Os bancos brasileiros iniciaram a última semana de julho sob pressão, após a divulgação de dados do Banco Central que indicaram queda nas concessões de crédito e aumento da inadimplência. As ações dos principais bancos — Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil — registraram desvalorização na última segunda-feira (28), refletindo a preocupação dos investidores com os números.
Dados do BC mostram queda no crédito e aumento da inadimplência; entenda o impacto nos bancos
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A deterioração dos indicadores vem num momento estratégico para o setor financeiro, que iniciou a temporada de divulgação de balanços trimestrais. Os dados reforçaram o alerta para os desafios enfrentados pelas instituições, principalmente em relação à qualidade dos ativos e ao aumento de provisões.

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Banco Central: Queda nas concessões de crédito e inadimplência em alta
Segundo os dados divulgados pelo Banco Central, o crédito total cresceu 10,7% em junho na comparação anual, mas o número representa desaceleração frente aos meses anteriores. Em relação ao trimestre, o avanço foi de apenas 1,6%. O recuo foi puxado principalmente pelas concessões a empresas, que subiram 8,8% — uma desaceleração de 2,1 pontos percentuais (pp) em relação a maio.
No caso das pessoas físicas, o crescimento do crédito foi de 11,9%, com queda de 0,5 pp no ritmo anual. Ainda assim, houve aumento trimestral de 1,5 pp, indicando certa resiliência do consumo das famílias.
A inadimplência também seguiu trajetória de alta, atingindo 3,6% nos contratos com mais de 90 dias de atraso — o maior índice desde 2018. Entre as pessoas físicas, o índice subiu para 4,3%, enquanto entre as empresas permaneceu em 2,4%, com leve alta trimestral.
Spreads se mantêm elevados
Os spreads bancários — diferença entre os juros cobrados dos clientes e o custo de captação das instituições — permaneceram estáveis em 20,4%. No caso dos empréstimos para pessoas físicas, o spread ficou em 25,7%, enquanto os empréstimos corporativos registraram 9,0%.
A manutenção desses patamares elevados reflete tanto o risco embutido nas operações quanto a cautela das instituições em meio à piora na qualidade das carteiras.
Crédito rural no centro das atenções
Um dos maiores focos de preocupação no mercado tem sido o desempenho do crédito rural, cuja inadimplência atingiu 2,9%, permanecendo no nível mais alto já registrado para esse segmento. A deterioração no setor rural acumulou alta de 1,4 pp no segundo trimestre, de acordo com os dados do BC.
A situação é especialmente sensível para o Banco do Brasil, cuja carteira de crédito tem cerca de um terço exposto ao setor agropecuário, totalizando aproximadamente R$ 406 bilhões. Isso torna o banco mais vulnerável ao aumento de calotes no campo, em um cenário marcado por instabilidade climática e dificuldades de comercialização para produtores.
Deterioração generalizada nas carteiras
O relatório do Bradesco BBI apontou que houve deterioração da qualidade de crédito em diversos segmentos. Entre as pessoas físicas, os principais impactos foram observados em:
- Empréstimos pessoais: +0,8 pp no trimestre;
- Cartões de crédito: +0,7 pp;
- Crédito rural: +0,7 pp;
- Financiamento de veículos: +0,5 pp;
- Crédito para PMEs: +0,4 pp.
Como resultado, os bancos mais expostos a esses produtos enfrentaram maior pressão sobre as despesas com provisões, destinadas a cobrir possíveis perdas com inadimplência. O movimento já vem sendo precificado por investidores, que se mostram mais cautelosos com o setor financeiro.
Sinais positivos no trimestre
Apesar do cenário de aperto, houve uma leve melhora no índice de novos inadimplentes no segundo trimestre, comparado ao início do ano. O desempenho sazonalmente mais fraco do primeiro trimestre contribuiu para essa leitura marginalmente positiva. A exceção foi o crédito rural, que continuou apresentando deterioração mesmo com estabilidade na comparação mensal.
A análise da Genial Investimentos também reforçou a preocupação com o campo, destacando que a inadimplência rural subiu pelo quarto mês consecutivo. A consultoria classificou o quadro como desafiador, principalmente para instituições com exposição concentrada no setor.
Desaceleração do crédito de alto valor
Outro ponto observado pelo BBI foi a desaceleração dos grandes empréstimos corporativos e de alto valor para pessoas físicas. Ao mesmo tempo, o crédito para PMEs (pequenas e médias empresas) mostrou uma leve aceleração, o que pode ser um indicativo de tentativa de compensação da queda em operações maiores.
Apesar da desaceleração, os spreads seguem saudáveis nesses segmentos, o que mantém o interesse dos bancos em continuar operando nessas linhas.
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Perspectiva macroeconômica e projeções
O Goldman Sachs projetou que as condições de crédito devem continuar desafiadoras nos próximos meses, considerando o cenário de juros altos, crescimento econômico moderado e possível desaceleração no mercado de trabalho.
Por outro lado, o banco destaca a atuação dos bancos públicos e a expansão de novas linhas com garantia de folha de pagamento, que podem oferecer algum suporte ao ciclo de crédito no segundo semestre.
Clima de cautela entre investidores
Segundo o Itaú BBA, a percepção dos investidores estrangeiros em relação ao setor bancário brasileiro ficou mais cautelosa. Após uma rodada de encontros com fundos internacionais, o banco reportou que o entusiasmo por ações de bancos foi menor em comparação a visitas anteriores neste ano.
“A maioria dos investidores estava consolidando lucros ou aguardando novos desdobramentos antes de voltar a aumentar sua exposição ao setor financeiro”, destacou o relatório. O desempenho acumulado dos papéis em 2025 e o atual equilíbrio entre risco e retorno explicam a postura mais defensiva.
Expectativas com os balanços
Com a temporada de resultados do segundo trimestre em andamento, os analistas esperam que os números tragam maior clareza sobre a capacidade de absorção de perdas pelas instituições e sobre os planos de atuação para o segundo semestre.
A atenção do mercado está voltada especialmente para os resultados de bancos como Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil, que poderão indicar se o aumento da inadimplência já começou a impactar de forma mais intensa a rentabilidade e os índices de capital.

O cenário pintado pelos dados do Banco Central revelou uma combinação delicada de desaceleração do crédito e elevação da inadimplência, o que acendeu o sinal de alerta nos mercados financeiros. Com o crédito rural em deterioração contínua, bancos com forte exposição ao setor, como o Banco do Brasil, encontram-se sob maior escrutínio.
O segundo semestre de 2025 será decisivo para o setor bancário, com o desafio de manter a rentabilidade diante do aumento das provisões e da cautela dos investidores. Ainda que existam pontos de resiliência, como o crescimento de crédito para PMEs e a estabilidade de spreads, a expectativa é de um período de maior seletividade e pressão por eficiência nas instituições financeiras.
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