O Brasil ainda carrega uma característica estrutural: a informalidade no trabalho. Segundo dados do IBGE, aproximadamente 40 milhões de brasileiros estavam trabalhando na informalidade no trimestre encerrado em dezembro de 2024, representando 38,6% da população ocupada.
Informalidade atinge quase 40 milhões; economistas indicam soluções para futuro
Quase 40 milhões estão na informalidade no Brasil. Economistas sugerem estratégias de proteção social, finanças pessoais e previdência.
Apesar da queda recente no desemprego para níveis mínimos históricos, a falta de vínculo formal limita o acesso a direitos trabalhistas, benefícios previdenciários e renda estável.
Economistas avaliam que, diante de um mercado com alta informalidade, é urgente implementar estratégias de proteção social, educação financeira e qualificação profissional visando preparar esse contingente para os desafios do futuro.
Leia mais:
Governo negocia adiamento do tarifaço enquanto empresariado alerta contra retaliação
Quatro técnicos do INSS são afastados por suposta ligação com descontos ilegais
Panorama da informalidade no Brasil

Causas históricas e permanentes
Desde os anos 2000, o Brasil convive com elevado contingente de trabalhadores informais, resultado da precarização do emprego, falhas na regulação trabalhista e crescimento de atividades autônomas sem vínculo.
Na pandemia, essas tendências se intensificaram, consolidando-se em quase 40 milhões de pessoas trabalhando sem carteira ou CNPJ.
Perfil dos trabalhadores informais
Segmentos com alta concentração de informalidade incluem trabalhadores domésticos sem registro (quase 75% da categoria), autônomos sem CNPJ e empregadores informais.
No primeiro trimestre de 2025, cerca de 32,5 milhões atuavam como autônomos informais ou empregados sem carteira, representando 31,7% do total de trabalhadores ocupados .
Tendências por faixa etária
Economistas da FGV apontam que a informalidade entre trabalhadores com mais de 60 anos tem crescido, agravada pelas reformas da Previdência, que adiam a aposentadoria.
Segundo Bruno Ottoni, em breve poderemos enfrentar “uma crise com idosos sem renda” se não houver políticas específicas de proteção .
Consequências da informalidade no médio e longo prazo
Renda instável e acesso limitado à previdência
Trabalhadores informais costumam receber rendas menores e variáveis. O rendimento de um empregado com carteira é, em média, 51% maior que o de um autônomo sem CNPJ . Além disso, a contribuição ao INSS costuma ser irregular, dificultando o acesso à aposentadoria ou benefícios sociais.
Vulnerabilidade em situações de crise
Sem rede de proteção formal, trabalhadores informais enfrentam maiores riscos em períodos de recessão, doenças ou crises sanitárias – como ocorreu durante a pandemia. A ausência de direito a seguro-desemprego, auxílio-doença ou FGTS agrava a situação.
Impacto agregador para a economia
A economia informal reduz a arrecadação tributária, enfraquece direitos trabalhistas e reduz a base tributária sustentável. Isso compromete investimentos públicos e a capacidade de formulação de políticas sociais.
Caminhos sugeridos por economistas e instituições
Proteção social baseada na pessoa, não na ocupação
André Portela, da FGV, defende um modelo de proteção social centrado no trabalhador, não em categorias ocupacionais. Ou seja, garantir direitos independentemente do vínculo formal . A proposta envolve registro universal e acesso automático a benefícios básicos.
Educação financeira como ferramenta de resiliência
Especialistas em finanças pessoais, como Michael Viriato, destacam a importância de conscientizar trabalhadores informais sobre juros, poupança e investimentos.
Ele compara juros ao “trabalhador que pode ser empregado ou chefe” na relação financeira pessoal . Estratégias simples como poupar uma parte da renda irregular ajudam a construir segurança para o futuro.
Previdência complementar e empreendedorismo
Exemplos reais mostram que trabalhadores com tempo de contribuição parcial podem planejar a aposentadoria mesmo após os 60 anos.
Um exemplo citado: Simone, diarista com 52 anos, que planeja contribuir mais cinco anos e utilizar investimento conservador para renda mensal complementar de R$ 800.
Formalização parcial e captura de renda
Estruturas como microempreendedor individual (MEI), cooperativas ou plataformas digitais regulamentadas podem captar o valor pago pelos clientes e formalizar parte da renda, garantindo benefícios sociais e financiamentos.
Ilustrações reais do cotidiano informal
Narrativas de vida
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
“Faz tudo no meu cartão… Hoje consigo ganhar tipo 5 ou 6 mil sem me matar” – afirma Naldo, autônomo que troca estabilidade formal por flexibilidade.
“Se não quero trabalhar, não vou… não vale a pena assinar carteira” – diz Simone, diarista que prioriza autonomia financeira.
Muitas vezes esses trabalhadores não pensam em poupar ou planejar a aposentadoria, focando no presente e na sobrevivência do dia a dia.
Produção de microempreendimentos
Simone pretende montar uma microempresa de serviços domésticos para “dropar” do trabalho pesado e atuar como captadora de clientes. Isso mostra uma busca por autonomia, mesmo no segmento informal.
Desafios e oportunidades futuras
Plataforma digital e formalização
A “plataformização” do trabalho – ou seja, uso de apps e tecnologia para oferecer serviços – pode ser uma ponte para formalização parcial, registro tributário e acesso a benefícios previdenciários, desde que regulamentada com segurança jurídica e social.
Reformas estruturais necessárias
Segundo Fabio Giambiagi, José Luis Oreiro e outros economistas, é preciso avançar na regulamentação do trabalho informal, reformular a previdência e fortalecer programas de inclusão social e profissional para oferecer alternativas reais de formalização.
Cenários possíveis para os próximos anos

Cenário conservador
Se nenhuma política efetiva for implementada, a informalidade pode persistir acima de 35%, enquanto a população envelhece sem previdência sólida, gerando uma pressão crescente sobre o sistema público.
Cenário com intervenção estratégica
Com políticas de proteção centradas no trabalhador, educação financeira e incorporação de plataformas regulares, parte dos informais pode migrar para uma informalidade coesa, com renda sustentável e direitos mínimos assegurados.
Conclusão: entre proteção e preparação
A informalidade afeta quase 40 milhões de brasileiros e exige respostas integradas. Economistas sugerem um mix de políticas: socialização de direitos, educação financeira, formalização híbrida e previdência complementar.
Somente assim será possível preparar esses trabalhadores para os desafios de um mercado em transformação e garantir segurança e dignidade ao longo da vida laborativa.
