O Brasil vive um momento económico que desperta a atenção de economistas e famílias. De um lado, o país regista o maior número de pessoas a trabalhar da sua história, com o desemprego a cair para 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026. De outro, o atraso no pagamento de contas por parte de pessoas físicas atingiu o nível mais elevado já registado pelo Banco Central.
Afinal, como é possível que o número de trabalhadores empregados cresça e, ao mesmo tempo, as famílias enfrentem tantas dificuldades para manter o orçamento em dia?
A resposta para este paradoxo está no impacto prolongado dos juros altos sobre o orçamento, no custo acumulado do crédito e na própria dinâmica do mercado de trabalho. Compreender estes fatores é essencial para tomar decisões financeiras mais seguras no cenário atual.
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O cenário do emprego e do crédito no Brasil

Para compreender a situação, é necessário analisar dois grandes conjuntos de dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pelo Banco Central. Embora pareçam contraditórios, eles refletem diferentes lados da mesma economia.
Mercado de trabalho atinge recordes históricos
Segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE, a taxa de desocupação recuou para 5,3% no trimestre terminado em agosto. O total de trabalhadores ocupados alcançou o patamar histórico de 103,5 milhões de pessoas.
Deste grupo, 39,5 milhões possuem carteira assinada no setor privado, também um recorde para a série. O rendimento médio do trabalhador ficou em R$ 3.777, impulsionando a massa de salários para o valor recorde de R$ 385,6 bilhões. Além disso, o número de contribuintes para a previdência social chegou a 68,5 milhões de pessoas.
Inadimplência das famílias alcança o topo da série histórica
Em contrapartida, os dados do Banco Central mostram que a taxa de inadimplência média nas operações de crédito (atrasos superiores a 90 dias) subiu para 5%.
Focando no consumidor pessoa física, a taxa de atraso atingiu 6% no mesmo período. Trata-se do valor mais elevado desde o início da medição da série histórica do Banco Central, iniciada em março de 2011. Nas empresas, o indicador ficou em 3,3%.
Por que a inadimplência sobe mesmo com o desemprego em queda?
A relação entre emprego e quitação de dívidas não é imediata. Três fatores principais ajudam a explicar por que o endividamento em atraso cresce em um período de contratações em alta.
O peso dos juros elevados no orçamento
A taxa básica de juros (Selic) é o principal instrumento do Banco Central para controlar a inflação. Quando mantida em patamares elevados por longos períodos, o custo do crédito encarece em todas as modalidades.
Linhas de crédito rotativo — como o cartão de crédito e o cheque especial — tornam-se consideravelmente mais dispendiosas. Com isso, dívidas acumuladas no passado crescem a taxas expressivas, consumindo uma fatia cada vez maior da renda mensal dos trabalhadores.
Concentração das vagas e desaceleração do ritmo
Embora o saldo de empregos seja positivo, o crescimento recente das oportunidades concentrou-se principalmente em setores específicos, como a indústria (alta de 2%, ou mais 265 mil pessoas) e a construção civil (alta de 4,1%, ou mais 306 mil pessoas). Outros segmentos, como o comércio, mantiveram-se estáveis.
Especialistas apontam que a contratação perdeu ritmo nas demais áreas. Além disso, a evolução da renda média não tem ocorrido na velocidade necessária para cobrir o encargo dos financiamentos acumulados pelas famílias.
O tempo de resposta da economia
A política monetária opera com o chamado “efeito de defasagem”. Isso significa que o impacto dos juros sobre a economia leva meses para ser totalmente sentido.
Os primeiros sinais de arrocho no crédito aparecem na redução do ritmo de novas contratações pelas empresas. O estoque total de empregos demora mais tempo para reagir. Assim, enquanto a ocupação se mantém em níveis elevados, as contas contratadas no passado sob juros altos atingem o limite da capacidade de pagamento das famílias.
Radiografia dos indicadores sociais e econômicos
Abaixo estão resumidos os principais dados oficiais apurados pelo IBGE e pelo Banco Central:
- Taxa de desocupação (desemprego): 5,3%
- População ocupada: 103,5 milhões de pessoas
- População desocupada: 5,8 milhões de pessoas
- Empregados com carteira assinada: 39,5 milhões
- Trabalhadores na informalidade: 38,8 milhões (taxa de 37,5%)
- Inadimplência de pessoas físicas (>90 dias): 6,0%
- Inadimplência geral do crédito: 5,0%
- Massa de rendimento real: R$ 385,6 bilhões
O papel das contas públicas na trajetória dos juros
O resultado das contas do governo federal também influencia esse cenário. As contas públicas registaram um déficit primário — quando as despesas superam as receitas, excluindo os juros da dívida pública.
O equilíbrio das contas governamentais é acompanhado de perto pelos analistas financeiros. Quando as despesas públicas são controladas e a inflação dá sinais de convergência para a meta, o Banco Central encontra um ambiente mais favorável para reduzir a taxa Selic. A queda progressiva dos juros é o fator decisivo para aliviar o custo dos empréstimos a longo prazo.
Recomendações práticas para a gestão do orçamento
Em momentos de juros ainda elevados e desaceleração no ritmo do mercado de trabalho, a prudência no uso do dinheiro é essencial para evitar o superendividamento.
Priorize a liquidação de créditos caros
Linhas como o pagamento mínimo do cartão de crédito ou o saldo do cheque especial cobram as maiores taxas do mercado. Se houver necessidade de reorganizar dívidas, busque modalidades de crédito consciente com juros menores, como o empréstimo consignado ou a renegociação direta com a instituição financeira.
Faça o mapeamento completo dos débitos
Identifique o valor total devido, as taxas de juros aplicadas em cada contrato e o valor das parcelas mensais. Ter clareza sobre os compromissos fixos ajuda a definir quais contas devem ser pagas prioritariamente para evitar a perda de bens ou a inclusão em cadastros de restrição ao crédito.
Mantenha o foco no planejamento e na reserva
Mesmo com a estabilidade no emprego, evitar gastos não essenciais ajuda a criar uma margem de segurança no orçamento. Ter um fundo de emergência equivalente a alguns meses do custo de vida familiar garante proteção contra eventuais oscilações na renda ou despesas imprevistas.
Perguntas frequentes

O que explica a queda do desemprego junto ao aumento das dívidas?
A queda no desemprego reflete o aumento do total de trabalhadores ocupados. No entanto, os juros altos encarecem as dívidas acumuladas no passado, enquanto os salários atuais nem sempre crescem no mesmo ritmo do custo das parcelas do crédito.
O que o Banco Central considera como inadimplência?
O Banco Central considera como inadimplente a operação de crédito que apresenta pagamentos em atraso por um período superior a 90 dias. Atrasos inferiores a esse prazo são monitorados sob outras classificações pelas instituições financeiras.
A redução da taxa de juros alivia a inadimplência de imediato?
Não. A redução da taxa Selic barateia novos empréstimos e renegociações ao longo do tempo, mas a transmissão desse alívio para o orçamento das famílias ocorre de forma gradual.
Como consultar a situação de dívidas em meu nome?
A consulta de pendências financeiras e dívidas registadas pode ser feita de forma gratuita através da plataforma Registrato, mantida pelo Banco Central, ou pelos canais oficiais dos órgãos de proteção ao crédito.
