A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou uma medida que altera profundamente o acesso a medicamentos populares para emagrecimento como Ozempic, Wegovy e Saxenda. A partir de 60 dias após a publicação da norma no Diário Oficial da União (DOU), será obrigatória a retenção da receita médica para compra desses produtos.
Compra de Ozempic agora exige retenção de receita, decide Anvisa
Anvisa torna obrigatória a retenção da receita médica para venda de canetas emagrecedoras como Ozempic, Wegovy e Saxenda. Entenda os impactos da decisão.
A decisão, que modifica a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 471/2021, foi motivada por preocupações crescentes com o uso indiscriminado desses medicamentos, originalmente desenvolvidos para o tratamento de diabetes tipo 2, mas que se tornaram amplamente procurados por seu efeito de perda de peso.
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O que muda com a nova resolução

Até o momento, embora esses medicamentos já exigissem prescrição, muitos estabelecimentos comercializavam as canetas emagrecedoras sem a apresentação da receita. A nova determinação da Anvisa exige não só a prescrição, mas também sua retenção na farmácia, o que impede reutilizações ou compras múltiplas com a mesma receita.
Pressão do CFM e riscos à saúde
A regulamentação acontece após o Conselho Federal de Medicina (CFM) emitir uma carta alertando sobre os riscos da popularização dos remédios para emagrecimento sem acompanhamento médico.
Segundo o diretor da Anvisa, Daniel Pereira, a medida busca preservar a saúde pública diante de um mercado que falhou em conter o uso irracional dos produtos. Ele ressaltou que há registros crescentes de automedicação e consumo entre pessoas que não têm indicação clínica para os remédios.
Canetas emagrecedoras: o que são e como funcionam?
De tratamento para diabetes ao emagrecimento rápido
Medicamentos como Ozempic e Wegovy, à base de semaglutida, foram desenvolvidos originalmente para o controle da diabetes tipo 2. No entanto, estudos revelaram sua eficácia na redução do apetite e na perda de peso, o que expandiu seu uso para o tratamento da obesidade.
Outra substância usada é a liraglutida, presente nos medicamentos Saxenda e Victoza, que também age no controle da glicose e da saciedade.
Mecanismo de ação
Essas substâncias atuam de forma parecida ao hormônio GLP-1, produzido naturalmente pelo intestino. Seus efeitos envolvem:
- Hipotálamo: aumenta a sensação de saciedade
- Fígado: reduz a produção de glicose
- Pâncreas: estimula a secreção de insulina
O resultado é a redução de até 17% da massa corporal em um ano, com queda de 30% a 40% no consumo calórico em média.
Efeitos colaterais e contraindicações
Quem não pode usar?
As canetas emagrecedoras não são isentas de riscos e têm contraindicações importantes, como:
- Pessoas com alergia aos componentes da fórmula
- Pacientes com histórico de pancreatite
- Indivíduos com casos de carcinoma medular da tireoide na família
- Gestantes e lactantes
Reações adversas mais comuns
O uso dos medicamentos pode provocar diversos efeitos colaterais, especialmente no sistema gastrointestinal:
- Náusea e vômito
- Diarreia ou constipação
- Gastrite
- Refluxo gastroesofágico
- Dor abdominal
- Flatulência
- Cansaço
- Cefaleia
Segundo a Novo Nordisk, fabricante dos medicamentos, esses eventos são geralmente leves e passageiros, mas exigem acompanhamento médico.
Complicações mais sérias
Um dos riscos mais graves apontados na bula é a possibilidade de pancreatite aguda, embora rara (atinge até 1 em cada 100 pessoas). A endocrinologista Cynthia Valério destaca que o risco é maior em pessoas com histórico da doença, que devem evitar o uso.
Risco de uso indevido e compulsão alimentar
Especialistas também alertam que o uso sem orientação pode provocar efeito rebote — ou seja, o reganho de peso após a interrupção — e comportamentos compulsivos. A nutricionista Sophie Deram destacou em entrevista recente que há um uso crescente por vaidade, sem diagnóstico de obesidade, o que pode ser prejudicial.
Obesidade: um desafio de saúde pública

Números preocupantes no Brasil e no mundo
A obesidade já afeta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, cerca de 56% dos adultos estão com sobrepeso ou obesidade.
Além dos impactos estéticos, a obesidade está ligada a doenças crônicas graves, como:
- Diabetes tipo 2
- Hipertensão arterial
- Doença hepática gordurosa não alcoólica
- Doenças cardiovasculares
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A condição também está associada a uma redução significativa na expectativa de vida.
Tratamento farmacológico: um avanço
Estudos clínicos recentes apontam que medicamentos como os à base de semaglutida e liraglutida podem ter resultados comparáveis aos da cirurgia bariátrica em termos de perda de peso. No entanto, o uso precisa ser monitorado por médicos e não deve ser banalizado.
Anvisa mira também o mercado ilegal
Contrabando de canetas cresce no país
Com o aumento da demanda e a dificuldade de fiscalização, cresce o mercado ilegal desses produtos. Já houve casos em que canetas de emagrecimento foram apreendidas escondidas como material escolar ou até dentro da cueca de passageiros em aeroportos.
A nova exigência de retenção da receita visa também reduzir a facilidade de acesso a esses medicamentos de forma ilícita.
Apoio da indústria
A Novo Nordisk, responsável por grande parte da produção global de canetas com semaglutida, declarou apoio à medida da Anvisa. Em nota, afirmou que compartilha das preocupações com o uso irregular dos medicamentos e que está comprometida com o uso responsável de seus produtos.
O que esperar nos próximos meses?

Adaptação do comércio e mais fiscalização
Farmácias e drogarias terão 60 dias para se adaptar à nova regulamentação. A partir daí, a venda sem retenção da receita poderá configurar infração sanitária e estar sujeita a sanções.
A expectativa é que a medida:
- Reduza o uso indevido de medicamentos
- Minimize os riscos à saúde pública
- Incentive o tratamento supervisionado da obesidade
Especialistas consideram a medida positiva, mas defendem que ela deve ser acompanhada de campanhas de conscientização e ampliação do acesso a tratamentos multidisciplinares.
Conclusão
A decisão da Anvisa de exigir a retenção da receita médica para a venda de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Saxenda marca um passo crucial para conter o uso indiscriminado dessas substâncias no Brasil. Embora esses remédios representem uma inovação importante no tratamento da obesidade e diabetes, seu consumo sem orientação médica pode trazer sérios riscos à saúde. A nova regulamentação busca proteger a população e garantir que esses fármacos sejam utilizados de forma ética, segura e baseada em critérios médicos. Em um país onde mais da metade da população adulta tem sobrepeso ou obesidade, o debate sobre o uso consciente e responsável dessas terapias é mais necessário do que nunca.
