maneira reiterada e estratégica, entrou em uma fase decisiva no Congresso Nacional. O projeto, que estava parado desde 2022, deve ser pautado nesta terça-feira (8) na Câmara dos Deputados, em regime de urgência, após movimentação direta do Ministério da Fazenda.
Projeto do devedor contumaz avança após negociação com Haddad e deve ser votado nesta semana
Projeto sobre devedores contumazes deve ser votado na Câmara e cria regras mais rígidas para empresas que acumulam dívidas tributárias de forma reiterada.
A proposta vem sendo tratada como prioridade pelo ministro Fernando Haddad, que vê no endurecimento contra Devedores Contumazes uma ferramenta crucial para reduzir a sonegação estrutural e aumentar a justiça tributária no país. O relator, deputado Antonio Carlos Rodrigues (PL-SP), publicou o parecer na sexta-feira (5), detalhando pontos sensíveis que devem impactar empresas de diversos setores da economia.
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O que está em jogo na nova legislação para Devedores Contumazes
O PLP 125/2022, que cria o Código de Defesa do Contribuinte, pretende estabelecer distinções mais claras entre empresas que enfrentam dificuldades momentâneas e aquelas que fazem da inadimplência um modelo de negócio.
O próprio parecer destaca que essa separação nunca foi tão necessária. Enquanto contribuintes regulares lidam com obrigações, multas e fiscalizações, os Devedores Contumazes crescem à sombra do não pagamento de tributos, criando uma vantagem competitiva artificial.
Conceito de Devedor Contumaz
O texto define o devedor contumaz como aquele que apresenta inadimplência substancial, comportamento reiterado e justificativas inconsistentes para a falta de pagamento.
Na prática, esses elementos formam um perfil de empresas que se utilizam do não pagamento sistemático de tributos como estratégia de mercado.
Essa definição é essencial, porque determina quais empresas poderão ter restrições mais pesadas aplicadas, como perda de benefícios fiscais, impedimento de participação em licitações e veto ao uso de recuperação judicial como ferramenta de postergação de dívidas.
Na visão do governo, a medida endurece contra Devedores Contumazes sem prejudicar negócios que enfrentam crises reais.
Regras propostas no texto
O projeto detalha um conjunto abrangente de dispositivos. Entre os pontos principais estão:
Definição de devedor contumaz
Critérios objetivos de inadimplência substancial, reincidência e ausência de justificativas plausíveis.
Perda de benefícios fiscais
Empresas caracterizadas como Devedores Contumazes poderão ser excluídas de programas de incentivos ou regimes diferenciados.
Restrição em licitações
O texto prevê que companhias com dívidas estruturais não poderão participar de compras públicas.
Limitação à recuperação judicial
O uso da recuperação judicial para adiar obrigações tributárias será restrito, caso haja enquadramento como Devedor Contumaz.
Programas de conformidade para bons pagadores
O projeto também olha para o outro lado da moeda: premiar quem cumpre suas obrigações.
Entre os programas propostos estão Confia, direcionado a grandes contribuintes; Sintonia, voltado ao público empresarial em geral; e OEA, com foco no comércio exterior.
Os benefícios incluem selo de conformidade e até redução da CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido).
Objetivo econômico: fortalecer concorrência leal
O relatório reforça que combater Devedores Contumazes não é apenas uma questão de arrecadação, mas de competição saudável. Empresas que cumprem suas responsabilidades alegam prejuízo pela concorrência desleal, que opera com custos artificialmente reduzidos pela sonegação.
Em trecho destacado, o parecer aponta que a vantagem competitiva espúria do devedor contumaz constitui enorme desserviço à eficiência do sistema econômico.
Além disso, o projeto quer reduzir o contencioso tributário e diminuir a dependência de programas de Refis sucessivos, que permitem renegociação frequente de dívidas.
Autorregularização: uma tentativa de equilíbrio
Uma das inovações do texto é a possibilidade de autorregularização antes da aplicação de multas. O contribuinte poderá reconhecer débito e apresentar plano de pagamento no prazo de até 120 dias.
Esse mecanismo busca desestimular ações judiciais desnecessárias, evitar desgaste entre empresas e Receita e reduzir custos de litígio.
Por que o tema ganhou prioridade agora
Embora o projeto tenha sido aprovado no Senado em outubro, seu avanço na Câmara somente se acelerou após operações recentes contra sonegação estruturada.
Entre elas, a Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto, revelou uma rede bilionária de fraudes envolvendo o PCC, distribuidoras do setor de combustíveis e fintechs.
Outra foi a Operação Poço de Lobato, alvo mais recente da Receita e da Polícia Federal, que identificou fraudes superiores a R$ 26 bilhões em uma refinaria. Essa operação foi determinante para destravar a tramitação do projeto, levando o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a designar Antônio Carlos como relator.
Movimentações políticas e cooperação internacional
Na última semana, Haddad recebeu Gabriel Escobar, encarregado de negócios dos Estados Unidos. O encontro tratou de medidas conjuntas para combater o crime organizado e a evasão fiscal transnacional.
Washington deve apresentar uma proposta de cooperação ampliada nas próximas semanas. Haddad afirmou que, se os Estados Unidos têm preocupação com facções, o Brasil também tem, e reforçou que somente a integração entre países pode gerar resultados concretos.
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A discussão reforça a dimensão internacional do problema dos Devedores Contumazes, que muitas vezes operam com redes de empresas-fantasma e movimentações complexas.
Expectativa de votação ainda em dezembro
O governo articula intensamente para que o texto seja aprovado ainda neste mês. A equipe econômica quer encerrar o ano com um avanço concreto na agenda de combate à sonegação e na reorganização tributária.
Após votado na Câmara, o projeto deve retornar ao Senado, já que foram feitas alterações relevantes no relatório.
Impactos esperados para a economia e para o ambiente de negócios
Economistas apontam que o projeto pode trazer efeitos positivos para o mercado, como:
Previsibilidade
Regras claras permitem que empresas entendam as consequências de atrasos e inadimplência reiterada.
Segurança jurídica
Critérios objetivos reduzem a subjetividade em decisões administrativas e judiciais.
Concorrência justa
O combate aos Devedores Contumazes tende a equilibrar mercados onde a sonegação virou prática recorrente, especialmente nos setores de combustíveis, bebidas e varejo.
Incentivo ao compliance
Programas como Confia e Sintonia podem estimular boas práticas de governança fiscal.
Especialistas destacam ainda que a redução do litígio, somada à autorregularização, pode gerar economia significativa ao setor público e reduzir gargalos na Justiça.
Conclusão
O avanço do projeto que endurece regras para Devedores Contumazes marca um movimento importante na tentativa do governo de modernizar a relação entre Fisco e contribuintes. Ao diferenciar empresas que não pagam impostos por necessidade daquelas que estruturam a inadimplência como modelo de negócio, o texto busca equilibrar concorrência, fortalecer políticas de compliance e combater redes sofisticadas de sonegação fiscal.
Agora, a expectativa se concentra na votação na Câmara. Se aprovado, o novo marco pode inaugurar uma etapa mais transparente e justa na política tributária brasileira, com reflexos diretos na arrecadação, no ambiente de negócios e na competitividade dos setores econômicos.
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